Por que médicos estão acusando a ONU de politizar a ajuda humanitária

Médicos Sem Fronteiras abandonam primeira Cúpula Humanitária Mundial da história das Nações Unidas

     

    A primeira Cúpula Humanitária Mundial, convocada pela ONU para esta segunda (23) e terça-feira (24), na Turquia, tinha uma grande ambição: colocar sob um único guarda-chuva os 193 países-membros das Nações Unidas, além de todas as agências humanitárias internacionais, para melhorar o atendimento das 125 milhões de pessoas que sofrem com guerras e desastres naturais no mundo.

    Os preparativos levaram três anos. Mas, nem assim, evitaram problemas. Primeiro, a Rússia se negou a participar. Depois, os MSF (Médicos Sem Fronteiras), uma das maiores agências humanitárias do mundo, não apenas cancelaram sua presença como também fizeram duras críticas às Nações Unidas.

    A cúpula, que no início despertava simpatia por tratar de causas unânimes e altruístas, passou a ser vista com desconfiança. Os aspectos políticos ganharam destaque e o papel das potências foi questionado. “As nações ocidentais podem ir à guerra num determinado país e, ao mesmo tempo, ajudá-lo?”, resumiu numa única pergunta Peter Gill, jornalista autor de quatro livros sobre o assunto, um deles com o sugestivo nome “Hoje lançamos bombas, amanhã construímos pontes: como a ajuda internacional se tornou uma vítima da guerra”.

    Qual o problema por trás da cúpula

     

    A ONU cumpre um duplo papel - é um órgão que tem o poder de autorizar uma guerra enviando forças armadas próprias, sob sua bandeira azul e, ao mesmo tempo, por meio de inúmeras agências humanitárias, oferece, ela mesma, ajuda e proteção para as vítimas das guerras que conduz. É essa confusão que as agências humanitárias querem evitar.

    A crítica à ONU - que Peter Gill sintetizou em uma frase - não foi feita em qualquer site de internet, mas na página institucional do CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha). Foi uma forma que a organização de 152 anos encontrou para dar visibilidade a um questionamento que considera legítimo, mas que pode preferir não encampar publicamente como sendo seu.

    Os MSF, por sua vez, foram mais diretos. A diferença de tom é uma marca da divergência que originou os Médicos Sem Fronteiras, em 1971, quando o médico francês Bernard Kouchner abandonou a Cruz Vermelha e fundou os MSF, defendendo uma linha mais agressiva no posicionamento público.

    Foi exatamente o que a organização fez agora. Num dos documentos em que justificam sua ausência no encontro, os MSF explicam que “o desenvolvimento e a construção de Estados são tarefas vitais, mas não para as agências humanitárias, particularmente em contextos nos quais há disputa pelo poder”.

    De forma mais simples, o que os grupos humanitários estão dizendo é que não se pode destruir um país num dia para, no dia seguinte, reconstruí-lo, fazendo da nação que agride a mesma que ajuda. Além da contradição moral, há inúmeros problemas políticos, sendo o principal deles o uso da ajuda humanitária para erigir novos regimes pelo mundo, numa confusão indesejável de papéis.

    A organização sugere que os Estados se concentrem em respeitar as leis da guerra, em evitar a todo custo os ataques contra civis, em acolher os refugiados de acordo com a lei internacional e em responder com recursos aos apelos por financiamento.

    Além dos aspectos mais estruturais, os MSF protestam contra o fato de serem bombardeados incessantemente no campo de batalha pelos mesmos países que agora querem sentar-se à mesa para discutir cooperação. Só no ano passado, 75 hospitais apoiados pelo MSF foram bombardeados no mundo.

    2.400

    É o número de ataques contra instalações hospitalares registrados em 11 países entre 2012 e 2014

    125 milhões

    É o número de pessoas que precisam de ajuda humanitária em 2016, de acordo com a ONU

    17 anos

    É o tempo médio que refugiados e deslocados por guerras e catástrofes passam fora de suas casas

    12 vezes

    É o quanto cresceu o gasto mundial com crises humanitárias desde o ano 2000

    80%

    Das crises humanitárias são produzidas pelo homem, não por fenômenos da natureza

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