Por que muitas pessoas ainda resistem a pagar por música

Jovens são mais propensos a pagar para usar serviços de streaming, o que pode ser um bom sinal para o mercado. Mas número ainda é baixo: só 10% dos usuários desembolsam algo para ouvir música

     

    Em 2007, um artigo do jornal inglês “The Guardian” cravou que “ninguém quer mais pagar por música”. Era o auge da crise do mercado musical: o iPod, tocador de música da Apple, já era um hit mercadológico. O iPhone, que mudou paradigmas sobre dispositivos móveis e reinventou a internet móvel, tinha acabado de ser lançado.

    O que mudou quase dez anos depois? Hoje, as gravadoras e artistas se organizaram de maneira a vender música no formato digital. Serviços como a iTunes Store, da Apple, e a Google Play, do Android, vendem os arquivos musicais, protegidos de maneira que você não consiga copiá-los para outros dispositivos.

    Mas o modelo mais popular de consumo de música digital em 2016 é o streaming. Serviços como o Spotify, Deezer, Rdio e a Apple Music cobram uma taxa mensal dos usuários para disponibilizar um catálogo musical completo, acessado por meio de uma conexão à internet. Outros, como o YouTube, têm um modelo que reverte parte da renda de anúncios em vídeos para os responsáveis pelos vídeos.

    De acordo com uma pesquisa divulgada no dia 28 de junho pela GlobalWebIndex, 63% dos usuários da internet do mundo todo ouvem música por meio de serviços de streaming. No entanto, apenas 10% do total paga por esses serviços.

    Jovens de 16 a 24 anos são mais propensos a pagar por serviços de streaming

    Isso significa que a maioria dos usuários de streaming faz uso de serviços gratuitos, como o YouTube, ou as modalidades abertas do Spotify ou do Deezer, que exibem propagandas entre as músicas.

    É um número relativamente baixo, mas a conclusão não é exatamente ruim para a indústria musical - especialmente levando em conta a análise do “The Guardian” de quase 10 anos atrás.

    Além disso, a pesquisa também identificou que, entre os usuários mais jovens, entre 16 e 24 anos, uma porcentagem maior de pessoas paga por serviços de streaming. O estudo conclui que o fato de que os jovens estejam mais dispostos a pagar por música pode ser encorajador para a indústria.

    Por que ainda há resistência

    Uma pesquisa de 2015 do instituto Nielsen feita apenas entre usuários norte-americanos fez um raio-x do mercado de consumo de música nos EUA. Entre outras coisas, eles perguntaram aos usuários que não pagavam por serviços de streaming porque eles não o faziam.

    46%

    diz que é muito caro

    42%

    diz que tem acesso a outras formas, gratuitas, de ouvir música

    38%

    diz que não ouve música o suficiente para justificar um gasto com isso

    O estudo do instituto Nielsen identificou números muito menores de consumidores pagantes de música digital: apenas 1% dos usuários de internet.

    Ainda assim, outros 9% disseram considerar “provável” que pagassem por música em streaming nos seis meses seguintes - o que aproxima o resultado da pesquisa mais recente, da GlobalWebIndex. A pesquisa do instituto Nielsen conclui que o mais popular serviço de streaming de música ainda é o YouTube, que é gratuito.

    “Custa caro”

    A justificativa referente ao alto preço bate de frente com outro resultado encontrado pela pesquisa feita em 2015 pelo instituto Nielsen. 83% das pessoas que assinam serviços de streaming responderam que a maior razão pela qual o fazem é o preço baixo.

    No Brasil, custa cerca de R$ 15 mensais assinar um serviço de música por streaming. Parece um preço razoável a se pagar diante da média de custo de um CD ou Blu-Ray, que não sai por menos de 30 reais a unidade, nos casos mais baratos.

    Mesmo assim, R$ 15 ainda é mais do que pagar nada - que é o caso de quem passou toda vida digital baixando músicas no formato MP3 ou usando serviços gratuitos de streaming. O hábito de baixar música de graça, construído entre as primeiras gerações de usuários da internet, também gera a noção cultural de que "não vale a pena" pagar por música.

    O jornalista Kirk McElhearn, do site Macworld, tem outra teoria. Para ele, o motivo pelo qual o mercado de streaming pago cresce tão devagar é que simplesmente não haja gente suficiente que se interesse tanto por música a ponto de pagar por isso - ainda mais em contraste com a possibilidade de obtê-la gratuitamente no YouTube, por exemplo.

    “Eu acho que as pessoas na indústria musical estão deixando passar uma coisa muito importante. A maioria das pessoas não liga muito pra música. Eles podem querer ouvir alguns dos hits, e vão fazer isso no rádio, ou com um serviço gratuito que seja bancado por anúncios, como o Spotify ou YouTube. Essas pessoas usam música como papel de parede. Não são fãs, música simplesmente não é importante o suficiente para fazê-las pagar.”

    Kirk McElhearn

    Jornalista

    Abaixar o preço para atrair esse tipo de usuário não parece ser uma alternativa para as empresas de streaming. Mesmo com os valores atuais, há reclamações por parte de artistas sobre o baixo valor do repasse para os autores das músicas por parte desses serviços.

    O site DigitalMusicNews diz que a solução pode estar em abraçar outras formas de monetizar música que estejam mais longe dos formatos tradicionais.

    O texto sugere que há tipos diferentes de consumidores de música, que combinam hábitos diferentes de consumo. E que os artistas precisam saber diversificar seus produtos para atrair todos os tipos de consumidores.

    Há os que topam pagar caro em ingressos de shows e em merchandising, mas ouvem música de graça no YouTube; há também aqueles que não gastam com camisetas ou edições especiais de discos, mas topam apoiar o lançamento de um vídeo por crowdfunding ou pagar uma taxa mensal para ouvir música à vontade.

    “[Hoje], o álbum [musical] é o que traz os fãs até a porta de entrada. Fisga ele. O álbum é só a introdução, não é mais o final da história. É a ponte. E o álbum é encontrado no Spotify, no YouTube e no PirateBay com poucos cliques”, sugere.

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