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Site reúne vídeos e filmes produzidos ou estrelados por negros. Por que essa é uma ideia necessária

Antes dispersos na internet, conteúdos com participação negra encontram lugar na plataforma independente Afroflix, que busca questionar invisibilidade dos negros no audiovisual brasileiro

     

    Estreou em 17 de maio no Brasil a plataforma de conteúdo audiovisual Afroflix. Na definição do próprio site, a ideia se destina a reunir “produções que possuem pelo menos uma área de atuação técnica/artística assinada por uma pessoa negra”, entre filmes (como o elogiado longa de ficção “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós), séries, web séries, programas, vlogs e clipes produzidos, escritos, dirigidos, ou protagonizados por pessoas negras.

    Sem fins lucrativos ou patrocinadores, o investimento inicial veio do bolso das criadoras do projeto, que trabalham na manutenção do site. O acesso do público aos conteúdos é livre.

    Há duas maneiras de “entrar” no Afroflix, por inscrição ou indicação dos conteúdos, que depois passam por uma avaliação da curadoria. O autor também pode entrar em contato quando quiser para remover seu conteúdo da plataforma. Ao todo, são oito categorias: documentário, experimental, ficção, fic/doc, programa, série, vídeo clipe e vlog, abrangendo produções de durações diversas.

    Curta-metragem inspirou a plataforma

    “Kbela” (lê-se “cabéla”) é um curta-metragem dirigido e roterizado pela cineasta Yasmin Thayná, que conta a história do doloroso processo de descoberta de uma menina de periferia como mulher negra.

     

    A gestação do Afroflix - por Yasmin Thayná, Silvana Bahia, Erika Candido e Monique Rocco - está intimamente ligada à produção do curta, feito no Rio de Janeiro e lançado em 2015, por um grupo de mulheres de maioria negra.

     

    No processo, a equipe se deparou com a questão da distribuição cinematográfica e teve contato com pessoas que, como elas, estavam produzindo conteúdo audiovisual com poucos recursos.

    “A partir disso, pensamos em construir uma plataforma que reunisse o máximo de conteúdo produzido por diretores e produtores negros que até então estavam dispersos na internet”, narra Silvana Bahia, cofundadora do Afroflix e diretora de comunicação do “Kbela”, em entrevista ao Nexo. “Antes você tinha mais dificuldade em dizer dez diretores negros de cinema atuantes. Com o Afroflix, fica bem mais fácil”.

    A ideia é que a plataforma funcione tanto como ação afirmativa em benefício da questão racial no audiovisual como para suprir duas demandas: a de assistir conteúdos com maior participação dos negros e de dar visibilidade ao trabalho de pessoas negras no audiovisual.

    “A partir do momento em que você tem um contexto de veiculação, de disseminação de conteúdos audiovisuais com pouquíssimos negros encabeçando, seja o roteiro, seja na interpretação ou na direção, é preciso uma ação afirmativa na área, como o Afroflix, para ter acesso [às produções]”, diz Taís Amorim, atriz de “Kbela” e apoiadora da plataforma.

    Ela destaca que o trabalho de pesquisa de que a plataforma necessita é grande, e que, com todas as dificuldades de recursos, os negros têm produzido audiovisual de maneira independente. A novidade trazida pela curadoria do Afroflix está justamente, para ela, no espaço midiático que proporciona.

    Por que a produção audiovisual negra precisa de espaço

    O estudo “A Cara do Cinema Nacional”, realizado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) com o intuito de analisar cor e gênero de diretores, roteiristas e atores dos filmes brasileiros entre 2002 e 2012, revela desigualdade gritante na participação de negros e brancos no cinema e mostra que a “cara” do cinema nacional é sem dúvida branca, além de predominantemente masculina.

    “Uma vez a Angela Davis comentou que se ligar a TV no Brasil, você pensa que só tem branco nesse país…”, afirma Silvana Bahia referindo-se à vinda da militante americana pelos direitos civis dos negros ao Brasil, em 2014.

    “Em um país como o Brasil, onde a maioria da população é formada por negros e as representações geralmente seguem um padrão branco, é muito importante que as pessoas possam ter acesso a conteúdos nos quais se sintam representadas de alguma forma. As pessoas querem ver mais negros na TV, nos filmes e em outras linguagens”.

    Ainda segundo a pesquisa, nenhum dos 218 longas-metragens nacionais de maior bilheteria analisados no período contou com uma mulher negra na direção ou no roteiro. Além do racismo responsável pela invisibilidade dos diretores e roteiristas negros nesse cenário, há uma insatisfação com papéis fixos e estereotipados ocupados pelos negros no audiovisual brasileiro.

     

    As questões de representatividade por trás e na frente das câmeras, portanto, andam juntas. Ao criar narrativas próprias, protagonizadas e encabeçadas por negros, Silvana Bahia considera que é possível revolucionar os papéis e a representação negra.

    “O fazer do negro pode revolucionar no audiovisual quando nós temos a possibilidade não apenas de criar as narrativas sobre nós, mas sobretudo quando temos a chance de também trazer o nosso olhar para as questões do mundo. O racismo é estruturante em nossa sociedade, não dá para fechar os olhos para isso”, diz Silvana Bahia.

    Taís Amorim pontua a importância do Afroflix no contexto. “ A plataforma busca justamente fortalecer isso: só negras e negros divulgando as suas narrativas, com seu olhar, as suas potencialidades. Desconstrói o lugar simbólico onde a gente [as pessoas negras] precisa estar, os lugares que precisamos ocupar”, diz.

    A questão da mulher negra no audiovisual

    A representatividade, visibilidade e representação da mulher negra são questões fundamentais para as fundadoras do Afroflix. Esse foco já se faz presente em produções disponíveis na plataforma, como “Mwany”, curta-documental de Nivaldo Vasconcelos.

    Apesar de ser maioria entre a população feminina do Brasil, as mulheres negras (pretas ou pardas, segundo a definição do IBGE) somavam, ainda segundo o estudo da UERJ, apenas 4,4% do elenco dos longas nacionais de maior bilheteria. No mesmo período, as mulheres ocuparam apenas 14% dos cargos de direção e 26% assinaram roteiros. Nenhuma delas era negra.

    Nesse contexto, as criadoras do Afroflix reivindicam um projeto político feminista e antirracista no campo das artes, pela construção e afirmação de espaços de autorrepresentação das mulheres negras. E, principalmente, combatem a sexualização de seus papéis e corpos, como acontece, por exemplo, na figura da Globeleza - um lugar que elas se recusam a continuar ocupando.

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