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‘Coliving’ é a mesma coisa que república?

Termo usado para casas compartilhadas parece um refinamento das antigas moradias estudantis, mas tem particularidades fundamentais

     

    No século 14, surgiu no berço da academia portuguesa aquilo que ficou conhecido na língua como república: casas que abrigavam os estudantes de Coimbra, cedidas pelo governo mediante o pagamento de um aluguel módico. Por isso a designação “coisa pública”.

    Séculos mais tarde, quando casas divididas por jovens, estudantes ou não, já se tornara algo consolidado, surgiu uma nova terminologia para classificar os apartamentos compartilhados, desta vez com raízes dinamarquesas: o “coliving”.

    O movimento apareceu no país escandinavo na década de 1970, como uma modalidade de comunidade urbana. Anos mais tarde, foi batizado de “cohousing” pelo arquiteto californiano Charles Durrett. Desde então, tomou diversas formas e adquiriu inúmeros adeptos. No Brasil, o conceito chegou em 2013 a São Paulo e deu origem a algumas unidades no Rio no ano seguinte, segundo reportagem do jornal “O Globo”. 

    Não apenas comparado às repúblicas, o termo foi considerado um equivalente moderno de comuna, kibutz e boarding house - casas familiares com cômodos alugados.

    “Uma solução para a crise de moradia urbana. Um remédio para ‘milennials’ solitários buscando verdadeiras conexões nesse mundo excessivamente digitalizado. Uma nova alternativa para quem trabalha de casa e nômades globais”, descreveu o site “Skift”.  

    A diferença vai um pouco além de um refinamento contemporâneo. O termo caracteriza não apenas um tipo de moradia, mas um estilo de vida compartilhado com outras pessoas. Ou seja, uma ideia de comunidade e conexão entre os moradores que não está na raiz das repúblicas - mais práticas, as moradias estudantis têm por objetivo apenas dar abrigo aos jovens por preços acessíveis. 

    No “coliving”, além de compartilhar espaços comuns da casa, como sala e cozinha, os moradores por vezes se engajam em atividades particulares para viver momentos juntos e se conhecer melhor.

    “É uma transformação onde tecer vínculos comunitários é essencial”

    Lilian Lubochinski

    Fundadora da consultoria Cohousing Brasil, ao “Globo”

    O futuro do coliving

    Atualmente, "coliving" tornou-se um negócio para empresas especializadas em criar esses espaços, que alugam vagas para interessados no estilo de vida. Nesse sentido, funcionam mais como albergues do que como repúblicas. O público é geralmente de jovens e profissionais liberais com um certo poder aquisitivo e que trabalham de casa.

    Cada unidade tem suas regras e estilo de vida específico. Algumas proíbem portas nos quartos, por exemplo, outras são mais luxuosas ou feitas só para mães solteiras e famílias pequenas no geral. Algumas se misturam com espaços de coworking - ambientes de trabalho compartilhado. Há, ainda, franquias de coliving: empresas abrem diferentes unidades ao redor do mundo, e moradores cadastrados podem transitar entre elas. 

    Ainda não se consolidou um modelo de negócio ideal para mantê-las, e algumas residências deixaram de existir por não serem economicamente sustentáveis. Mesmo assim, dizem analistas, a tendência é de que elas proliferem.

    “‘Coliving’ costumava ser a solução para um problema ou apenas pensado como um fenômeno, mas acreditamos que pode ser uma opção melhor para pessoas em diferentes estágios de vida. Estamos mudando culturalmente. É tanto sobre a arquitetura quanto uma forma de mudar a maneira como pensamos moradia e a forma que queremos viver.”

    Bruno Haid

    CEO do “coliving” Roam, ao "Skift"

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