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Qual o contexto dos diálogos que obrigaram Jucá a pedir licença do governo Temer

Apenas 11 dias depois de tomar posse, senador pede licença do Ministério do Planejamento para explicar diálogo com investigado pela operação da PF. Para o PT, conversa reforça tese de ‘golpe’

     

    O senador Romero Jucá (PMDB-RR) pediu licença do cargo de ministro do Planejamento no fim da tarde desta segunda-feira (23), horas depois de o jornal “Folha de S.Paulo” divulgar diálogos entre ele e o ex-presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras, Sérgio Machado. Os dois são alvo da Operação Lava Jato.

    A conversa ocorreu em março, antes da votação do impeachment de Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados. Nela, Jucá, senador e presidente nacional do PMDB, afirma que a queda da petista permitiria um “pacto” para “estancar a sangria” causada pelas investigações.

    Para lideranças do PT e ex-ministros do governo Dilma, os diálogos deixam claro que o objetivo do PMDB com o impeachment era barrar o avanço da Lava Jato. “Demonstra a verdadeira razão do golpe contra a democracia. É empurrar para baixo do tapete as investigações”, afirmou o ex-ministro Ricardo Berzoini.

    Para o PSOL, que era oposição ao governo Dilma, mas foi contra o impeachment, os áudios mostram que o processo que levou ao afastamento da petista foi “viciado”.

    Jucá nega que estivesse querendo obstruir a Lava Jato. Em entrevistas na manhã desta segunda, o atual ministro afirmou que ao falar de sangria com Sérgio Machado se referia à “situação de gravidade econômica e social do país”. Nos trechos divulgados, a palavra economia aparece apenas uma vez no diálogo. Já a expressão “estancar a sangria” surge num trecho em que o assunto era mesmo a Lava Jato, como mostrou posteriormente a “Folha de S.Paulo”.

     

    Jucá é um dos ministros mais importantes de Temer e participou diretamente da formação do novo governo. Ele admitiu o encontro com Machado, mas disse que os trechos divulgados foram “pinçados” e que não sabe como o diálogo foi gravado.

    O áudio já está em posse dos investigadores da Lava Jato. Abaixo, o Nexo separa os seis principais trechos do diálogo e faz sua contextualização.

    O papel de Lula diante da crise

    No momento do diálogo, a então presidente Dilma Rousseff queria ter seu antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, no ministério da Casa Civil. A medida daria foro privilegiado a Lula, que passara a ser investigado pela Lava Jato, mas também tinha o objetivo de tentar resgatar a articulação política do governo. Veja o que Jucá e Machado dizem sobre o tema: 

    Romero Jucá  “Se o Lula entrar, ele vai falar para a CUT, para o MST, é só quem ouve ele mais, quem dá algum crédito, o resto ninguém da mais crédito a ele porra nenhuma. Concorda comigo? O Lula vai reunir ali com os setores empresariais?”

    Sérgio Machado “Aquele pessoal que resistiu acordou e vai dar merda [...] Tem que ter um impeachment”

    Romero Jucá  “Tem que ter o impeachment, não tem saída” 

    O juiz Sergio Moro (responsável pelas ações da Lava Jato na Justiça comum), divulgou conversas telefônicas de Lula em 16 de março, horas depois da cerimônia de posse do petista como ministro da Casa Civil. Em um dos diálogos, Dilma o avisa que vai enviar o termo de posse para ser usado “em caso de necessidade”.

    A fala foi interpretada como uma tentativa de obstrução à Justiça, para evitar que Lula fosse investigado por Moro. Houve forte reação política ao áudio. O ministro  do Supremo, Gilmar Mendes, barrou a nomeação do petista. Dias depois, o ministro Teori Zavascki, relator das ações da Lava Jato, repreendeu Moro por divulgar gravações que envolviam autoridades com foro privilegiado, caso de Dilma. Moro pediu desculpas.

