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Qual o papel dos memes na discussão política

Memes ajudam a lidar com frustrações e tornam a política mais 'cool', mas o debate pode ficar raso

    Imagine a seguinte cena: em 2030, um jovem de 15 anos se aproxima da mãe e pede ajuda com o dever de história, uma redação sobre a conturbada vida política no Brasil a partir de 2015. “Achei que você nunca fosse perguntar”, diz a mãe, comovida, enquanto abre a pasta “Memes 2017” no computador.

    A piada veio do Twitter, mas ilustra com precisão a maneira como uma fatia da internet brasileira lida com o furacão político que está passando pelo país: com memes, as fotos com texto por cima que nesse caso ridicularizam ideologias e políticos, fazem referências à cultura pop e se tornaram quase onipresentes nas redes sociais.

    Os memes políticos são uma forma de marketing de ideologia produzido pelos usuários comuns. Como efeito colateral, ajudam a lidar com a frustração causada pelo momento político e a aproximar a narrativa política do entretenimento, o que gera mais interesse e aproximação do tema por parte da sociedade. Mas também podem contribuir para a polarização da discussão política.

    Memes políticos

    Os memes são o equivalente cultural de um gene biológico, um fragmento de informação cujo maior objetivo é se replicar, de acordo com o biólogo Richard Dawkins, que definiu o conceito em 1976 — antes da cultura digital. No contexto da internet, memes são pequenas peças de informação capazes de se auto-replicar.

    Seu poder viral garante o crescimento e sobrevivência daquela peça de informação. E por isso memes são excelentes em transmitir mensagens simples e diretas, através de um meio acessível para a maioria do público: imagens.

    A fórmula é mais rápida do que qualquer outra peça de informação política, é mais conectada com a cultura pop e com acontecimentos recentes e tem menos chance de irritar os outros do que um textão, mas ainda assim é capaz de fazer uma ideia — ou a semente dela — se fixar na cabeça de alguém.

     

    Joel Penney, pesquisador de novas mídias da Universidade de Montclair, nos Estados Unidos, e especialista em memes políticos, disse em entrevista ao Nexo que memes políticos são tão populares justamente por serem uma maneira extremamente eficiente de propagar uma ideia.

    “Há humor, mas não é só isso. Geralmente, um ponto de vista é expressado através do humor. Os memes tentam influenciar uma rede de contatos e em geral se tornam uma espécie de peça de marketing político.”

    Joel Penney

    Professor da Escola de Comunicação e Mídia da Universidade de Montclair e especialista em memes políticos

    No livro “Memes in Digital Culture”, da pesquisadora Limor Shifman, ela escreve que memes na política geralmente se apresentam de três formas diferentes: como forma de persuasão, como maneira de articular protestos de base em movimentos sociais e na sociedade civil e como modo de expressão política e de discussão pública.

    Em regimes não democráticos, o conteúdo imagético humorístico com viés político também é usado de uma quarta maneira — para subverter a ordem estabelecida. Shifman diz que o humor sempre fez parte do debate político, mas na esfera privada. Agora, com a internet, ele se torna parte da esfera pública.

     

    Os memes também se colocam como um processo de construção de identidade individual que vira coletiva. É a avaliação do pesquisador  Pedro Lenhard, da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlo Vargas no Rio de Janeiro.

    Para ele, esse tipo de conteúdo é resultado de uma reflexão com base em alguma percepção moral e geralmente serve para aumentar a atenção para situações em que as pessoas precisam de mudança ou melhoria.

    O que há de diferente é que a comunicação dessa reflexão se adapta à linguagem que surgiu na rede e incorpora uma série de elementos nativos da internet, como o remix e o humor, e por isso ocupa um espaço importante.

    Cultura pop e humor

     

    As camadas de referências à cultura pop que acompanham os memes são manifestações dessa construção individual mencionada por Lenhard. Elas mostram as referências pessoais e culturais daqueles que criaram a peça e também daqueles que a compartilharam.

