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Qual o significado do gesto de levantar o braço com o punho fechado

Expressão de enfrentamento até os dias atuais, aceno já aparecia entre massas reivindicadoras no século 19

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O punho cerrado erguido no ar é um símbolo de enfrentamento e resistência, usado principalmente por movimentos de esquerda. Foi apropriado por causas diversas em diferentes períodos, estampa logos de organizações políticas e está nos gestos de quem protesta nas ruas. Apesar de ser identificado às causas de esquerda, também chegou a ser usado em manifestações de extrema-direita.

A construção desse símbolo, esclarece o artigo “From Brotherly Handshake to Militant Clenched Fist: On Political Metaphors for the Worker’s Hand”, tem ligação com o fato de a mão, por si só, ter se tornado uma alegoria do poder do trabalho na tradição visual europeia e em obras importantes do século 19 em diante. Alguns exemplos de pinturas que incorporam essa simbologia são “O Socialista” do alemão Robert Koehler, de 1885, e as mãos colossais do afresco “Indústria de Detroit”, do muralista mexicano Diego Rivera, concluído em 1933.

 
 

Por essa razão, mais amplamente, o punho se associa às lutas e reivindicações dos movimentos de trabalhadores por melhores condições e direitos. “A mão se tornou um símbolo central das primeiras organizações trabalhistas. (...) tornou-se um elemento do repertório da iconografia socialista”, escreve Gottfried Korff,  professor emérito da Universidade de Tübingen e autor do estudo. 

Como indica “O Socialista”, de Koehler, o gesto já aparecia nas agitações populares na segunda metade do século 19, quando uma forte mobilização, conhecida como “Primavera dos Povos”, tomou conta da classe trabalhadora europeia. Segundo Raphael Amaral, historiador pela USP e mestrando na PUC, “o gesto do punho cerrado como símbolo de contestação política é consolidado no século 20, embora já haja referências desde o século 19”.

O punho através da história

Segundo Raphael Amaral, no século 19, o punho fechado erguido como símbolo de enfrentamento esteve presente durante o episódio da Comuna de Paris (1871), dos Mártires de Chicago (1886), e na Revolta dos Boxers (1899-1901). No século 20, esse símbolo é fartamente utilizado na Revolução Russa (1917-1921), como saudação vermelha, e na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), como saudação anti-fascista. Passa ainda pelas lutas nacionalistas e de descolonização na América, África e Ásia, do movimento feminista e do movimento negro.

No combate de espanhóis e agregados estrangeiros ao regime fascista do general Francisco Franco, era um contraponto à saudação romana - com o braço estendido para frente e a palma da mão aberta, presente nas fotos de Adolf Hitler - adotada pelos fascistas. “O punho erguido que saúda não é só um gesto - significa lutar pela vida e pela liberdade, e um cumprimento de solidariedado entre os povos democráticos do mundo”, escreveu em carta a voluntária americana Mary Rolfe.

O episódio das Olimpíadas de 1968 no México, no qual Tommie Smith e John Carlos, atletas negros, protestaram silenciosamente no pódio contra a discriminação racial, tornou-se emblemático. Os jogos aconteceram no contexto da luta pelos direitos civis nos EUA. Com meias pretas, sem sapatos - para simbolizar a pobreza agravada pelo racismo - e, no caso de Smith, um cachecol preto no pescoço que representava o orgulho do povo negro, ambos ergueram o punho fechado, gesto fortemente identificado no período à saudação black power, usada pelos Panteras Negras. Dois dias mais tarde, os competidores foram suspensos do time, expulsos da vila olímpica e mandados para casa.

Na contracultura, o jornalista e escritor Hunter Thompson se utilizou do punho cerrado para ilustrar a corrente do “jornalismo gonzo”, estilo que dispensa a objetividade e preza pela participação e vivência do jornalista no fato relatado. A imagem do símbolo traz ainda um botão de mescal, um cacto alucinógeno.

Também à direita

Em 2011, o terrorista norueguês de extrema-direita Anders Behring Breivik foi autor de dois atentados no país, que mataram 77 pessoas. Condenado no ano seguinte, Breivik foi fotografado em julgamento com o punho cerrado erguido. Segundo ele, tratava-se da saudação de uma nova ordem dos cavaleiros templários, em nome da força da “oposição de direita” no continente. Originalmente, os templários eram combatentes anti-islã.

 

Cannes, 2016

O  cineasta inglês Ken Loach ganhou a Palma de Ouro - prêmio máximo do festival de cinema de Cannes - em duas ocasiões: em 2006, com “Ventos da Liberdade”, sobre a guerra de independência irlandesa e 2016, com o filme “Eu, Daniel Blake”, um retrato da burocracia que dificulta o acesso ao estado de bem estar social em tempos de crise.

Em ambas, comemorou os louros no tapete vermelho, com o punho fechado e erguido.

Loach é conhecido por seus filmes engajados, com temas como direitos trabalhistas e falta de moradia, e fundou um partido de esquerda em 2013, o Left Unity.

No Brasil

O ídolo do Corinthians Sócrates foi ligado a questões políticas como a democratização do futebol e as Diretas Já! (reivindicação de eleições diretas no período de abertura da ditadura militar). O jogador participou do movimento conhecido como Democracia Corinthiana, também nos anos 1980, baseado na autogestão do time, na qual decisões normalmente centralizadas - contratações, escalação, local de concentração - eram tomadas por meio do voto, de peso igual para jogadores, funcionários ou técnico.

 

A imagem do jogador com o punho cerrado no alto ficou tão conhecida - fosse comemorando gols ou atuando politicamente - que, quando Sócrates morreu em 2011, torcida e time o homenagearam em campo com o gesto.

O momento da prisão do ex-presidente do PT José Genoíno e do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, em 2013, condenados pelo envolvimento no escândalo de corrupção do mensalão, também trouxe o símbolo à tona e gerou discussões sobre sua apropriação.

 

 

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