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O que são as 'maras', gangues que colocam a América Central no topo do ranking de homicídios mundial

Grupos que surgiram nos Estados Unidos na década de 1980 se espalharam pelo continente e travam uma disputa que faz da região líder mundial em homicídios

 

Honduras, El Salvador e Guatemala formam o Triângulo Norte na parte mais setentrional da América Central. A região lidera há anos o ranking mundial de homicídios entre países que não estão oficialmente em guerra. As taxas são resultado da ação das maras, grupos criminosos transnacionais surgidos nos EUA na década de 1980 que atuam em atividades como extorsão, assassinato por encomenda e tráfico de drogas e de pessoas.

115,9

É o número de assassinatos por 100 mil em El Salvador no ano de 2015 (17 vezes maior que a taxa média global)

O problema teve origem há décadas, mas continua crescendo.

Os países do Triângulo Norte

 

Como surgiram as maras

Durante a Guerra Fria, a América Central e o Caribe sofreram com diversas guerras civis. EUA e URSS disputavam influência sobre a região. Em El Salvador, até 1992, e na Guatemala, até 1996, ditaduras enfrentavam grupos de esquerda, com apoio da CIA, a agência de inteligência norte-americana. Na época, os dois países, juntos, tiveram um saldo de 275 mil mortos ao longo de toda a guerra civil. Honduras não teve guerra em seu território, mas abrigou os Contras, que lutavam contra o governo Sandinista da vizinha Nicarágua.

Durante esses conflitos, milhares de pessoas fugiram dessa região para Los Angeles, nos EUA. A exclusão social e a pobreza dessas comunidades latinas eram terrenos férteis para a violência. Os novos imigrantes formaram gangues na década de 1980, até que os EUA puseram em prática uma política de deportação em massa. Foi o regresso desses deslocados que constituiu a mão de obra das maras no Triângulo Norte.

Como os grupos atuam

 

As duas maiores maras, Salvatrucha e Barrio 18, atuam nos três países do Triângulo Norte. São rivais e declararam “ódio eterno” em 2011, dando início a uma batalha que gerou um aumento instantâneo nos assassinatos nesses países. Seus membros são conhecidos por tatuar todo o corpo, incluindo o rosto, com frases e símbolos que remetem aos grupos dos quais fazem parte.

São grupos essencialmente urbanos, associados também a grandes máfias locais e internacionais, e se utilizam da violência para expulsar rivais, expandir seus negócios e executar trabalhos encomendados, se valendo da ineficiência e da impunidade que dominam as instituições governamentais de seus países.

100 mil

pessoas fazem parte de maras na América Central

Estratégias de combate e convivência

Existem duas correntes opostas de políticas para lidar com as maras. Uma, mais conservadora, prega o conceito chamado “mano dura” (mão dura), que como o próprio nome já diz, acredita que a melhor forma de lidar com a criminalidade é através da repressão. Esse método tem grande apoio das populações locais.

A outra corrente aposta na negociação como a melhor saída, fazendo acordos com os líderes das maras em busca de uma queda nos assassinatos. A dificuldade, nesse caso, é tanto a impopularidade desse tipo de política quanto conseguir, de fato, controlar os membros das forças policiais oficiais do Estado, constantemente envolvidos em casos de assassinatos extrajudiciais.

Repressão estatal fortaleceu as maras

El Salvador é o país de origem dos fundadores tanto da Salvatrucha quanto da Barrio 18, sendo assim o centro da atuação de ambas as maras. É também, atualmente, onde há mais problemas com a guerra entre os grupos.

Mortes em massa

 

No período entre março de 2012 e junho do ano seguinte o governo salvadorenho colocou em prática pela primeira vez a tática de negociação. Ambas as maras concordaram em diminuir os assassinatos e entregaram centenas de armas para o governo.

Durante os 15 meses em que os acordos estiveram valendo, o país registrou menos de 190 homicídios por mês - situação inédita. As negociações eram lideradas pela Igreja Católica e organizações da sociedade civil, e tinham o apoio do governo e da OEA (Organização dos Estados Americanos).

Em 2014, Salvador Sánchez Cerén foi eleito presidente de El Salvador com o discurso populista de punho forte e investidas violentas contra o poder das maras. Os negociadores foram presos pelo novo governo, acusados de facilitar a entrada de aparelhos celulares e outros pertences nas cadeias onde aconteciam as negociações. Com a quebra do pacto entre governo e maras, os assassinatos voltaram em número ainda maior.

A prisão como centro de recrutamento

 

Os conflitos entre as maras Salvatrucha e Barrio 18 sempre foram um fator de desestabilização delas mesmas. A perda de líderes e de grande parte de seus membros atrapalhava a organização e a eficiência de suas ações.

Entre os anos de 2004 e 2008, El Salvador implementou a política “mano dura”, perseguindo as maras e encarcerando a maior quantidade possível de seus membros. A população carcerária do país dobrou nesses quatro anos.

O governo separou em cadeias diferentes os membros da Salvatrucha e da Barrio 18 para evitar brigas. Como resultado, as gangues encontraram um cenário de proteção que nunca tiveram, já que não corriam os riscos de estar nas ruas e tinham total controle do que acontecia dentro das prisões. Seus líderes puderam continuar operando livremente atrás das grades.

As cadeias do país são hoje centros de operação das maras, servindo também como forma de recrutar novos membros, presos que praticavam delitos menos graves que saem do presídio fazendo parte do crime organizado.

Papel das grandes potências na violência

 

A intervenção de Estados Unidos e Canadá na política de segurança da América Central remonta à época das guerras civis. A indústria bélica norte-americana tinha como um importante mercado consumidor os governos ditatoriais de Guatemala, El Salvador e Nicarágua.

Além do fluxo oficial, uma alta quantidade de armas chegava na América Central de forma ilegal. Muitas das armas utilizadas atualmente pelas maras são resquícios das guerras civis.

Com a violência disseminada no Triângulo Norte, o fluxo de imigração ainda existe em direção aos Estados Unidos e ao Canadá. O número alto de crianças desacompanhadas sendo resgatadas na fronteira americana é motivo de preocupação na Casa Branca.

As duas potências são grandes financiadoras dos governos da América Central, sobretudo de suas políticas de segurança. O fluxo de dinheiro é justificado como um apoio à estabilização da segurança nos países dominados pelo crime organizado das maras.

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