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Por que a ‘cultura das princesas’ ainda é um problema para as meninas

Apesar de uma tentativa da Disney de se adaptar aos novos tempos, as protagonistas de animações e os produtos relacionados a elas permanecem reproduzindo alguns estereótipos

     

    Princesas da Disney são, há décadas, as primeiras referências de feminilidade para muitas meninas. E, há décadas, estabelecem ou perpetuam certos padrões do que é ser mulher.

    Duas pesquisas, uma americana e outra brasileira, abordaram a questão para mostrar a influência que a “cultura das princesas” exerce sobre crianças e os problemas que podem causar em termos de autoestima e estereótipos de gênero.

    O primeiro estudo, “Girando entre princesas”, é brasileiro e foi publicada em 2012. O segundo, “Pretty as a Princess” (bonita como uma princesa) é americano e foi divulgado no início de junho de 2016.

    Ambos chegam às mesmas conclusões: as princesas, em especial as clássicas, ajudam a disseminar a ideia de que meninas e meninos têm tarefas diferentes, devem se comportar de forma diferente e ter objetivos de vida diferentes. No caso das meninas, ele muitas vezes se resume a encontrar o “príncipe encantado”.

    Mesmo as mais recentes produções da Disney que destacam mulheres mais fortes, independentes e ousadas - como “A Princesa e o Sapo” (2009), “Valente” (2012) e “Frozen” (2014) - ainda mantêm alguns estereótipos.

    Além de ainda estarem presos a certos padrões de beleza, os filmes não vão muito além de uma independência que a mulher moderna já conquistou, segundo Michele Escoura, antropóloga e autora do estudo de 2012. Ou seja, não se trata de uma quebra de paradigma, e sim de uma adaptação à realidade.

    Trata-se de um processo já iniciado no fim dos anos 80 que seguiu pelos anos 90, com personagens mais ousadas e questionadoras como “A Pequena Sereia” (1989) e “Mulan” (1998).

    Para as pesquisadoras, o marketing em torno das princesas é, na verdade, o principal responsável por nutrir a cultura em questão, inclusive de animações tão antigas quanto “Cinderela” (1950) que, por ainda estamparem produtos que vão de mochilas a bonecas, permanecem como referência para meninas nos dias de hoje.

    A marca “Princesas Disney” foi criada em 2000 para licenciar os brinquedos feitos sobre as imagens das personagens. Desde então, tornou-se uma indústria de US$ 500 milhões. 

    “A Disney não está se tornando uma empresa feminista, mas precisa garantir o público se adaptando à sociedade.”

    Michele Escoura

    Antropóloga e autora de “Girando entre princesas”

    Os problemas no processo

    Para Michele Escoura, responsável pela pesquisa de 2012 e autora do livro “Diferentes, não desiguais - A questão de gênero na escola”, as mudanças nas personalidades das princesas não se deve a um esforço político.

    “Todas as produtoras têm que cumprir com um grau de realismo para o público se identificar e isso é um condicionante para a bilheteria”, disse ao Nexo. “O cinema comercial funciona a partir dessa lógica de se atualizar pelas mudanças da sociedade. A Cinderela fez muito sucesso na década de 1950 porque dialogava com o ideal de feminilidade daquela década. Houve mudanças muito drásticas desde então, as mulheres mudaram muito, o que constitui o ideal de mulher mudou muito. As personagens precisam dialogar com novos contornos.”

     

    Além disso, lembra a antropóloga, a Disney não se desvinculou dos padrões de beleza. “As princesas de ‘Frozen’ obedecem os padrões eurocêntricos. E mesmo Tiana [de “A Princesa e o Sapo”], a primeira princesa negra, não tinha o cabelo crespo. Há ainda certa relutância.”

    Sobre a  questão, em entrevista ao jornal “The Guardian”, a psicóloga Sarah M. Coyne, autora do estudo mais recente sobre o tema, lembrou a transformação pela qual passou a princesa Merida, de “Valente” (2012), das telas para as prateleiras: suas bonecas chegaram às lojas mais magras, maquiadas e sem o arco e flecha característico que porta nos filmes.  

    No caso de Merida, na época, uma campanha on-line obteve milhares de assinaturas para mudar as feições tracejadas nos brinquedos. A Disney acabou voltando atrás na versão criada.  

    Não foi a primeira vez que uma petição se volta às princesas do estúdio: estudantes colegiais dos Estados Unidos organizaram um abaixo-assinado em 2014 exigindo princesas plus-sizes - mas a campanha foi bem menos sucedida. 

    Para a americana, não é necessário afastar completamente crianças da “cultura de princesas” - principalmente considerando-se a abundância de filmes, brinquedos e produtos relacionados a ela.

    No entanto, diz, é importante que pais mostrem aos filhos outras opções de brinquedos e atividades com que podem se envolver, fazendo das personagens da Disney apenas mais um elemento do universo infantil.

     

    O que disseram as pesquisas

    As duas pesquisas exploraram os efeitos do que chamam “cultura das princesas” - difundida pelo marketing em torno dos filmes da Disney - e a influência que ela tem para a construção do ideal de feminilidade entre as crianças.

    “Sabemos que garotas que se apegam aos estereótipos de princesas sentem que não são capazes de fazer algumas coisas. Elas não são confiantes em se dar bem em matemática ou ciência. Elas não gostam de se sujar, então ficam intimadas em experimentar coisas”, afirmou Coyne ao jornal da Brigham Young University - instituição de Utah, nos Estados Unidos, da qual faz parte.

    Tanto ela como Escoura conversaram com 200 meninas e meninos da pré-escola para descobrir o quanto a opinião deles era afetada pela imagem das personagens.

    Coyne observou como as crianças interagiam com o universo criado pela Disney, desde a frequência com que vêm os filmes até os brinquedos que levavam consigo. Elas foram testadas duas vezes no intervalo de um ano entre cada uma.

    De acordo com o estudo, 96% das garotas e 87% dos garotos tiveram contato com os desenhos da Disney. Mas enquanto 61% das meninas brincam com produtos licenciados pela marca, apenas 4% dos meninos fazem isso.

    Ao final, o trabalho constatou que quanto maior a relação das meninas com os filmes de princesa em geral, maior a reprodução de um comportamento de gênero estereotipado com o passar do tempo. Essas garotas também apresentavam maiores problemas de autoestima relacionados ao corpo.

    “Mulheres são expostas ao ideal esbelto de beleza durante toda a vida, e  isso começa com as princesas da Disney, quando elas têm três e quatro anos.”

    Sarah M. Coyne

    Pesquisadora da Brigham Young University

    Já Michele Escoura se ateve à figura de apenas duas protagonistas: Cinderela e Mulan. A escolha foi feita pois, em 2012, época da pesquisa, o site da Disney distinguia as princesas em duas categorias: clássicas e rebeldes, que Escoura decidiu explorar.

    Após exibir os filmes para as crianças, pediu para que desenhassem o que mais lhes chamava atenção, além de observar como levavam as personagens para suas brincadeiras e fazer questionamentos do tipo “o que é preciso para ser uma princesa?”.

    As respostas giravam em torno do histórico: “jovem, bonita, magra, possuir joias e vestidos e casar-se com um príncipe.” A personagem chinesa que se veste como homem para poder ir à batalha muitas vezes sequer era considerada uma princesa. 

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