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Como um convite para jantar expôs um conflito de meio século em uma ilha do Mediterrâneo

Presidente do Chipre se recusa a comparecer em evento organizado pelo líder da Turquia ao saber que seu rival político também estaria presente. Acontecimento expõe feridas abertas de tensão histórica

     

    Um jantar oferecido na segunda-feira (23) pelo presidente turco Tayip Erdogan durante a Cúpula Humanitária Mundial da ONU reacendeu uma disputa política e militar que divide a ilha mediterrânea do Chipre desde 1963.

    O presidente oficial da ilha, Nicos Anastasiades, de origem grega, ficou irritado ao saber que o líder político do lado turco da ilha cipriota, Mustafa Akinci, havia sido convidado por Erdogan para o mesmo jantar.

    O lado grego e o lado turco do Chipre são separados por uma fronteira resguardada por uma força multinacional sob o comando da ONU, a UNFICYP (Missão de Paz da ONU no Chipre).

    Fronteira divide norte e sul da ilha

     

    Para o presidente, ligado ao lado grego, o convite para o jantar feito ao seu rival, ligado ao lado turco, simbolizava o reconhecimento de um status político e diplomático internacional que ele se recusa a legitimar.

    Ao ser informado do convite por um comissário das Nações Unidas, Anastasiades cancelou tanto sua presença no jantar quanto sua participação numa reunião com Akinci, que estava marcada para sexta-feira (27), como parte de uma série de encontros mediados pelas Nações Unidas que visam diminuir a tensão entre os dois lados do país.

    Conflito começou em 1963

     

    Colônia da Grã-Bretanha até 1960, o Chipre tem sua população composta por dois grandes grupos de origens distintas: gregos e turcos. Os conflitos começaram em 1963 em meio a uma disputa pelo controle do país, até que em 1974 a Guarda Nacional Cipriota, a favor de uma união com a Grécia, protagonizou um golpe apoiado por Atenas e tomou o controle da ilha.

    Em resposta, o governo turco enviou tropas para o país. A partir de então, o terço norte da ilha é ocupado pela população de origem turca, e o lado sul, maior, é ocupado pela população grega.

    Tropas das Nações Unidas controlam a chamada “Linha Verde”, uma região neutra de 180 km de extensão que separa os dois lados e chega a ter 7,5 km de largura em seu ponto mais amplo. A zona neutra ocupa 3% do território da ilha.

    35 mil

    Militares são mantidos pelo governo da Turquia no lado norte do Chipre

    Anastasiades é reconhecido internacionalmente e responde pelo Chipre em instâncias internacionais - como o evento da ONU, por exemplo.

    Na prática, apesar de o presidente da ilha como um todo ser oficialmente um político grego, ele tem pouca influência sobre o lado turco.

    A Turquia é o único país que reconhece o lado norte da ilha como um país independente. Ou seja, para o presidente turco Erdogan, Mustafa Akinci é o representante legítimo do lado norte da ilha, e está internacionalmente no mesmo nível do presidente de origem grega.

    Anastasiades, ao não reconhecer o lado norte como uma região independente, se recusa, portanto, a fazer parte de eventos que coloquem o líder do lado turco no mesmo degrau que o seu.

    O momento histórico do incidente

     

    Akinci, político considerado um moderado de esquerda, foi eleito líder da comunidade turca no Chipre no fim de abril de 2015. Prefeito por 14 anos do lado turco da capital Nicósia, sua escolha foi vista como uma boa possibilidade de avanço nas conversas de paz entre os dois lados da ilha ao derrotar o antigo presidente Dervis Eroglu, considerado extremista, com mais de 60% dos votos.

    “Nós tivemos um começo muito bom, mas o que é mais importante é continuar melhor e atingir nossa meta final de forma ainda melhor. Portanto, quero transmitir meus melhores sentimentos à comunidade grega do Chipre, e que nós estamos determinados e temos a vontade política e a visão compartilhada de atingir dias melhores para nossas gerações mais jovens”

    Mustafa Akinci

    em encontro com Anastasiades após sua eleição, segundo a Agência de Notícias do Chipre

    As conversas entre comunidades grega e turca, contudo, estavam paradas desde outubro de 2015, quando Anastasiades entrou em conflito tanto com Akinci quanto com o governo da Turquia ao tratar dos direitos de exploração de óleo e gás nas regiões offshore da ilha.

    Sete meses depois, e com a presença de um enviado especial da ONU, as conversas foram retomadas no início de maio com um jantar no aeroporto abandonado de Nicósia, localizado na Linha Verde. Os acertos, atualmente, tratam da frequência e estrutura das reuniões. Antes da primeira reunião com o novo líder da comunidade turca, Anastasiades disse que tinha “grandes esperanças para nossas perspectivas e para o futuro”.

    O incidente menos de um mês depois da retomada das conversas, porém, não contribui para essa visão otimista de ambos os lados. O porta-voz do governo cipriota disse que a reunião marcada para esta sexta-feira não aconteceria mais, dado que ao aceitar o convite de jantar, Akinci não criava um “terreno fértil” para conversas. O líder da comunidade turca, por sua vez, afirmou que Anastasiades está sendo “irracional” e que ele deveria usar sua “razão e lógica”.

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