Como a sociabilização violenta de meninos leva a índices mais altos de violência doméstica no futuro

Exposição a violência urbana na infância é decisiva para dar origem a homens adultos violentos - inclusive contra suas parceiras

     

    A exposição à violência urbana durante a infância e adolescência está diretamente associada à prática  de violência doméstica por homens na vida adulta.

    Menores de 18 anos expostos à violência tem 3,7 mais chances de agredirem suas parceiras na vida adulta quando comparados com aqueles que não foram expostos a violência na infância e na adolescência.

    A conclusão é de um relatório do Instituto Promundo, uma ONG cujo trabalho se concentra na promoção da igualdade de gênero e prevenção da violência. Nesta quinta-feira (19), a organização publicou o resultado de uma pesquisa que investigou o impacto da violência urbana na violência de gênero.

    A pesquisa analisou questionários respondidos por 572 homens e 579 mulheres no Rio de Janeiro, entre 18 e 59 anos, em áreas com taxas altas e baixas de homicídios, além de outras 59 entrevistas, para explorar:

    • Como a exposição a altos índices de violência urbana molda o conceito de masculinidade na infância e como isso se expressa na resolução de conflitos na vida adulta. 
    • Como alguns homens rodeados por situações de violência urbana, como policiais e membros de facções criminosas, evitam ou abandonam a violência doméstica.

    As principais conclusões das análises

    • O convívio com a violência urbana na infância tem efeitos no comportamento violento na vida adulta, inclusive na esfera privada.
    • A cultura da violência como algo natural para homens é um problema que tem implicações sociais para homens e mulheres.
    • A exposição à violência urbana - ou seja, a vivência em áreas com altos índices de criminalidade - pode gerar trajetórias pessoais violentas.

    Conceito de ‘homem de verdade’

    Uma das conclusões dos pesquisadores diz que, sobretudo nas comunidades de baixa renda no Rio de Janeiro, com altas taxas de homicídio, os meninos são encorajados a acreditar que recorrer à violência é uma característica necessária para ser “um homem de verdade”.

    “Os meninos aprendiam a afirmar-se através da violência ou do seu potencial uso, impondo-se sobre outros e evitando ou questionando insultos. Era esperado que começassem a afirmar a sua disponibilidade para brigar desde cedo.”

    Os relatos desses entrevistados indicam que  homens com trajetórias violentas as construíram ainda na infância, sobre normas de gênero que determinavam símbolos violentos, como armas e carros, como parte integrante do “ser homem”.

    Estudos prévios sobre exposição à violência durante a infância indicam que, na vida adulta, as vítimas dessa exposição enxergam a violência como um meio possível para resolução de problemas.

    No Brasil, homens são os principais autores de violência física em espaços públicos e têm dez vezes mais probabilidade que as mulheres de serem vítimas de violência urbana.

    A violência no cotidiano dos entrevistados

    • Entre os entrevistados, o medo da violência urbana, seja da polícia ou de grupos criminosos, é um fator que aumenta as chances de que eles cometam atos violentos no espaço público ou contra parceiros íntimos. As chances são maiores nas áreas com maior índice de homicídios. 
    • A simples exposição à violência urbana antes dos 18 anos basta para aumentar 3,7 vezes a chance de que um homem cometa violência contra sua parceira na vida adulta. Estresse no trabalho aumenta as chances em 1,2 vezes - sempre em comparação com aqueles que não foram expostos a atos violentos antes dos 18 anos. 
    • Entre os dados identificados pelos pesquisadores, a exposição a violência na infância e na adolescência sempre aumenta as chances de que adultos cometam violência, seja em áreas menos ou mais violentas. Ainda assim, os moradores de áreas mais violentas têm chances quase sempre maiores de que essa influência os leve a atos violentos. 
    • No grupo de entrevistados que relataram contato com violência urbana antes dos 18 anos, a violência aparecia em forma de tiroteios no bairro, contato com a venda de drogas e outras atividades do tráfico ou na forma de violência no ambiente doméstico.

    82,8%

    dos homens analisados viveram ou testemunharam pelo menos duas destas situações antes dos 18 anos: agressão grave, abordagem violenta da polícia, espancamento, troca de tiros, ameaças de morte, lesão por arma de fogo

    • Todos homens entrevistados pelos pesquisadores, entre os grupos de alta e baixa renda, testemunharam ou se envolveram em brigas de rua na infância. 
    • Os entrevistados das áreas com maiores índices de homicídios frequentemente descreveram brigas no contexto familiar e entre as crianças como um dado de suas trajetórias de vida.  
    • Nas áreas de baixa renda, verificou-se que os entrevistados tinham exposição frequente a situações envolvendo armas de fogo e outros tipo de armamento, seja por parte da polícia ou de facções criminosas. 
    • Todos os grupos de entrevistados descreveram que símbolos associados com a masculinidade, como armas de fogo, carros e virilidade, ganham lugar na formação de identidades ainda na infância. Nesse contexto, as armas de fogo são percebidas como símbolos de status, poder e controle sobre homens e mulheres. 
    • Falta de trabalho e baixa renda gera um estresse econômico que está associado ao uso de violência em geral e à entrada no tráfico de drogas.

    Fatores mantiveram homens longe da violência doméstica

    O estudo também investigou fatores comuns entre homens que, mesmo vivendo em contextos altamente violentos - como policiais ou ex-traficantes - não recorreram ou abandonaram violência urbana ou doméstica.

    Características de homens que rejeitam a violência

    • A paternidade apareceu como um dos fatores decisivos para o distanciamento do uso de violência, de acordo com os entrevistados. No caso dos traficantes, a paternidade fazia com que os jovens passassem menos tempo “na rua” e estimulava uma “mudança de prioridades”.  
    • Círculos de apoio social, como grupos religiosos, e influência da família também foram mencionados como decisivos. 
    • A participação de figuras de referência masculinas, como o pai ou o irmão mais velho, nas tarefas domésticas, e melhores noções de equidade de gênero - como respeito com a parceira e com mulheres jovens, por exemplo - figuram como característica entre homens que rejeitavam violência. Homens cujos pais participavam das tarefas domésticas, por exemplo, tinham menos probabilidade de cometer violência sexual. 
    • Outros fatores que impactaram o afastamento da violência foram a ampliação das perspectivas de vida e de mobilidade urbana, o nível de escolaridade, o uso de mecanismos de controle emocional - como ‘afastar-se de conflitos’ - e o questionamento de símbolos masculinos ligados à violência.

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