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O que a ciência está fazendo para se aproximar da sociedade

Da comunicação científica simples e bem sucedida depende a própria viabilização da ciência - por isso o tema ganha cada vez mais importância no meio acadêmico

     

    Em maio de 2016, estudantes brasileiros de áreas científicas competiram na final do Famelab, uma disputa que premia cientistas que melhor conseguem explicar os conceitos das pesquisas que desenvolvem para o público geral em até 3 minutos.

    Foi a primeira vez que a competição veio ao Brasil - mas ela existe desde 2005 em outros 32 países. O Famelab é uma das iniciativas para fomentar a aproximação entre a comunidade científica e a sociedade leiga, mas não é a única.

    O espaço entre a ciência e a sociedade é trilhado pela divulgação científica, o conjunto de plataformas e linguagens usadas para fazer com que descobertas e pesquisas cheguem até a população em geral e não fiquem restritas ao meio acadêmico.

    “A ciência se veste com uma roupagem formal - dura, fechada, sóbria. [A função da divulgação científica] é um pouco desconstruir isso, quebrar o gelo da ciência para que as pessoas se sintam acolhidas. Porque toda essa pompa que a ciência tem, como instituição, afasta as pessoas.”

    Germana Barata

    Professora de História da Ciência e Tecnologia no curso de mestrado em Divulgação Científica do Laboratório de Jornalismo da Unicamp

    Mas a divulgação científica não é importante apenas para despertar o interesse na ciência e aproximar as pessoas de informações que podem melhorar suas vidas. Da comunicação científica simples e bem sucedida depende a própria viabilização da ciência - e, por isso, o tema ganha cada vez mais importância no meio acadêmico.

    Principal meta não é comunicar conceitos

    Uma das dificuldades da divulgação científica é conseguir comunicar os conceitos sem simplificá-los demais, ao ponto de divulgar imprecisões, por exemplo. Essa é, aliás, uma das mais recorrentes críticas de cientistas à divulgação científica popular: o uso frequente de metáforas e termos não específicos que banalizam os processos, descartam informações sobre técnicas e resultados e são imprecisos nos jargões.

    Para Germana Barata, professora do curso de mestrado em Divulgação Científica do Laboratório de Jornalismo da Unicamp, a precisão deve ser uma meta, mas não é a principal função da divulgação científica. “A nossa preocupação não deveria ser só ensinar às pessoas um conceito ou descoberta. É preciso se preocupar em falar sobre as questões intrínsecas sociais e políticas daquela descoberta”, disse ela em entrevista ao Nexo.

    O debate sobre transgênicos, diz Germana, é um bom exemplo. Há mais interesse público e valor para a sociedade nas implicações políticas e sociais dos transgênicos do que na explicação específica sobre como funciona a reprodução de plantas com genes transgênicos.

    A responsabilidade pela divulgação científica está sendo cada vez mais cobrada da comunidade científica

    “Faz mais sentido falar de como isso afeta o pequeno agricultor, as escolhas no supermercado e as políticas de rotulagem”, sugere. “O leitor não se atém tanto a conceitos - para ele, não faz diferença se algo é um gene ou uma molécula. Se ele quiser, vai se aprofundar no tema e sanar dúvidas e imprecisões”, diz a professora.

    No Brasil, a distância entre a sociedade e a ciência não existe apenas pelo hermetismo da linguagem científica e os jargões indecifráveis. Tem a ver também com as lacunas da educação básica, diz Germana. Ela acredita que isso torna a divulgação científica ainda mais relevante no país, mas também mais árdua. “Pegamos um público com menos capacidade crítica”, diz.

    As técnicas de divulgação não mudam de acordo com o conteúdo. Geralmente, passam por criar interesse no leitor e no ouvinte, destacar a parte interessante da pesquisa - mesmo que isso signifique mostrar um lado negativo da descoberta - e tentar revelar o fascínio por trás do tema. Outras estratégias tentam aproximar as descobertas e inovações da vida cotidiana do público leigo.

    A linguagem e as técnicas só mudam de acordo com a plataforma. Vídeos ganham uma roupagem; textos outra. Livros, peças de teatro e criações na área de humor também têm, cada um deles, formatos e técnicas diferentes para comunicar descobertas científicas ao mesmo tempo em que mantêm o leitor interessado.

    Divulgação científica se torna também responsabilidade do cientista

    A divulgação científica tem no jornalismo de ciência uma de suas principais bases. Peças de teatro, livros, filmes e até páginas de Facebook também desempenham papeis importantes na transmissão de conhecimento científico para o público leigo. Esses trabalhos, frequentemente, são feitos por profissionais de comunicação ou por um grupo restrito de cientistas com interesse particular em divulgar seus estudos de maneira mais acessível.

    No entanto, a comunidade científica está sendo cada vez mais cobrada para desenvolver habilidades de comunicar com mais clareza os trabalhos que desenvolve. Uma das metas do Horizon 2020, o programa de desenvolvimento científico da União Europeia de 2014 a 2020, é aumentar o acesso a resultados científicos, promover educação científica formal e informal e engajar mais a sociedade em pesquisas e atividades de inovação.

    O Horizon 2020 também determina que, uma vez que uma pesquisa for financiada pelo programa - são mais de 80 bilhões de euros para financiamento científico em sete anos - é obrigatório para o cientista demonstrar qual o impacto social de sua proposta de estudos e como vai divulgar seus resultados para a sociedade.

    “Se a sociedade não entende o que um cientista faz e sobre o que é o trabalho dele, ele corre mais riscos na hora de conseguir financiamento [para as pesquisas].”

    Malcolm Love

    Coach e especialista em técnicas de comunicação científica

    De certa forma, essas diretrizes transferem parte da responsabilidade de traduzir sua pesquisa para a sociedade para os próprios cientistas, diz Germana Barata.

    Para ela, a ciência está caminhando para um momento em que se reconhece cada vez mais como responsável não só pela inovação, mas pela comunicação adequada dessa inovação à sociedade. Barata acredita que esse debate é fundamental para delimitar até mesmo as motivações de um cientista.

    “Por que fazemos ciência? Para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Falar só entre pares faz com que os resultados demorem para chegar à sociedade. A divulgação tem uma missão importante: encurtar o percurso”, diz ela.

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