    A decisão do Supremo que mudou o cenário

    Em fevereiro de 2016, um mês antes do diálogo, o Supremo Tribunal Federal decidiu que os condenados em segunda instância passariam a cumprir pena imediatamente, mesmo antes de esgotadas as chances de recursos. Antes da decisão, condenados podiam permanecer em liberdade até que o caso fosse definitivamente encerrado.

    Jucá e Machado avaliam essa decisão. Para eles, essa mudança faria com que os empreiteiros presos na Lava Jato fizessem acordos de delação premiada, temendo cumprir pena já a partir de uma condenação em segunda instância. O ponto de partida das apurações contra políticos tem sido as delações de investigados. 

    Sérgio Machado “Com o negócio que o Supremo fez, vai todo mundo delatar”

    Romero Jucá  “Exatamente. E vai sobrar muito. O Marcelo e a Odebrecht vão fazer [a delação]” 

    Marcelo Odebrecht, presidente afastado da Odebrecht, está preso desde junho de 2015. Em março deste ano, a defesa da empreiteira sinalizou estar disposta a fazer uma “colaboração definitiva”, mas até agora não há confirmação de que um acordo tenha ocorrido. A empresa é acusada de participar do cartel de empreiteiras que fraudava licitações da Petrobras e pagar propinas a políticos em troca da garantia de contratos com a estatal.

    A delação de Odebrecht era considerada relevante pelo fato de ele ser um dos maiores empresários do Brasil, responsável por grandes doações a campanhas de diversos políticos e partidos. Antes disso, executivos de outras das maiores empreiteiras do Brasil já haviam firmado acordos de delação, como a Camargo Corrêa, a Andrade Gutierrez e a OAS.

    A relação entre Temer e Cunha e o ‘grande acordo’

    O diálogo revela as relações e as dissidências internas do PMDB. De um lado, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ainda resistente ao impeachment de Dilma. De outro, o então vice-presidente Michel Temer e o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

    Renan e Cunha também são investigados na Lava Jato - o deputado afastado já é réu. Desde que seu nome foi ligado às investigações, em março de 2015, Cunha se diz alvo de perseguição política.

    O deputado, que já era opositor de Dilma, foi determinante para o avanço do pedido de impeachment da presidente dentro da Câmara. Já Renan, alvo de nove inquéritos, manteve postura dúbia em relação ao processo. Mesmo com o pedido prestes a ser votado na Câmara, o senador evitava se posicionar a favor do afastamento. A saída de Dilma conduziria Temer à Presidência.

    Quando falam sobre Renan e Cunha, Jucá e Machado, segundo os trechos divulgados, sugerem que Temer faria parte de um “grande acordo nacional”, com participação do Supremo, que pararia “tudo”. 

    Romero Jucá  “Tem de mudar o governo para estancar esta sangria”

    Sérgio Machado “Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel”

    Romero Jucá  “Só o Renan que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra”

    Sérgio Machado “É um acordo, botar Michel num grande acordo nacional”

    Romero Jucá “Com o Supremo e tudo”

    Sérgio Machado “Com tudo, aí parava tudo”

    Romero Jucá “E delimitava onde está” 

    Em 17 de abril, a Câmara, sob o comando de Cunha, aprovou o prosseguimento do processo de impeachment para o Senado. Em 5 de maio, o Supremo suspendeu o mandato de Cunha e ele foi afastado da presidência da Câmara.

    Em 12 de maio, os senadores aceitaram o processo contra Dilma e a afastam temporariamente. Michel Temer assumiu. Renan, que durante todo o trâmite do impeachment optou pela discrição, não faz nenhum aceno claro de apoio ao governo interino.

    Diálogo sugere que PSDB será implicado

    Em um dos trechos, Sérgio Machado diz que a “situação é grave” porque “querem pegar todos os políticos”, entre eles os filiados ao PSDB. Até o momento, não há inquéritos abertos contra tucanos no âmbito da Lava Jato. Houve menções a políticos do partido em delações e depoimentos, mas os pedidos de investigação foram arquivados ou ainda não foram avaliados pelo Supremo.

