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Há 70 anos os EUA lançavam a primeira bomba atômica sobre Bikini. O que sobrou hoje

Americanos removeram moradores de atol paradisíaco no meio do Pacífico para explodir 67 bombas atômicas. Para ONU, contaminação é ‘quase irreversível’

     

    Hiroshima e Nagasaki, no Japão, são reconhecidas como as duas únicas cidades do mundo atacadas com bombas nucleares, em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial, pelos EUA. Mas um pequeno arquipélago isolado no meio do oceano Pacífico, chamado Marshall, foi alvo de 67 explosões semelhantes entre 1946 e 1958. Uma dessas explosões, conhecida como Teste Bravo, em 1954, foi mil vezes mais poderosa do que a bomba de Hiroshima.

    Apesar das mortes e da devastação da ecologia, da economia, da cultura e da história, principalmente do pequeno Atol de Bikini, esses eventos sempre ocuparam a nota de rodapé da história da Guerra Fria, dada a pouca importância geopolítica do local.

    No meio do Pacífico

     

    A expressão Guerra Fria se refere às décadas de disputa entre dois polos formados após a Segunda Guerra Mundial - um, capitalista, sob a esfera de influência dos EUA e outro, comunista, sob influência da URSS.

    Por que as explosões foram realizadas

     

    Na época, os testes americanos foram apresentados como um pequeno sacrifício para que se obtivesse uma vitória definitiva pela paz. A tese apresentada por Washington era a de que a superioridade nuclear absoluta desencorajaria qualquer hipótese de agressão soviética, mantendo assim uma estabilidade forçada.

    A URSS e os EUA não entraram, de fato, em guerra, mas a corrida nuclear em que se envolveram acabou provocando danos irreversíveis em países que estavam sob suas esferas de poder - como no caso das Ilhas Marshall, onde está o Atol de Bikini, usadas para dezenas de testes atômicos.

    Hoje faz 70 anos do início desses testes. Ao longo de todo esse período, os moradores ficaram impedidos de voltar a Bikini e perderam as demandas por indenizações adicionais, cobradas sem sucesso do governo americano desde então.

    Remoção forçada e contaminação

    Bikini não era deserta - 167 pessoas viviam nas 23 ilhotas que compõem o arquipélago, parte das Ilhas Marshall, na região da Micronésia. Com o início dos testes atômicos, seus moradores foram removidos por militares americanos e, desde então, vivem exilados em ilhas próximas.

    No início dos anos 1970, cientistas dos EUA garantiram que Bikini estava livre de contaminação e afirmaram que seus moradores poderiam voltar. Mas, em 1978, eles acabaram novamente removidos depois de terem sido registrados altos índices de contaminação pela ingestão de alimentos produzidos no atol.

    “Os efeitos da radiação foram exacerbados para uma contaminação ambiental quase irreversível, levando à perda dos meios de subsistência e das terras. Além disso, muitas pessoas continuam a viver deslocadas por um período indefinido”

    Calin Georgescu

    Relator especial da ONU

    A contaminação não ficou restrita a Bikini. Material radioativo chegou rapidamente nas ilhas vizinhas e até em locais distantes, como a Austrália.

    À época, os americanos estudaram exaustivamente o impacto da radiação sobre os moradores de toda a região das Ilhas Marshall e, por isso, foram acusados de realizar experimentos científicos com cobaias humanas, para medir o poder destrutivo do arsenal que estavam produzindo.

    A maior parte das mortes foi provocada por contaminação radioativa. Os casos de câncer dispararam e 85% deles foram atribuídos - num estudo do ano 2004 - ao efeito das explosões. A Agência Internacional de Energia Atômica disse que nenhum alimento produzido na ilha pode ser consumido.

    Briga por indenizações

    Os EUA nunca se desculparam pelos testes. Eles se referem aos “acidentes” ocorridos nos testes, quando falam das mortes provocadas por radiação.

    Em 1986, o Congresso americano aprovou a criação de um fundo de US$ 150 milhões, a título de compensação aos moradores das ilhas. O investimento feito com esse dinheiro gerou uma renda anual de US$ 18 milhões a ser paga diretamente ao governo das Ilhas Marshall.

    Adicionalmente, os EUA fizeram aportes pontuais para a construção de instalações médicas e outras instalações. Mas, em setembro de 2000, os moradores do arquipélago reivindicaram fundos adicionais, alegando que os danos foram muito mais extensivos do que o previsto inicialmente. A Suprema Corte dos EUA negou a demanda em 2004.

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