Ir direto ao conteúdo

O que é o Brexit e como ele pode mudar a União Europeia

Sonho de integração da Europa depois de séculos de guerras e disputas é colocado em xeque por referendo no Reino Unido

     

    Os eleitores do Reino Unido dirão no dia 23 de junho se querem ficar ou sair da União Europeia, um dos mais ambiciosos, ricos, abrangentes e poderosos blocos econômicos existentes hoje no mundo.

    A decisão põe em risco um condomínio político que começou a ser erguido depois da Segunda Guerra Mundial (1945) e que, em todo esse tempo, garantiu convergência monetária e estabilidade política, em contraste com um passado de conflitos e fragmentação que marcaram séculos de história europeia.

    O bloco é formado hoje por 28 países, 19 dos quais adotaram uma moeda comum, chamada Euro, a partir de 2002. Embora permaneça estável desde sua fundação, a União Europeia nunca se livrou completamente da contestação feita por muitos de seus membros, que contrapõem ideias de individualidade e nacionalismo ao ideal de uma identidade europeia comum.

    O referendo é chamado “Brexit”, mistura, em inglês, das palavras “British” (britânica) e “exit” (saída).

    Fatos sobre o Brexit:

    • Referendo será no dia 23 de junho
    • Reino Unido faz parte do bloco desde 1973
    • Britânicos nunca adotaram o Euro como moeda
    • Premiê David Cameron defende a permanência
    • 44% dos britânicos querem sair e 42% querem ficar, segundo o YouGov
    • Em 1975 teve referendo semelhante e britânicos optaram por ficar

    28

    Países compõem a União Europeia

    19

    Países da União Europeia adotaram o Euro como moeda comum

    Quais as razões para sair

     

    Os que defendem a saída reclamam justamente da razão de ser do bloco: a crescente e ambicionada interdependência entre os países-membros. Eles consideram que essa relação está sendo construída de maneira injusta, pois o Reino Unido dá mais do que recebe em troca. Isso seria especialmente sensível em momentos de socorro a países em crise econômica no interior da União, como a Grécia em 2015.

    Argumentos como esses vêm sendo evocados cada vez mais, não apenas no Reino Unido, mas também na Alemanha, Ucrânia, Holanda, França e Dinamarca, especialmente - mas não apenas - por partidos nacionalistas e de ultra-direita que, desde os anos 1990, aumentam sua participação na política local.

    Em queda

     

    A crise dos refugiados e o terrorismo agudizaram essas tensões. Muitos britânicos reclamam do que consideram uma divisão injusta do fardo humanitário em relação aos gastos de acolhida com pessoas que entram na Europa fugindo de guerras na África e no Oriente Médio, favorecidas por regras que facilitam a circulação de cidadãos no interior do bloco.

    Além disso, há reclamações sobre a imposição de normas, burocracias e leis por Bruxelas, sede do Conselho Europeu e das comissões parlamentares da UE. Um exemplo concreto é a lei que amplia direitos de remessa de dinheiro por parte de trabalhadores migrantes com famílias vivendo no exterior, ou ainda a determinação do bloco de conceder benefícios trabalhistas a empregados que estejam há menos de quatro anos na União Europeia.

    Quais as razões para ficar

     

    A União Europeia responde por 20% de todo o volume de importações e exportações do mundo, e registrou em 2014 um PIB de US$ 15 trilhões, maior que o dos EUA.

    A participação nesse clube de países permite a troca de produtos e serviços sem a aplicação de taxas e impostos dentro da área comum. Além disso, permite o livre trânsito de trabalhadores e a celebração de contratos de emprego além das fronteiras de cada Estado.

    Parceiro de peso

     

    A integração também favorece a adoção de padrões comuns para assuntos relacionados ao meio ambiente e aos direitos humanos, estimula o intercâmbio científico e fortalece as estratégias de defesa exterior ao mesmo tempo que tende a reduzir atritos entre os países do continente, dada a criação de instâncias formais e fluídas de interlocução permanente.

