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Ninguém ‘armazena memórias’. Afinal, nosso cérebro não é um computador

Em entrevista ao ‘Nexo’, psicólogo afirma que a metáfora do cérebro como computador mais confunde do que esclarece. E diz que abandoná-la seria um avanço para a ciência

 

Seu cérebro não processa informações. Ele também não armazena memórias e tampouco acessa dados. Seu cérebro não faz nada disso por um motivo bastante simples: ele não é um computador.

Em entrevista ao Nexo, o psicólogo Robert Epstein afirma que a metáfora do cérebro como um computador, bastante popular entre neurocientistas que buscam explicar a leigos o funcionamento do órgão, é “completamente errada, nem mesmo remotamente correta de qualquer forma”.

PhD pela Universidade de Harvard, Epstein trabalha no Instituto Americano para Pesquisa e Tecnologia Comportamental. Ele foi fundador do Cambridge Center for Behavioral Studies, em Massachusetts, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo estudar o comportamento humano e solucionar problemas práticos.

Epstein afirma que a metáfora do cérebro como máquina, além de não ajudar ninguém a compreender como realmente ele funciona, pode ser um atraso para o estudo do órgão.

Em ensaio publicado no site “Aeon”, Epstein lembra como o advento da tecnologia hidráulica, no século três antes de Cristo, tornou popular o “modelo hidráulico” da inteligência humana.

Segundo esse modelo, diferentes fluxos de fluidos chamados de “humores” eram responsáveis tanto pelo funcionamento físico quanto mental. “A metáfora hidráulica persistiu por mais de 1.600 anos, aleijando a prática médica por todo esse tempo”, diz Epstein.

No século 16 depois de Cristo, máquinas impulsionadas por molas e engrenagens foram inventadas, inspirando pensadores como René Descartes a afirmar que seres humanos são máquinas complexas.

A explicação do cérebro também foi influenciada por descobertas sobre eletricidade e química. No século 19, o órgão foi comparado a um telégrafo.

Em qualquer um desses períodos o cérebro humano continuou, obviamente, o mesmo. Mas a forma de explicá-lo e estudá-lo passou por analogias relacionadas ao que havia de tecnologicamente mais moderno. A tecnologia da vez é o computador.

Ao Nexo Epstein falou sobre por que devemos superar essas comparações:

“Não é nem um pouco importante a não ser que você esteja interessado na verdade. E acontece que eu estou muito interessado na verdade, é só isso”

Robert Epstein

Pesquisador do Instituto Americano para Pesquisa e Tecnologia Comportamental e fundador do Cambridge Center for Behavioral Studies, em Massachusetts

Como funciona um computador?

Para captar como essa comparação é falha, é necessário compreender em linhas gerais como um computador funciona. Ele codifica informações em um formato com o qual consegue trabalhar, o que significa padrões de uns e zeros. Esses formam bits, a menor unidade de armazenamento desses equipamentos.

Pequenos grupos de oito bits formam um byte, que é o suficiente para se obter uma letra, por exemplo. Uma imagem é representada por um padrão único de milhões de bytes. Cada milhão de bytes compõe um megabyte.

Epstein explica que computadores literalmente movem esses padrões de dados formados por bytes de um lugar para o outro. As informações são armazenadas de forma física - em um disco rígido, por exemplo.

Programas ou algoritmos dentro do computador determinam o que deve ser feito com esses megabytes, como devem ser lidos e processados. O que permite atividades tão variadas como encontrar um parceiro no Tinder ou pesquisar um artigo científico.

Ele afirma que o conceito de que computadores são capazes de agir de forma inteligente e de que processam informações está correto. Mas é errado dizer que qualquer ser capaz de agir de forma inteligente é um processador de informações. A metáfora do cérebro como um computador é apenas isso: uma metáfora.

O cérebro não guarda arquivos

O disco rígido de um computador tem bits, bytes, megabytes, gigabytes que compõem imagens, filmes, músicas etc. O mecanismo pelo qual o cérebro humano armazena memórias ainda não foi esclarecido. Mas sabe-se que cérebro humano não tem algo comparável a bits e bytes. Tampouco guarda letras, partituras ou mapas. O cérebro não armazena ou processa representações de nada.

Quando memorizamos um poema, aprendemos a cantar uma música ou decoramos a tabuada, o cérebro muda. A ciência ainda não entende exatamente como essa mudança ocorre, mas sabe-se que ela está relacionada às conexões formadas entre neurônios. Quando cantamos ou declamamos algo que decoramos, várias áreas do cérebro são ativadas e interagem entre si.

“Ninguém tem a menor ideia sobre como o cérebro muda depois de termos aprendido a cantar uma música ou recitar um poema. Mas nem um nem outro foi ‘armazenado’ no cérebro”, diz Epstein.

E o cérebro ainda tem um complicador: ele muda de uma forma diferente para cada indivíduo. Isso é o que cientistas definem como o “problema da unicidade”.

Na definição de Epstein, “não há nenhum motivo para acreditar que nós somos mudados da mesma forma pela mesma experiência”. Ou seja: o cérebro de duas pessoas que declamam o mesmo poema muda de forma distinta. “A complexidade aqui é assustadora.”

Segundo Epstein, a metáfora do processamento de informações não dá conta da complexidade do que ocorre no cérebro humano.

É possível abandonar a comparação do cérebro x máquina?

Ao Nexo, Epstein afirma que não espera que a metáfora do cérebro como computador seja abandonada. “Ela promete falsa esperança e garante muita verba para pesquisa. Nada vence essa combinação”. Mas diz que fazê-lo resultaria em um ganho para a ciência.

“Começaríamos a tentar entender os processos - que são, em tese, ordeiros - segundo os quais os cérebros mudam como resultado das experiências de um organismo. Isso é muito mais difícil do que soa. O cérebro não é uma placa mãe. Ele contém cerca de 86 bilhões de neurônios com, talvez, 100 trilhões de conexões. Mil químicos diferentes podem ser mudados em cada um desses pontos de conexão, e todas as conexões podem variar em força”

Robert Epstein

Pesquisador do Instituto Americano para Pesquisa e Tecnologia Comportamental e fundador do Cambridge Center for Behavioral Studies, em Massachusetts

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