    O remix da cultura pop com os memes serve também para aumentar seu poder de viralização e facilitar a construção de metáforas que simplifiquem e facilitem a compreensão da ideologia por trás do meme. Comparar um político a um vilão ou a um herói, por exemplo, é um exemplo desse recurso.

    Por fim, Lenhard e Penney concordam que os memes são ferramentas poderosas para que as pessoas compreendam o que está acontecendo e organizem a maneira como se sentem em relação a certos acontecimentos políticos.

    “De alguma forma, a criação de memes está organizando as emoções das pessoas.”

    Pedro Lehnard

    Pesquisador da FGV-RJ

    Às vezes, essa organização passa pelo humor para “despressurizar” uma situação de stress, pressão ou insatisfação com o cenário político. É o que observou uma análise do Laboratório de Políticas Públicas da FGV-RJ.

     

    Os pesquisadores analisaram como as opiniões políticas nas redes sociais se comportam em dias normais e em dias de discussão política mais acirrada, como por exemplo na data da votação do impeachment de Dilma Roussef na Câmara dos Deputados.

    O resultado mostrou que, em um dia normal, há três grupos no debate político: aqueles que são contra o impeachment, os que são a favor e os neutros, geralmente representados por veículos jornalísticos.

    “Naqueles dias em que não dá para não falar de política”, diz Lehnard, se referindo a datas com acontecimentos importantes, “aparece um quarto grupo: um que se posiciona com uma linguagem de humor, sátira e ironia”, completa.

    “O grupo de perfis amarelos e verdes [o quarto grupo] utiliza linguagem nativa das redes. Os comentários se apropriam de tom humorístico e sarcástico para tratar dos protestos. No grupo, observa-se novos atores emergentes com alinhamento político indefinido.”

    Laboratório de Análise de Políticas Públicas da FGV-Rio

    Para o pesquisador, isso reforça a hipótese de que os memes sejam usados como uma maneira de tentar abstrair do peso que o debate político adquiriu nos últimos tempos. “É algo como ‘já que temos que falar sobre isso porque não dá para ficar sem falar, vamos falar de uma maneira mais leve”, analisa.

    Críticos dizem que memes superficializam debate político

     

    Nos EUA, onde o contexto político também apresenta polarização e os memes também têm papel importante no debate político digital, há críticas ao uso desse tipo de conteúdo para debater política.

    Pondera-se que a simplicidade e frequente binarismo dos memes políticos - a ideia de que há vilões e heróis que podem ser comparados a personagens de cultura pop reforça isso - contribuem para a polarização.

    Outro debate aponta que o caráter viral dos memes é o que permite que eles sejam usados para espalhar boatos falsos sobre políticos e políticas públicas. E também existe quem diga que informar-se e engajar-se em política através da criação e do compartilhamento de memes é um jeito pobre e raso de se envolver no cenário.

    “A política viral pode ser divertida, mas me deixa nervoso. [...] gosto de política argumentativa, agressiva, de volume alto, mas sempre que possível precisa e detalhada. E a política viral é o oposto disso. Curta, super simplificada, rápida e apresenta oportunidades escassas pra discussão. O que importa são as visualizações, os cliques, os compartilhamentos e as curtidas.”

    Jamie Bartlett

    CDiretor do centro de análise de Social Mídia do think thank Demos, em entrevista ao The Telegraph

    O pesquisador da FGV justifica as críticas dizendo que há uma crença geral de que o entretenimento é uma forma informativa menos válida do que o noticiário e a discussão política tradicional, tidos como um dos pilares do pensamento racional.

    Joel Penney diz preocupar-se com a redução de argumentos e debates políticos a slogans e hashtags, porque isso aproxima a linguagem digital espontânea do que sempre foi a propaganda política.

    Mas tanto ele como Lenhard são otimistas nos lados positivos do uso dos memes no ativismo político: misturar entretenimento com política geralmente torna a discussão mais acessível, mais divertida e aproxima o debate político da categoria “cool” - algo admirável para um tema que durante muito tempo foi considerado entediante na sociedade brasileira.

     

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