    Saída gera perdas certas no curto prazo

    Nessa disputa, os dois lados sabem que uma saída intempestiva provocaria perdas no curto prazo. A diferença é que - do lado dos que pedem o desligamento definitivo do bloco - há uma confiança de que essas perdas seriam recuperadas com o tempo. Já do lado dos integracionistas, a tese é de que o baque poderia ter efeitos mais duradouros do que se imagina.

    Mundo globalizado favorece mais os blocos coesos do que os países isolados

    “Há pouca divergência sobre o fato de uma saída da União Europeia provocar perdas no curto prazo. Relatório do Tesouro britânico sugere recessão no curto prazo, uma visão confirmada pelo Instituto de Estudos Fiscais. Há também uma avaliação disseminada entre os economistas de que sair do bloco reduzirá o crescimento econômico num horizonte maior, e que as perdas podem ser grandes”, disse em artigo Nicholas Barr, professor de Economia Pública no Instituto Europeu da London School of Economics, contrário à saída.

    Ele elenca vários argumentos em defesa da permanência, não apenas na área econômica, mas também em termos de segurança coletiva e fortalecimento da democracia, principalmente.

    Além disso, Barr considera que “a globalização reduziu a independência de todos os países”, do mundo, de maneira geral, tornando impossível que o Reino Unido tenha, por si só, “taxas e regulações muito diferentes em relação a outros países com os quais concorre” no comércio mundial. Nesse sentido, os que consideram haver uma dependência excessiva do Reino Unido em relação às regras do bloco estariam perseguindo uma falsa liberdade, uma vez que as limitações são impostas mais pela realidade globalizada atual do que por decisões burocráticas de Bruxelas. Assim, na visão do professor, os defensores do Brexit trocariam um problema por outro, com a desvantagem de enfrentarem o mundo sozinhos e não mais em bloco.

    820 mil

    É o número de empregos que o Reino Unido perderá com a saída da União Europeia em dois anos, de acordo com o secretário do Tesouro britânico, George Osborne.

    Três das principais agências de classificação de risco - Standard & Poor's, Fitch e Moody's - disseram que o Reino Unido pode ter sua nota rebaixada caso o referendo decida pela saída do bloco. As notas atribuídas por essas agências a um determinado país indicam o nível de risco para investidores estrangeiros.

    Para ‘Economist’, ninguém sabe o que pode acontecer

    O debate é marcado por números impressionantes sobre perdas e ganhos numa eventual saída do bloco. Um exemplo disso é a estimativa do Tesouro sobre a perda de 820 mil postos de trabalho em dois anos, classificada como uma “propaganda para assustar os eleitores”, por parlamentares que se opõem à saída.

    Em março, a revista britânica “The Economist”, referência no círculo financeiro mundial, afirmou que todas as partes envolvidas no debate distorcem ou simplesmente inventam dados para construir seus argumentos.

    “Ninguém sabe o que acontecerá pós-Brexit. Isso é especialmente verdadeiro a respeito do acordo comercial que o Reino Unido teria de negociar com a União Europeia - e quanto tempo isso levaria (o governo sugeriu dez anos). Essa incerteza leva todos os lados a distorcer, exagerar ou simplesmente fabricar seus próprios fatos”

    Revista britânica “The Economist”, em edição de março de 2016

    Nessa batalha de dados, fatos e versões, a revista recomenda dois websites para quem quer esmiuçar todos os argumentos envolvidos no debate. O primeiro deles se chama Full Fact e é citado como “neutro” em relação ao debate do referendo. O segundo é o In Facts, que, já no cabeçalho, anuncia sua posição: “Por que os britânicos devem permanecer na União Europeia.”

    A rede pública de comunicação do Reino Unido BBC também pôs no ar um site de checagem de dados e informações para desfazer mitos e mentiras contidas nas declarações dos defensores e dos críticos do Brexit.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!