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Brexit: por que nacionalismo e nostalgia pesaram mais do que o sonho de integração

Especialistas baseados em Londres analisam as causas e as consequências da decisão britânica de deixar a maior iniciativa de integração regional do mundo

     

    A escolha da população britânica por sair da União Europeia, sacramentada por um referendo realizado na quinta-feira (23) com resultados apertados - a diferença foi de quatro pontos percentuais pela separação - era tida como improvável pelo resto do mundo. Apesar das pesquisas prévias já apontarem um equilíbrio entre os dois lados, a confirmação do que ficou conhecido como ‘Brexit’ - do inglês British exit (saída britânica) - surpreendeu.

    Após 43 anos o Reino Unido deixa um projeto concebido, entre outros motivos, para criar um ambiente de paz e coesão após um século 20 marcado por guerras mundiais que destruíram boa parte do continente duas vezes.

    A incerteza quanto ao futuro britânico é clara. David Cameron, primeiro-ministro nos últimos 6 anos e que fez campanha pela permanência, anunciou logo após os resultados que renunciará ao cargo. O mercado financeiro acusou o golpe e as horas que sucederam o anúncio dos resultados das urnas viram uma queda livre na cotação da Libra Esterlina, moeda do Reino Unido. Há quase um consenso entre os especialistas de que, pelo menos no curto prazo, os britânicos passarão por uma recessão e o crescimento econômico será reduzido por alguns anos.

    O Nexo entrevistou especialistas baseados em Londres sobre as causas e as consequências da decisão britânica.

    Conjunção de fatores

    É impossível definir de forma simples a decisão tomada pelos britânicos. Uma série de fatores, tanto momentâneos quanto históricos, contribuíram para seu rompimento com a União Europeia. Para o professor de Economia Pública do Instituto Europeu da London School of Economics, Nicholas Barr, “não é apenas conservadorismo da direita. O voto pelo Brexit é em grande parte o resultado de uma coalizão entre eleitores mais velhos, nostálgicos por um passado que já acabou faz tempo, e trabalhadores marginalizados que sentem que a globalização os deixou de fora, e que políticos ignoram suas demandas”, disse ao Nexo.

    Em um extenso artigo escrito em formato de carta aos amigos e publicado no fim de maio, Barr explicou por que votaria pela permanência do Reino Unido, e fez um apelo para que seus leitores acompanhassem seu voto. No documento, que repercutiu largamente no país, lista diversos fatores econômicos e sociais que refutam os argumentos da campanha pelo Brexit.

    “Existe uma (razoavelmente) coesa identidade europeia centrada em um âmago de valores e cultura. Infelizmente, essa identidade tornou-se confusa com as incômodas instituições da União Europeia”

    Nicholas Barr

    Professor da London School of Economics, ao Nexo

    As políticas conjuntas do grupo formuladas em Bruxelas, capital da Bélgica e centro político da União Europeia, foram percebidas pelos favoráveis ao Brexit como as causadoras dos problemas sociais e econômicos britânicos. O antagonismo foi ainda amplificado pela campanha a favor da saída, protagonizada pelo líder do partido de extrema-direita Ukip (Partido pela Independência do Reino Unido), Nigel Farage. Já as políticas migratórias não tiveram um peso tão grande na decisão, segundo Barr, mas foram “enormemente importantes simbolicamente e, consequentemente, politicamente”, ponderou.

    Negociação de saída

     

    O risco de desmantelamento da União Europeia terá efeitos nas negociações que ainda serão conduzidas entre as duas partes para definir os termos da separação. Barr considera preocupante a possibilidade de que grupos políticos nacionalistas de outros países - como França, Holanda, Alemanha e Dinamarca - se aproveitem do acontecimento para tentar seguir o mesmo caminho.

    “Por esse motivo, a União Europeia será bastante dura nas negociações com o Reino Unido, para tentar ter certeza de que outros países não considerem a saída da UE como uma solução simples [para seus problemas]”

    Nicholas Barr

    Professor da London School of Economics, ao Nexo

    Passado, presente e futuro

    Em entrevista ao Nexo, o professor de Política Europeia e Internacional da universidade King’s College London, Cristoph Meyer, concorda com Nicholas Barr sobre a existência de uma identidade compartilhada na Europa, mas considera que ela não supera as nacionais. Por outro lado, é cético com relação ao possível “efeito dominó” nos outros países do bloco, e acha que o contexto britânico criou uma visão anti-Europa muito mais forte do que a existente em qualquer outro lugar.

    O que o Brexit revela sobre a ideia de que existe uma identidade europeia coesa? Isso existe? Alguma vez existiu?

    Cristoph Meyer Sim, ela existe, mas claro que não tão forte quanto as identidades nacionais. Você vê que a Escócia não tem problemas com a ideia de ser escocês, europeu e britânico, e Londres com certeza é bastante europeia e internacional. O ressurgimento do nacionalismo inglês, por sua vez, foi construído parcialmente como uma oposição à Europa (e à Alemanha) desde a década de 1980. Você também consegue perceber esse sentimento europeu mais forte em outros países, como Alemanha e Itália. Falar de identidades é sempre vago.

    Qual a chance de que outros países sigam o mesmo caminho do Reino Unido?

    Cristoph Meyer Apesar de tudo o que vem se dizendo sobre efeito dominó, eu acho que as chances são baixas. Em parte porque os efeitos de sair do Euro também seriam enormes. E em parte porque não há, na Europa continental, algo parecido com o trabalho da imprensa inglesa em criar uma falsa imagem da União Europeia, ao dizer que ela não é democrática e que se coloca como toda-poderosa há décadas. Outros países europeus ainda têm um sentimento idealista em relação à Europa. Isso vai depender um pouco, também, do quão bem ou mal o Reino Unido - e a Inglaterra individualmente - vão se sair nos próximos anos [o apoio à saída foi maior na Inglaterra do que na Escócia].

    Qual a relação entre conservadorismo de direita e Brexit? Há alguma ligação direta?

    Cristoph Meyer Com certeza. Ukip é um partido de direita com visões de direita, e a maioria dos defensores do Brexit dentro do Partido Conservador também sustentaram pontos de vista mais ligados à direita. Em contraste, críticas da esquerda à União Europeia foram menos visíveis, apesar de continuarem existindo críticas vindas da parte mais socialista/marxista do espectro político. Mas não foram essas críticas da esquerda que levaram tantas pessoas das mais tradicionais classes trabalhadoras a votar pelo Brexit.

    Isso tem algum impacto na América Latina e no Brasil?

    Cristoph Meyer Não tenho muita certeza quanto a isso. Vai afetar a Europa com certeza, apesar de que ainda existe uma chance do Brexit não acontecer no fim das contas, com a possibilidade de um segundo referendo.

    Que peso teve a questão da imigração e dos refugiados nessa decisão?

    Cristoph Meyer Difícil de dizer dado que as mensagens vindas das campanhas à favor do Brexit eram altamente contraditórias quando tocavam no assunto da imigração, e dado o fato de que a liberdade de trânsito não estava na cédula de votação, apenas a saída da União Europeia. O parlamento britânico, soberano, ainda está dominado por ministros a favor da permanência na União Europeia, então a forma que essa saída vai tomar é incerta. Mas é claro que as políticas de imigração de ambos os partidos faliram e não funcionam - e só se pode esperar que elas fiquem mais rígidas nos próximos anos.

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