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Como o uso excessivo do celular desperta sintomas análogos ao déficit de atenção

Estudos feitos com jovens mostram como o aparelho faz deles mais hiperativos e distraídos 

    A reclamação de pais sobre filhos que não largam o celular ganhou respaldo científico: segundo estudos feitos por universidades nos EUA, na Inglaterra e na China, jovens que recebem muitas notificações no telefone apresentam os mesmos sintomas que aqueles identificados com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). A constatação vale para a população no geral.

    A pesquisa mais recente, da Universidade de Virgínia, examinou como 221 estudantes universitários usavam seus celulares no período de duas semanas. Ao final, concluiu que alunos que deixam o telefone ligado ou no vibra para receber notificações apresentavam mais sintomas de desatenção e hiperatividade do que aqueles que deixam os celulares desligados ou no silencioso.

    Os sintomas reconhecidamente de TDAH são desatenção, inquietude e impulsividade.

    “Smartphones podem contribuir para esses sintomas ao passo que servem como uma fonte rápida e fácil de distração”, disse o autor da pesquisa, Kostadin Kushlev, à revista “Wired”.

    Em 2014, uma pesquisa da Third Military Medical University, da China, trouxe resultados semelhantes ao associar o uso de telefones celulares à desatenção de adolescentes chineses - um dos maiores mercados do produto. Outro levantamento, feito pela University College of London, em 2015, afirma que o uso de smartphones torna pessoas “surdas temporariamente”, já que perdem a noção do que está acontecendo ao seu redor. 

    O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade

    O TDAH não é apenas uma soma de sintomas comportamentais, como os listados acima. Trata-se de um distúrbio neural, de origem biológica.

    Pesquisa de 2014 provou como o distúrbio de fato altera algumas funções do cérebro de forma mais marcante do que era acreditado. Essas alterações podem ser captadas por técnicas avançadas de ressonância magnética que, se desenvolvidas e disseminadas, podem evitar inúmeros diagnósticos errados ou precipitados e tratamentos excessivos

    Por isso, Kushlev chamou atenção para o fato de que sua investigação não sugere que smartphones causem déficit de atenção, nem que a redução na utilização do aparelho possa curar uma pessoa diagnosticada com o distúrbio.

    “As descobertas apenas sugerem que nosso constante estímulo digital pode estar contribuindo para aumentar a crescente e problemática falta de atenção na sociedade moderna”.

    Kostadin Kushlev

    Autor da pesquisa

    Da mesma forma, a pesquisa da universidade chinesa também ressalta o fato de não ser comprovado que telefones tenham efeitos psicológicos no desenvolvimento dos adolescentes e que desatenção é um dos distúrbios mais comum entre jovens.

    A academia, de certo modo, confirma uma percepção popular óbvia: a de que celulares isolam as pessoas. Para muitos, o costume impede que passem por uma experiência importante à criatividade: o tédio

    Um programa de rádio de Nova York se dedicou inteiramente ao tema: em seis episódios, a série “Bored and Brilliant” (entediado e brilhante) pediu que seus ouvintes desligassem os celulares em diferentes situações para ver onde suas ideias o levariam. Participantes podiam baixar um aplicativo para rastrearem seu progresso num processo de desapego do aparelho.

    Outra constatação da Virginia University, feita em parceria com a Harvard University, descobriu que estudantes preferiam receber pequenos choques de tempos em tempos a ficarem sentados pensando. Algo sintomático sobre os efeitos dos aparelhos móveis no comportamento da sociedade. 

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