Como e por que caem os ministros do governo interino de Temer

Romero Jucá, Fabiano Silveira e, agora, Henrique Alves têm um elemento em comum: a delação premiada à Lava Jato de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro

    Henrique Eduardo Alves comandou o ministério do Turismo do dia 12 de maio ao dia 16 de junho de 2016. Ele é o terceiro integrante do primeiro escalão do presidente interino Michel Temer a cair em 34 dias de governo — média de um ministro demitido a cada 11 dias.

    Antes dele, saíram Romero Jucá, do Planejamento, e Fabiano Silveira, da Transparência. A queda dos três tem um elemento em comum: a delação premiada à Lava Jato do peemedebista Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, uma empresa subsidiária da Petrobras.

    Saiba abaixo como os agora ex-ministros foram envolvidos no escândalo por Machado e como Temer agiu diante dos problemas enfrentados por cada um deles:

    Henrique Eduardo Alves

    Cargo

    Ministro do Turismo

    Duração no governo

    34 dias, de 12 de maio a 16 de junho

    Partido

    PMDB

    O que ocorreu

    Em seu acordo de delação premiada, Sérgio Machado disse que Alves recebeu “vantagens ilícitas” no valor de R$ 1,55 milhão. O ex-presidente da Transpetro afirmou ter viabilizado o pagamento por parte da Queiroz Galvão e da Galvão Engenharia, empreiteiras que mantinham contratos com a estatal que presidia. Foram pagos a Alves, segundo Machado, R$ 500 mil em 2014, R$ 250 mil em 2012, R$ 500 mil em 2010 e R$ 300 mil em 2008.

    Em abril, o procurador-geral da República Rodrigo Janot já havia pedido ao Supremo Tribunal Federal a abertura de inquérito contra o peemedebista, por suspeita de que ele teria recebido dinheiro do petrolão para financiar sua campanha ao governo do Rio Grande do Norte em 2014. Ele é citado em outras delações.

    A Procuradoria-Geral da República identificou também oito mensagens enviadas por Cunha ao ex-presidente da OAS Léo Pinheiro pedindo doações para Alves, informou o jornal “Folha de S.Paulo”. Em uma das mensagens interceptadas, Pinheiro diz a um interlocutor que “Eduardo Cunha é o grande articulador de Henrique Alves”.

    Alves se defendeu dizendo que não havia fatos novos contra ele e que o caso havia sido divulgado por motivações políticas. Segundo o jornal “O Globo”, há novas denúncias a serem divulgadas em breve contra o ex-ministro.

    Ex-presidente da Câmara dos Deputados, ele está sem mandato, razão pela qual seu caso deve sair do Supremo (onde estava por ter foro privilegiado enquanto ministro) e ir para a primeira instância, onde atua o juiz Sergio Moro.

    Como Temer agiu

    O presidente interino já acompanhava as menções a Alves na Lava Jato. No dia em que o inquérito foi divulgado, em 6 de junho, Temer reuniu-se com os ministros Eliseu Padilha, da Casa Civil, e Geddel Vieira Lima, da Secretaria de Governo, e decidiu manter Alves. O presidente tinha a intenção de estancar as quedas de ministros que afetaram as três primeiras semanas de seu governo. Alves resistiu por apenas 10 dias, até que a delação de Machado viesse à tona. Nessa delação, o nome de Temer também apareceu como intermediário de repasses ao PMDB.

    Fabiano Silveira

    Cargo

    Ministro da Transparência

    Duração no governo

    18 dias, de 12 a 30 de maio

    Partido

    Indicado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL)

    O que ocorreu

    Em 24 de fevereiro, Silveira estava na casa de Renan Calheiros e travou uma conversa da qual Machado também participou. À época, Silveira era membro do Conselho Nacional de Justiça, cargo para o qual fora indicado por Renan.

    Eles discutiam estratégias de Renan na Operação Lava Jato, quando Fabiano sugeriu ao senador que não antecipasse informações sobre sua defesa:

    “A única ressalva que eu faria é a seguinte: tá entregando já a sua versão pros caras da... PGR, né. Entendeu? Presidente, porque tem uns detalhes aqui que eles... (inaudível) Eles não terão condição, mas quando você coloca aqui, eles vão querer rebater os detalhes que colocou. (inaudível)”

    Fabiano Silveira

    Ex-ministro da Fiscalização, Transparência e Controle

    Depois, Silveira disse que os procuradores federais estariam “perdidos” na investigação. O áudio foi revelado em 29 de maio pelo programa “Fantástico”, da Rede Globo.

    Em outra conversa, entre Renan e Machado, o presidente do Senado diz que Silveira buscou informações sobre os inquéritos contra o presidente do Senado junto a procuradores federais. Em nota, Silveira disse que nunca fez gestões ou intercedeu junto a instituições públicas em favor de terceiros.

    Como Temer agiu

    O áudio contra Silveira foi revelado num domingo. Na segunda-feira pela manhã, Temer reuniu-se com o ministro Eliseu Padilha, da Casa Civil, e decidiu manter o ministro da Transparência no cargo. Pesou a favor de Silveira o fato de ele ter como padrinho Renan Calheiros, presidente do Senado, onde o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff ainda está sob análise. Silveira, contudo, não resistiu à pressão pela sua saída, inclusive de servidores da antiga Controladoria-Geral da União, que impediram sua entrada no prédio do ministério e lavaram a porte de seu gabinete com água e sabão, e pediu demissão na noite do mesmo dia.

    Romero Jucá

    Cargo

    Ministro do Planejamento

    Duração no governo

    11 dias, de 12 a 23 de maio

    Partido

    PMDB

    O que ocorreu

    Em março,  antes do afastamento de Dilma Rousseff, Machado procurou o senador Romero Jucá (PMDB-RR) em sua casa, em Brasília, e iniciou uma conversa sobre a Operação Lava Jato, gravada pelo ex-presidente da Transpetro.

    No diálogo, Jucá disse que era necessário mudar o governo para, em seguida, realizar um acordo “com o Supremo e tudo” para “delimitar” o alcance da Operação Lava Jato.

    “Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria (...) Eu acho que tem que ter um pacto”

    Romero Jucá

    Senador, ex-ministro do Planejamento

    Ele também disse que havia conversado com “alguns ministros do Supremo” que teriam dito a ele que “só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca”. A conversa foi revelada pelo jornal “Folha de S.Paulo” em 23 de maio. Jucá disse que o “pacto” se referia a uma saída para solucionar a crise econômica e política.

    Na delação premiada firmada com a Justiça, Machado disse que viabilizou o pagamento de uma “mesada” a Jucá de 2004 a 2014, que alcançou o valor total de R$ 21 milhões. Segundo o ex-presidente da Transpetro, R$ 16,8 milhões foram pagos em dinheiro e R$ 4,2 milhões, em doações oficiais para campanhas.

    Como Temer agiu

    O presidente interino anunciou que manteria Jucá no cargo por entender que não havia motivos para exonerá-lo. Temer é próximo dele. Contudo, no mesmo dia, Jucá anunciou que se “licenciaria” do cargo — ele pediu exoneração do governo e reassumiu seu mandato no Senado. O movimento significou uma “saída honrosa” de Jucá do governo, já que ele havia sido um dos principais articuladores do afastamento de Dilma no Senado, que alçou Temer ao Planalto. Não há perspectiva de Jucá reassumir o comando do Planejamento.

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