Ir direto ao conteúdo

Quais são as iniciativas para ajudar travestis e transexuais a conseguir trabalho

Empregadores interessados em contratar essa população podem anunciar vagas ou buscar por currículos em sites especializados

    Com dificuldade para obter aceitação nas escolas, travestis e transexuais tendem a encerrar seus estudos cedo. O preconceito continua a ser um obstáculo na vida adulta, o que tira essa população do mercado de trabalho e a empurra para atividades marginalizadas e perigosas, como a prostituição.

    Plataformas on-line têm buscado, no entanto, criar alternativas. Na quarta-feira (29), militantes LGBT lançaram o site Transerviços.

    A página agrega trabalhos oferecidos por profissionais transexuais. Ela também anuncia serviços que atendam essa população sem discriminá-la - é comum a dificuldade em encontrar, por exemplo, médicos com experiência em transexuais.

    Desde 2013 existe também o site TransEmpregos, que agrega currículos de transexuais e travestis e oferece vagas de estágio, freelance, meio período e período integral para esse público em áreas que vão do direito à beleza.

    De acordo com Sayonara Neves, secretária de comunicação da rede TransBrasil, ONG que milita pelos direitos de transexuais, e professora do ensino médio da rede pública de Minas Gerais, esse tipo de iniciativa ajuda a lidar com a falta de políticas públicas que garantam o direito dessas pessoas de entrar no mercado de trabalho.

    Entenda o que define transexuais e travestis e as dificuldades que essa população encontra no mercado de trabalho.

     

    O que significa ser transexual ou ser travesti

    Transexual

    É a pessoa que se identifica com o gênero oposto ao seu sexo biológico. Ela pode ter feito a cirurgia de mudança ou não. A cartunista Laerte é uma mulher trans: nasceu homem, se tornou mulher. Thammy Miranda é um homem trans: nasceu mulher, se tornou homem.

    Travesti

    É quem assume papéis de gênero feminino, mas não se reconhecem como mulheres ou homens. É o ‘terceiro gênero’. Mas elas sempre devem ser tratadas no feminino. A palavra ‘travesti’ é muito estigmatizada, e discute-se que ela seja substituída apenas por ‘transgênero’.

    Problemas enfrentados por essa população

    Tanto transexuais quanto travestis enfrentam obstáculos da infância à vida adulta.

    Dificuldade para estudar

    Segundo Roberta Fernandes, jovens travestis e transexuais têm dificuldade para se qualificar.

    Leis e portarias determinando que recebam em escolas tratamento pelo nome social - aquele com o qual se identificam e se apresentam, e não o presente em sua certidão de nascimento - são recentes e dispersas em municípios e Estados.

    Não há um dispositivo que garanta esse direito em todas as instituições de ensino no país, tampouco o de usar o banheiro adequado à identidade de gênero.

    Por isso, ainda é comum que transexuais e travestis que assumem nomes femininos sejam tratadas por colegas, pela diretoria e por professores como garotos, e que o oposto ocorra para transexuais homens.

    “A escola foi criada para o homem branco, hétero e cristão. E o corpo transexual causa estranhamento nesse espaço”

    Sayonara Neves

    Secretária de comunicação da rede TransBrasil e professora do ensino médio da rede pública de Minas Gerais

    Esse é um dos fatores que contribuem para que se saiam mal e abandonem os estudos. Como consequência, sua empregabilidade diminui durante a vida adulta.

    82%

    Das travestis e mulheres transexuais abandonam o ensino médio entre os 14 e 18 anos, segundo estudo realizado pela Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (RedeTrans) com dados de ONGs

    Preconceito

    Além disso, o preconceito continua. Segundo Sayonara Neves, a barreira ocorre na fase da entrevista de emprego. “É só chegar para a entrevista ao vivo que os empregadores dizem que a vaga foi fechada ou já foi preenchida. Mesmo eu que tenho graduação não consigo emprego na rede privada."

    Resultados

    Baixa escolaridade e empregabilidade contribuem para empurrar transexuais para as margens da sociedade, onde são vítimas de violência.

    Marginalização

    Nascida, batizada e criada como menino em uma família conservadora, a transexual Cristiane Beatriz Santos cedeu a pressão e decidiu, quando jovem, esconder a sua própria identidade como garota. A atitude permitiu que concluísse o ensino fundamental em um seminário religioso para meninos.

    Na vida adulta, assumiu sua sexualidade e chegou a trabalhar em uma ONG voltada para transexuais em Goiânia. Em entrevista concedida ao Nexo em maio para falar sobre o processo de transgenitalização, afirmou, no entanto que, quando a ONG fechou por falta de financiamento se viu com dificuldade para conseguir outro emprego e pagar suas contas.

    Antes de realizar a sua operação, chegou a “ir para a rua” para tentar trabalhar como prostituta.

    “Os clientes queriam que eu trabalhasse como ativo, mas isso não fazia sentido para mim, e eu tinha muito constrangimento do meu órgão sexual. Fui uma vez só e não voltei”

    Cristiane Beatriz Santos

    Educadora social e militante do Fórum de Transexuais do Estado de Goiás

    Em entrevista concedida em maio para o Nexo, a psicóloga e militante transexual Roberta Fernandes afirmou que casos como o de Cristiane não são exceção e que a baixa empregabilidade leva muitas trans a recorrer à prostituição.

    90%

    Das transexuais mulheres e travestis trabalham na prostituição, segundo a Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (RedeTrans) com dados de ONGs 

    Violência

    A marginalização deixa transexuais mais vulneráveis à violência. Anualmente, o GGB (Grupo Gay da Bahia) realiza um levantamento do número de LGBTs mortos no país.

    Em 2015, de 318 casos de assassinato contra LGBT registrados em notícias de sites e jornais, 119 eram de transexuais, uma proporção expressiva apesar de a população desse grupo ser menor do que a de gays e lésbicas. Para a entidade, a marginalização do grupo contribui para essas mortes.

    A dificuldade de conseguir emprego

    Segundo Sayonara Nogueira, empresas de telemarketing também têm contratado transexuais e travestis, mas o principal fator de aceitação desse público é o fato de que não aparece para os clientes. “Você continua sendo ocultada. E mesmo nessas empresas não aceitam que você use nome social ou o banheiro de acordo com a identidade de gênero.”

    Ela afirma que é comum transexuais e travestis recorrerem a concursos públicos, uma maneira de desviar da barreira das entrevistas de emprego. Ela avalia que iniciativas que buscam ativamente empregar esse público podem ajudar a contrabalançar esse problema.

    “Comecei a estudar licenciatura porque via o ensino como um espaço feminino em que eu poderia me encaixar e que tinha a possibilidade de concurso público. Eu tenho graduação, mas não consigo encontrar emprego na rede privada de ensino em Uberlândia”

    Sayonara Neves

    Secretária de comunicação da rede TransBrasil e professora do ensino médio da rede pública de Minas Gerais

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!