4 casos que mostram como futebol e política se misturam na Argentina

O peso do esporte é grande e influencia diretamente a agenda nacional, com grandes personagens da esfera pública utilizando a cartolagem como uma ponte para o poder

     

    Alguns dos personagens mais importantes da política argentina são também figuras de renome no futebol. Em ambos os ambientes, eles reproduzem a lógica de alianças e desafetos.

    Dada a sua popularidade e visibilidade, o futebol tem sido muito usado como palanque de projeção política, uma espécie de estágio de poder que ajuda, depois, a sustentar carreiras eleitorais. O Nexo separou quatro figuras de peso, que alternam seus tempos entre a cartolagem e a política.

    Maurício Macri

    Papel na política

    Atual presidente da Argentina, foi eleito em novembro de 2015. Daniel Scioli, seu maior adversário, era aliado da então presidente Cristina Kirchner e representava a continuidade de um projeto de governo em vigor desde 2003, chamado kirchnerismo. Antes de chegar à Casa Rosada, Macri havia sido prefeito da cidade de Buenos Aires.

    Papel no futebol

    Aos 35 anos assumiu a presidência do Boca Juniors, clube de futebol mais popular do país e identificado com as classes mais baixas. Ficou por 12 anos no cargo, conquistando 17 títulos. Em 2005, enquanto ainda era presidente da equipe azul e amarela, fundou o partido PRO (Propuesta Republicana), pelo qual foi eleito no mesmo ano deputado federal. Milionário de nascença e sem contato com as camadas mais pobres, Macri deve grande parte de seu apoio nas urnas aos anos de Boca.

    Hugo Moyano

    Papel na política

    Líder da classe dos caminhoneiros, é também o maior líder sindical de um país que tem nas organizações trabalhistas uma força política importante. Moyano é desde 2000 o secretário-geral da CGT, maior associação sindical argentina, e é um dos grandes adversários políticos de Macri. No fim de abril (29), organizou uma grande manifestação contra o presidente.

    Papel no futebol

    Moyano também tem um time para comandar desde julho de 2014, quando assumiu a presidência do gigante Club Atlético Independiente, também de Buenos Aires. Seu envolvimento com o futebol, inclusive, tende a crescer nos próximos anos. Atualmente, faz parte de uma chapa que disputa a presidência da AFA (Associação de Futebol Argentino), equivalente à CBF no Brasil.

    Sergio Massa

    Papel na política

    Ex-aliado dos Kirchner, dissidiu e criou seu próprio partido, chamado Frente Renovador. Foi candidato à presidência em 2015 mas não conseguiu superar Macri e Scioli, caindo no primeiro turno. Mesmo tendo histórico de esquerda, se posicionou à favor de Macri no segundo turno dizendo “não quero que o Scioli ganhe”. Hoje, faz novamente oposição a Macri.

    Papel no futebol

    Foi o homem forte do futebol do Tigre na época em que o time, na segunda divisão nacional, evitou o rebaixamento para a terceira divisão. Em seguida, conseguiu o acesso para a elite. Fez boas campanhas no campeonato nacional, chegando inclusive a disputar a Libertadores e a final da Sul-americana contra o São Paulo. Seu prestígio como dirigente foi grande e o alçou à prefeitura da cidade de Tigre.

    Marcelo Tinelli

    Papel na política

    É o único dos quatro que não tem mandato, nem foi candidato. Nem por isso, Tinelli é menos “político”. Conhecido como um dos maiores astros da televisão argentina, apoiou o rival de Macri nas eleições presidenciais, promovendo Scioli em programas de TV. Além disso, utiliza sua página no Twitter, com mais de 8 milhões de seguidores, para opinar sobre diversos assuntos, ironizando Hugo Moyano e entrando em conflito direto com Macri. A situação escalou de forma tão grande que foi convocada uma reunião na Casa Rosada para resolver os atritos entre a celebridade e o presidente.

    Papel no futebol

    Tinelli começou a carreira como jornalista esportivo, e hoje mantém presença no futebol com a vice-presidência do San Lorenzo. O clube é considerado um dos cinco maiores do país e conta com uma grande torcida, incluindo o papa Francisco. Segundo o “El País”, pessoas próximas a Tinelli dizem que seu desejo é seguir os passos de Macri e sair do futebol para entrar de vez para a política. Por enquanto, tenta trocar a vice-presidência do San Lorenzo pelo cargo mais alto do futebol argentino, a presidência da AFA.

    Quando os mundos se cruzam

     

    O presidente da Argentina ordenou uma intervenção federal no futebol. A intenção é resolver o impasse na eleição na qual a soma de votos para a presidência da AFA superou o número de votantes - indício de fraude.

    A entidade, portanto, terá de realizar uma nova eleição. Um dos concorrentes é Tinelli, o apresentador de TV que é também desafeto político de Macri. Também Moyano, líder sindical da primeira linha de oposição ao governo, anunciou que pode entrar na disputa.

    O Ministério da Justiça mandou congelar a eleição e indicou dois observadores para auditar o processo, a despeito das críticas da FIFA à atitudes como essa, vistas como ingerência política em assuntos do futebol.

    Quem vencer a disputa administrará um fundo de US$ 1,742 bilhões, criado por outra intervenção governamental, dessa vez pela antecessora de Macri, Cristina Kirchner.

    Ela criou o programa “Fútbol Para Todos”, que consistia na transmissão das partidas de futebol pela televisão pública. Nos intervalos, propaganda política.

    Assim, o governo passou a ser um dos maiores financiadores do futebol no país, destinando para o programa uma verba maior que a do Ministério da Cultura.

    Grande parte deste dinheiro público vai diretamente para as equipes e não tem nenhum tipo de controle de como é aplicado.

    Outra parte importante ainda é desviada, segundo investigações, aprofundando os escândalos de corrupção que atingiam tanto o governo quanto a AFA.

    Guerra política e violência das torcidas

     

    Muitos analistas atribuem essa guerra política que habita o futebol argentino como um dos grandes motivos da violência das torcidas permanecer impune.

    “A torcida domina um negócio enorme. [...] O problema é que a política e os sindicatos os utilizam em sua luta política. E os dirigentes dos clubes também. Por isso, ninguém consegue resolver. Estão [torcedores] dominados por eles [políticos].” disse Gustavo Grabia, jornalista especializado em torcidas, em entrevista ao “El País”. Ainda segundo Grabia, a guerra entre torcidas gera uma média de 15 mortes por ano.

    Em 2015, durante uma partida entre Boca Juniors e River Plate na estádio La Bombonera (o jogo é  o maior clássico do país), torcedores do Boca jogaram gás na direção de jogadores adversários, causando a suspensão da partida. Macri, em meio à campanha eleitoral, sugeriu que fosse obra de aliados de Cristina Kirchner infiltrados, com o objetivo de danificar sua imagem.

    ESTAVA ERRADO: A versão original deste texto afirmava que o papa Bento XVI é torcedor do San Lorenzo. Quem apoia a equipe argentina é o papa Francisco. O texto foi corrigido às 13h07 do dia 02 de junho.

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