Como o arremesso de Stephen Curry dá nova cara ao basquete

O desempenho de um jogador do  Golden State Warriors nesta temporada pode revolucionar o esporte

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    Um jogador relativamente baixo está mudando a cara do basquete. Pode parecer exagero, mas o desempenho de Stephen Curry em quadra não só tem desequilibrado partidas como influenciado a forma como os demais jogadores se posicionam e como os pontos são feitos. Ou seja, alterando a dinâmica do basquete em geral. Há quem considere esse o começo de uma revolução no esporte

    A habilidade do jogador do Golden State Warriors tem sido analisada pela imprensa americana, enquanto acontecem as playoffs da NBA, principal liga de basquete profissional dos Estados Unidos.

    Estatisticamente, Curry está “reescrevendo” o livro dos recordes, afirmou o “Wall Street Journal”. Mecanicamente, deixa físicos boquiabertos, continuou o jornal. Acertos “super-humanos”, para o “The New York Times”, em referência aos seus arremessos. 

    Em média, ele tem um percentual de 43,7% cestas acertadas a cada tentativa de longa distância, as chamadas cestas de três pontos (na NBA, feitas a cerca de 7 metros da linha do cesto). 

    Esse é o terceiro melhor percentual de aproveitamento de um jogador desde que é permitido arremessar desta distância. A diferença é que Curry é, de longe, o jogador que mais realiza arremessos do gênero: já são mais de 2.000 tentativas na carreira.

    Essa não é a primeira vez que o esporte se adapta ao ritmo que seus jogadores impõem. Antes de Curry, as habilidades de Michael Jordan, LeBron James e Wilt Chamberlain fizeram o mesmo.

    Jordan, por exemplo, se destacava por seus dribles e pela força física que usava para se aproximar da cesta. A técnica do atleta do Warriors destoa justamente dessa “velha-guarda”, sendo uma espécie de auge da forma de se jogar basquete desenvolvida ao longo do tempo com base nos arremessos de três pontos

    Especula-se, atualmente, a possibilidade de aumentar a linha de onde é permitido o arremesso. 

    Alturas:

    Jordan

    1,98 m

    LeBron

    2,03 m

    Wilt

    2,16 m

    Curry

    1,91 m

    O swing de Curry

    O que mais impressiona no jogador não são as cestas em si, mas seu estilo de arremesso particular: rápido, cinético e certeiro, na descrição de especialistas que tentam entender o fenômeno.

    Basicamente, dizem eles, a diferença de Curry é que ele lança a bola enquanto pula, em vez de saltar e arremessar posteriormente.

     

    O malabarismo faz com que solte a bola em até três segundos num arco perfeito - ao menos um segundo mais rápido que os demais jogadores.

    “Todo mundo tenta imitar o swing de Tiger Woods no golfe, mas ninguém imita o pulo de Steph”

    Dell Curry

    Ex-jogador da NBA e pai de Stephen Curry, ao "WSJ "

    De acordo com o Stats LLC, empresa de dados e conteúdos, a média de altura atingida pela bola em arremessos de três pontos nesta temporada tem sido de 4,8 metros. Curry a eleva a 4,94 metros, em média e faz com que entre no aro a 46º. Segundo a clínica de basquete Noah Basketball, que desenvolve tecnologias para aprimorar o nível dos jogadores, o ângulo perfeito para se atingir o alvo é 45º.

    Para o técnico do Golden State Warriors, Steve Kerr, a mágica não está na física, mas na forma como o cérebro de Curry interage com o resto de seu corpo. Em seus treinos, pratica uma espécie de “sobrecarga neuromuscular”, com exercícios específicos para estimular o cérebro. Em um deles, por exemplo, joga uma bola de tênis para o ar com uma mão, enquanto pinga uma bola de basquete com a outra.

     

    Embora filho de um jogador de basquete, Curry nunca foi uma expectativa para o esporte. Em todo o time que jogou, era o integrante mais baixo, o que o obrigava a ser criativo para se destacar.

    Em um verão durante o ensino médio, dedicou-se inteiramente a praticar seu arremesso: passou a arremessar de cima da cabeça, em vez de fazê-lo com os cotovelos na cintura, na altura do peitoral. Ajuste adotado até hoje.

    O divisor de águas em sua carreira veio na temporada de 2012-2013, quando, jogando pelo Warriors, quebrou o recorde com 272 cestas de três pontos na temporada regular (anterior às playoffs). Na temporada seguinte, superou o próprio limite, com 286. Nesta, o jogador fez 402.

    Os números de Curry nesta temporada

    402

    Cestas de três pontos. Nenhum jogador na história passou da marca de 300.

    73

    Vitórias. Recorde de vitórias em uma temporada antes pertencia ao Chicago Bulls de Michal Jordan, feito em 1996 com 72 partidas ganhas.

    MVP

    Curry foi o primeiro jogador na história eleito Most Valuable Player (jogador mais valioso) por unanimidade. O prêmio é concedido ao atleta de maior desempenho em uma temporada.

    As cestas de três pontos

    A possibilidade de se pontuar da linha de três pontos é relativamente recente na história do basquete.

    Existia desde 1967 na ABA ( American Basketball Association), mas apenas chegou à NBA em 1979, quando os jogos eram transmitidos por fitas gravadas.

    Na ocasião, o “The New York Times” chamou o arremesso de “artifício”: “Pode mudar o jogo no final dos períodos”, explicou um jornalista na época. Algo correspondente a virar o jogo nos 45 minutos do segundo tempo. 

    A primeira cesta de três pontos da NBA foi feita por Chris Ford, do Boston Celtics, na noite de abertura contra o Houston Rockets - que também pontuou à distância mais tarde na partida.

    Mesmo assim, o “artifício” era considerado desesperado e entediante, e foi criticado por técnicos e jogadores. Em sua temporada de estreia, foi raramente usado - foram menos de três tentativas por jogo.

    Brian Taylor, armador do time Clippers na época, foi o primeiro a se especializar no recurso, embora seus esforços não fossem sempre reconhecidos e os arremessos recebidos com reticência pelos fãs.

    Trinta e seis anos mais tarde a engenhoca tornou-se vital na ofensiva das equipes, reconheceu o “NYT”. Nesta temporada, foram 23,7 tentativas por jogo, em média.

    Para o jornal, a mudança se deve puramente à matemática: um arremesso que vale 50% a mais que os demais compensa, embora seja mais difícil acertá-lo.

    Jogadores não recorrem a ele apenas para salvar o jogo no final da partida, mas o arremesso à distância tornou-se um recurso efetivo e sua constância muda a cara de como o jogo é jogado

    Times que fizeram mais tentativas do gênero nas últimas temporadas dominaram o campeonato. A relação entre equipes que tiveram mais investidas de três pontos e a percentagem de vitórias foi de 47%, a maior até hoje.

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