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Como mulheres estão buscando tratamento médico de forma mais política

Iniciativas reúnem pacientes e ginecologistas que se preocupam com temas como parto humanizado e uso de copinho

    Não basta atender pelo convênio médico. Mulheres estão buscando ginecologistas que respeitem diferentes orientações sexuais, façam parto humanizado, defendam o uso de coletor menstrual (o copinho) e até respondam por Whatsapp em caso de emergência.

    Um grupo tem compartilhado em círculos do Facebook e e-mail uma planilha virtual e colaborativa justamente sobre essa busca. O “Guia de Recomendação de Ginecologistas”, como é chamado, traz sugestões, feitas por pacientes, de médicos em todos os Estados do país. Para acessá-lo, é necessário receber de alguma participante o convite para o documento.

    A tabela enumera nomes de ginecologistas, telefone, endereço e observações sobre o atendimento, feitas por quem já realizou a consulta com o profissional. Entre os comentários, está “sem julgamentos”, “nunca falou sobre idade para ter filhos” e “contra o uso indiscriminado da pílula”.

    A dificuldade em encontrar médicos atenciosos é ainda expressa em observações como “explica tudo didaticamente” e “embora seja homem, eu achei ele bem respeitoso e cuidadoso”.

    Quais são as dificuldades encontradas pelas mulheres

    O “Guia de Recomendação de Ginecologistas” tem um texto introdutório no qual cita alguns dos principais obstáculos encontrados por mulheres durante consultas ginecológicas.

    Alguns dos problemas

    • Mulheres lésbicas e bissexuais não se sentem confortável compartilhando essa informação
    • Saúde íntima da mulher é sempre associada à prática heterossexual
    • Mulheres não se sentem seguras em falar de abusos
    • Jovens e menores de idades são tolhidas de informações por pais conservadores e médicos coniventes

    Lucia (que não quis revelar o sobrenome), 28, recorreu à planilha após viver uma situação traumática no passado. Ela teve um aborto espontâneo e não recebeu a atenção que esperava de seu ginecologista na época.

    “Ainda com esse médico, comentei sobre a minha vontade de ter um parto normal e ele entrou em méritos financeiros, de posicionamento político etc, sem se preocupar com o fato do que eu esperava do momento”, disse ao Nexo, referindo-se às polêmicas em torno da realização do parto natural.

    Ela ficou sabendo da iniciativa pelo Facebook e se interessou por ser algo feito “de mulheres para mulheres”.

    “O que mais chamou minha atenção foi ter uma lista de médicos que respeitam a opção da mulher e, caso eu venha a ter filhos no futuro, um médico que esteja alinhado com o que acredito.”

    Lucia

    paciente

    Uma iniciativa organizada por médicos

    Do outro lado, há projetos de profissionais da saúde que se reúnem em busca de oferecer um tratamento mais humanizado.

    O Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde é um deles. O grupo surgiu inspirado nas discussões sobre direitos sexuais e reprodutivos das décadas de 1980 e 1990 e na atuação de projetos internacionais como o Mulheres de Boston - cujo trabalho é mostrado no documentário recém-lançado “She’s Beautiful when She’s Angry” - e o Dispensaire de Femmes, de Genebra.

     

    O Coletivo fica localizado em um casarão em Pinheiros, bairro nobre da região Oeste de São Paulo. O ambulatório de ginecologia do espaço atende em média de 20 a 30 mulheres por semana, em consultas que duram cerca de 1 hora. Agendamentos com um dos profissionais do grupo podem ser feitos por telefone ou pela internet e, no geral, há espera de uma semana. O pagamento é estipulado de acordo com uma taxa de contribuição, negociável.

    Fazem parte do coletivo uma ginecologista e duas médicas de família, uma residente e uma obstetriz. Há ainda no casarão um grupo de parteiras e obstetrizes, que atende pré-natal e acompanha partos domiciliares, um consultório de psicologia e outras atividades, como um grupo de conscientização com homens que praticaram violência contra a mulher.

    “A procura por nosso serviço só aumenta porque é muito grande a insatisfação das mulheres com o atendimento ginecológico convencional. Elas nos procuram porque cansaram de ser atendidas em 15 minutos. De receberem prescrições de pílulas anticoncepcionais sem serem alertadas sobre seus riscos ou sobre alternativas não hormonais. De serem automaticamente imaginadas heterossexuais e terem que responder a ‘e o que você usa para não engravidar?’, porque a maioria dos médicos se nega a considerar que elas possam relacionar-se com mulheres.”

    Halana Faria

    Ginecologista

    Entre as diferenças do atendimento, por exemplo, está o incentivo às mulheres em participarem de seu próprio exame. As pacientes inserem elas mesmas o espéculo para o exame de colo de útero, conta Faria.

    “Isso carrega uma força simbólica incrível. Não são poucos os relatos de mulheres que sentiram  exames anteriores como invasivos e parecendo um abuso sexual.”

    Algumas soluções propostas pelo Coletivo:

    • Informação sobre métodos contraceptivos sem lobby de laboratórios farmacêuticos
    • Discussão sobre riscos e benefícios dos métodos não hormonais (dentre eles, orientação do diafragma)
    • Acolhimento de gestações indesejadas
    • Pré-natal com obstetrizes, médicas de família e ginecologista
    • Atenção ginecológica pautada por respeito às sexualidades, escuta qualificada, vínculo, autoconhecimento e cuidado de si
    • Desmedicalização e tratamentos mais naturais quando este for o interesse da mulher
    • Orientação sobre o funcionamento do SUS e incentivo a usar sua unidade básica de saúde, para buscar medicação ou inserir o DIU

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