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Por que cientistas britânicos e europeus estão preocupados com o Brexit

Saída dos países britânicos da União Europeia deve afetar financiamentos na área de desenvolvimento e pesquisa, além da integração entre pesquisa científica nos países da Europa

    Anthony Wilson é um pesquisador em entomologia do Pirbright Institute, em Surrey, na Inglaterra. Desde que os britânicos votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia no dia 23 de junho, Wilson tem inundado seu perfil no Twitter com memes e posts preocupados com o impacto da decisão na área de pesquisa científica no Reino Unido.

    Ele não é o único. A revista “Nature” entrevistou pesquisadores e coletou mensagens nas redes sociais escritas por cientistas que estão apreensivos e incertos diante das possíveis consequências do Brexit (União entre as palavras “Britain” - “Bretanha” - e “exit” - “saída”) para suas carreiras e para o desenvolvimento científico no Reino Unido. Uma pesquisa publicada na revista identificou que 83% dos cientistas não queriam o rompimento.

    Outra publicação científica, a “Science Mag”, também publicou um texto com depoimentos de cientistas que “deploram” a saída do Reino Unido do bloco.

    Eles têm medo que a saída da União Europeia resulte em uma queda no total de volume de investimentos em pesquisa científica para o Reino Unido, já que os países britânicos não teriam mais acesso aos fundos e programas comuns de fomento científico do bloco.

    O financiamento em pesquisa e desenvolvimento que vem da União Europeia é crucial para os países britânicos nas áreas de sistemas informáticos, nanotecnologia, engenharia e cura do câncer.

    Outra preocupação dos cientistas tem a ver com limitações nas possibilidades de livre trânsito de cientistas britânicos nos países europeus, que acaba com a saída da UE, além da integração científica entre o Reino Unido e os outros países.

    Como os pesquisadores estão reagindo

    A vice-reitoria e o DTC (“Doctor Training Center”, responsável pelos doutorados) da Universidade de Oxford enviaram e-mails a alunos e pesquisadores entre os dias 24 e 27 de junho. O Nexo teve acesso às mensagens, que tinham como tom geral tranquilizar os pesquisadores sobre a estabilidade de suas bolsas de estudos

    “Recebemos muitos e-mails de estudantes do DTC compreensivelmente preocupados, perguntando sobre o resultado lamentável do referendo da última semana. [...] Qualquer financiamento que o DTC já dá, ou já concordou em dar no futuro, está garantido”, escreveu o diretor do DTC, David Gavaghan.

    A vice-reitora de Oxford, Louise Richardson, também escreveu um e-mail para tranquilizar os alunos. Na mensagem, ela diz que “não há razão para assumir que vai haver qualquer mudança imediata no status do visto de alunos e equipe atuais ou futuros; nem nenhuma mudança na nossa participação em programas como Horizon 2020 e Erasmus”.

    Alguns cientistas estão enfrentando dificuldades imediatas. O anúncio da saída do Reino Unido da UE fez com que o valor da Libra, a moeda britânica, despencasse frente ao Euro. Como consequência disso, uma pesquisadora inglesa que mantém um blog contou em um post que a bolsa que recebe do Reino Unido para se manter na Holanda, onde estuda História, perdeu muito valor em poucos dias - já que a bolsa é oferecida em Libras, e a moeda holandesa é o Euro.

    “Olhando pelo lado bom, minha bolsa da União Europeia é paga em Euros, então nossa verba para consumo está aumentando a cada segundo (em Libras)”, escreveu Anthony Wilson no Twitter

    Fundos da UE substituem falta de verba

    De acordo com um relatório publicado em maio pela empresa de desenvolvimento de tecnologia para pesquisadores DigitalScience, os fundos da União Europeia foram responsáveis por mais de 40% do financiamento de pesquisas sobre câncer no Reino Unido na última década.

    Pesquisas na área de tecnologia da informação e sistemas receberam cerca de um bilhão de libras dos fundos da UE no mesmo período - mais do um terço do que o governo britânico injetou na área no total.

    “O Reino Unido é dependente de financiamento [em pesquisa e desenvolvimento] da UE em um nível preocupante. Por um lado, é ótimo ser bem sucedido, mas por outro, se tirarem isso de nós, será um corte significativo de verbas.”

    Daniel Hook

    Diretor da DigitalSciente, em entrevista ao jornal The Guardian

    As principais universidades inglesas também contam com verbas da UE. As cinco maiores e mais importantes - Oxford, Cambridge, UCL, Imperial e Edinburgo, juntas, receberam mais de 2 bilhões de libras de fundos europeus nos últimos dez anos. Isso representa um quinto do total de investimentos feitos pelo governo britânico.

    O relatório conclui que o Brexit é especialmente preocupante para a área científica no Reino Unido porque os fundos para fomento científico da UE foram usados pelo país para “tapar o buraco” da falta de investimentos do governo local em ciência.

    O Reino Unido é o segundo país do mundo em desenvolvimento científico, com o maior número de pesquisas citadas depois dos EUA. Mas investe apenas 1,7% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento científico - a recomendação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico é um investimento na ordem de 2,4% do PIB.

    Os EUA, em primeiro lugar, investem 2,8%. O relatório da DigitalScience conclui que o pouco investimento do governo britânico em ciência não explica a posição privilegiada dos países do Reino Unido em pesquisa tecnológica - e isso é compensado pelos investimentos da UE.

    Além disso, a contribuição do Reino Unido para projetos de pesquisas na UE de 2007 a 2013 foi menor do que a quantia que os países britânicos receberam de volta em financiamento nessa área no mesmo período. Para cada libra que o contribuinte britânico enviou para a UE para pesquisa e desenvolvimento, o Reino Unido recebeu de volta 1,6 libras.

    Incapacidade de financiamento

    É improvável que o governo britânico seja capaz de fazer frente à toda verba para ciência e tecnologia que a União Europeia provê ao Reino Unido quando o país sair do bloco.

    “Seria imprudente fingir que [as verbas] seriam fáceis de substituir no caso do Brexit."

    Jo Johnson

    Ministro da Ciência do Parlamento Britânico, em entrevista

    A saída da UE não significa que o Reino Unido não poderia se beneficiar do financiamento do bloco em suas pesquisas científicas. Países não-membros da União Europeia recebem financiamento ocasional em pesquisa e desenvolvimento por parte do parlamento europeu.

    Mas o volume é muito menor. Nos últimos 10 anos, apenas 7% da verba total para pesquisa da União Europeia foi para países não-membros. Israel e Noruega, por exemplo, são alguns dos atuais beneficiados - a Noruega, a que mais recebe financiamento da UE sem ser um país-membro, teve acesso a cerca de 10% do financiamento que o Reino Unido recebeu no mesmo período.

    Além disso, há precedentes que preocupam os cientistas ingleses. Em 2014, a Suíça foi punida pela União Europeia por um referendo para limitar a imigração por meio de cotas para nacionalidades.

    Na ocasião, a União Europeia suspendeu o acesso da Suíça a financiamento e colaboração científica. Depois de longas negociações, o país pôde participar do programa europeu de fomento à ciência, o Horizon 2020, mas com restrições.

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