Ir direto ao conteúdo

Por que o neoliberalismo não é mais unanimidade no FMI

Artigo publicado em revista do fundo diz que políticas defendidas pela instituição podem prejudicar crescimento em alguns casos

     

    Um artigo publicado na edição de junho da revista “Finance & Developement”, do Fundo Monetário Internacional, causou surpresa em economistas de todo o mundo. Nele, três integrantes do FMI fazem críticas ao neoliberalismo, receituário dominante na instituição por décadas.

    O artigo não é um posicionamento oficial do fundo, mas demonstra que a política que caracterizou a instituição já não é uma unanimidade. Na visão de Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri, autores do estudo, uma política econômica pautada pela austeridade fiscal, diminuição do tamanho do Estado e incentivo ao livre mercado nem sempre funciona bem para todos os países.

    “Em vez de entregar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, ao mesmo tempo em que prejudicaram uma expansão duradoura”

    Neoliberalismo: Vendido em excesso?

    Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri

    Os pesquisadores analisaram especificamente dois aspectos do receituário neoliberal: remoção de restrições ao movimento de capitais e austeridade fiscal. As dificuldades para entrada ou saída de capital estrangeiro geralmente são colocadas por governos com taxação desse dinheiro. Já a austeridade, uma das principais cobranças do FMI aos governos, é o controle das contas para reduzir rombos e recobrar a disciplina fiscal.

    O raciocínio dos autores é que, em alguns casos, as políticas defendidas pelo FMI não funcionaram porque aumentaram a desigualdade em alguns países, o que, no médio prazo, prejudicou o crescimento.

    “O aumento de desigualdade, por sua vez, compromete o nível e a sustentabilidade do crescimento. Ainda que o crescimento seja o único ou principal motivo da agenda neoliberal, aqueles que advogam essa agenda ainda precisam prestar atenção aos efeitos distribucionais”

    Neoliberalismo: Vendido em excesso?

    Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri

    História de socorro e cobrança

    Criado após a Segunda Guerra Mundial, o Fundo Monetário Internacional se notabilizou nas décadas de 1970, 1980 e 1990 por socorrer países endividados. O cofre sempre foi abastecido pelos países desenvolvidos, e por alguns países em desenvolvimento.

    No cenário mundial, dinheiro de verdade é o dólar. Quanto mais subdesenvolvido for o país, menos sua moeda vale. A credibilidade de países emergentes depende, em grande parte, de suas reservas internacionais. Durante anos o FMI atuou como uma espécie de banco para esses países periféricos que não tinham dinheiro (dólar).

    Chamado, o FMI enviava uma equipe para fazer um diagnóstico e traçar um plano de socorro que ia além do empréstimo que os países tanto queriam. A contrapartida era a garantia de que aquele governo não voltaria a precisar de socorro. O plano invariavelmente passava por ajuste fiscal - que algumas vezes incluía venda de patrimônio - e liberalização da economia.

    O Brasil já recorreu algumas vezes aos empréstimos do FMI. A última foi durante o período de consolidação do Plano Real, quando faltaram dólares na tentativa de manter a o câmbio valorizado. Tentando manter o preço do dólar perto do valor do real, durante o governo FHC, o país vendeu reservas e precisou de socorro. Durante o governo Lula, com a melhora da economia, o Brasil pagou sua dívida e passou a ser um dos financiadores do FMI.

    Em um livro chamado “Vexame”, o jornalista americano Paul Blustein narra os bastidores da crise mundial do final da década de 1990. Na visão do autor, o FMI teve dificuldades para ajudar os países a superarem a crise porque, ideologicamente muito rígido, aplicava sempre o mesmo remédio ao pacientes.

    “Quando um país beneficiário de um programa do FMI não consegue reconquistar a estabilidade, as autoridades do Fundo atribuem habitualmente a culpa ao governo do país em questão por não ter cumprido as metas designadas ou não ter se esforçado suficientemente. As autoridades do FMI balançam a cabeça, resignadamente, diante das dificuldades dos políticos do referido país em levar avante certas medidas impopulares, como manter elevadas as taxas de juros ou cortar subsídios.”

    Paul Blustein

    Trecho do livro Vexame - Os bastidores do FMI na crise que abalou o sistema financeiro mundial

    A crise da Rússia e da Ásia no final da década de 1990 marcou negativamente o FMI. Na década seguinte, o Fundo perdeu relevância e não teve papel central na grande crise internacional de 2008.

    FMI diz que não renega neoliberalismo

    Diante da repercussão, o FMI se apressou em dizer que não renega o modelo que sempre defendeu e recomendou a vários países ao longo dos anos e que o artigo foi mal interpretado.

    Em entrevista ao site da instituição, Maurice Obstfeld, economista-chefe do FMI, disse que a instituição não está abandonando o neoliberalismo. Houve sim, segundo ele, uma reavaliação interna após a crise financeira mundial de 2008, mas que ela resultou em “evolução, não revolução”.

    “Esse processo não transformou fundamentalmente a base de nossa abordagem, que é baseada na abertura e na competitividade dos mercados, em robustas estruturas de políticas macroeconômicas, na estabilidade financeira e em instituições fortes”

    Maurice Obstfeld

    economista-chefe do FMI

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!