    Entre eles está o senador Aécio Neves, presidente nacional do partido, cujo pedido de abertura de inquérito está suspenso, por determinação do ministro Gilmar Mendes. Aécio é citado na conversa entre Machado e Jucá. O tucano é definido como um político sem chances de ganhar eleições presidenciais. Não fica claro se Jucá refere-se às eleições de 2018 ou a possíveis eleições antecipadas, tema que vinha sido debatido naquele momento. 

    Sérgio Machado “A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. (...) Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já”

    Romero Jucá “Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador]. (...) [Tasso Jereissati] Também. Todo mundo na bandeja para ser comido”

    Sérgio Machado “O primeiro a ser comido vai ser o Aécio”

    Romero Jucá “Todos, porra. E vão pegando e vão…”

    Sérgio Machado “O Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição [de vencer eleição], a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB…”

    Romero Jucá “É, a gente viveu tudo” 

    Os tucanos atualmente fazem parte da base aliada do governo Temer e ocupam 3 dos 24 ministérios, com José Serra (Relações Exteriores), Bruno Araújo (Cidades) e Alexandre de Moraes (Justiça) - este último, apesar de ser da cota pessoal de Temer, é filiado ao PSDB.

    A legenda tem sinalizado apoio às principais medidas anunciadas por Temer, em especial na área da economia. No dia da posse dos ministros, Aécio participou da solenidade e posou para fotos. À “Folha de S.Paulo” o senador disse desconhecer e “estranhar” os termos do diálogo.

    O Supremo, a imprensa e os militares

    Ao ex-presidente da Transpetro, Jucá atribui à presença de Dilma à situação de instabilidade. Não fica claro se ele se refere aos desdobramentos da Lava Jato. Neste trecho, o então senador relata ter tido conversas com “ministros do Supremo”, que disseram que a imprensa continuaria pressionando “enquanto ela estiver” no cargo.

    É neste momento que Sérgio Machado sugere que, em um eventual governo, Temer faça um “grande acordo” e proteja “todo mundo”, entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula Silva. Adiante, Jucá afirma que precisa “ter um pacto”. Machado então diz que “um caminho” é buscar alguma ligação com o ministro Teori Zavascki, relator das ações da Lava Jato no Supremo. 

    Romero Jucá  “Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então... Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar”

    Sérgio Machado “Eu acho o seguinte, a saída [para Dilma] é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais”

    Romero Jucá  “Eu acho que tem que ter um pacto”

    Sérgio Machado “Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori [Zavascki]”

    Romero Jucá  “Não tem. É um cara fechado, foi ela [Dilma] que botou” 

    Outras conversas divulgadas no âmbito da Lava Jato sugerem a tentativa de diálogo com ministros do Supremo. Na conversa que teve com o filho do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, o ex-senador Delcídio Amaral (sem partido-MS) afirmou ter conversado com dois ministros da Corte, Teori Zavascki e Dias Toffoli. A afirmação fazia parte do diálogo, revelado em fevereiro, em que o ex-senador oferece dinheiro e um plano de fuga para Cerveró em troca do silêncio dele na Lava Jato. o ex-diretor negociava seu acordo de delação à época. Delcídio acabou acusado de obstrução de Justiça e teve o mandato cassado, em 10 de maio.

    Em um dos diálogos gravados de Lula, revelados em março, o ex-presidente sugere ao então ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, para falar com Dilma sobre o “negócio da Rosa Weber”. A ministra relatou o pedido da defesa de Lula para a investigação contra ele sair das mãos do juiz Sergio Moro. Os ministros da Corte reagiram aos diálogos e negaram sofrer qualquer influência política. Lula também negou. Já Delcídio afirmou ter agido a mando do ex-presidente.

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