Agressividade e insegurança: os efeitos das palmadas sobre os filhos

Encarada por muitos como uma punição leve, 'bater na criança no bumbum ou extremidades com a mão aberta' traz consequências negativas, diz estudo

     

    Palmadas servem como método para educar crianças? Um argumento frequente dos defensores da prática é “meus pais apanharam, eu apanhei e nos tornamos bons adultos". Mas um estudo recém-publicado que levou em conta 75 trabalhos científicos a respeito do tema concluiu que, se você apanhou dos seus pais e se tornou um adulto saudável, isso ocorreu apesar das palmadas, e não por causa delas.

    Ao invés de educar, mesmo palmadas leves que não causam lesões físicas tendem a causar comportamento antissocial, baixa autoestima, aumento da agressividade e relações piores com os pais, conclui o artigo acadêmico “Palmadas e o Resultado Sobre Crianças: Velhas Controvérsias e Meta Análises”, publicado no Journal of Family Psychology.

    Também há evidências de que adultos que apanharam quando criança tendem a apoiar a prática, criando um ciclo vicioso.

    "Quando eu era criança não havia cintos de segurança nos carros. Será que eu cresci sem problemas porque meus pais não colocaram cinto de segurança em mim? Não. Eu cresci sem problemas porque nós não nos envolvemos em um acidente"

    Elizabeth T. Geshoff

    Autora do estudo ‘Palmadas e o Resultado Sobre Crianças: Velhas Controvérsias e Meta Análises'

    “Pais que dão palmadas, profissionais que as recomendam e formuladores de políticas públicas que as permitem podem reconsiderar fazê-lo, dado que não há nenhuma evidência de que dar palmadas em crianças traga qualquer benefício e toda a evidência aponta para o risco de que traga danos”

    Do trabalho ‘Palmadas e o Resultado Sobre Crianças: Velhas Controvérsias e Meta Análises’

    Estudo isola palmadas de agressões mais intensas

    O estudo não realizou diretamente pesquisas com crianças, mas organizou as conclusões de outras 75 análises. Foram consideradas apenas pesquisas sobre os efeitos das palmadas de pais sobre seus próprios filhos.

    Os pesquisadores apontam que uma das dificuldades da comunidade científica para chegar a uma conclusão clara sobre o efeito das agressões físicas sobre as crianças vinha do fato de que tentativas anteriores de organizar o que já havia sido estudado misturavam casos graves de agressões - como puxar o cabelo ou agredir com objetos - com a prática das palmadas.

    A conclusão era a de que agressões têm efeitos negativos, mas sempre era possível argumentar que isso ocorre principalmente nos casos extremos, e não necessariamente nos mais leves, que não causam lesões. Para esclarecer essa dúvida definitivamente, o trabalho se baseou apenas em estudos que se encaixavam na seguinte definição de palmadas:

    “Bater na criança nas nádegas ou extremidades com a mão aberta”

    Mesmo essa, encarada como uma forma leve de punição, causa efeitos negativos associados à violência. “Palmadas e abuso físico têm efeitos que são similares tanto em magnitude quanto em direção.”

    Efeitos negativos

    Palmadas têm o efeito oposto àquilo que os pais querem: não tornam as crianças mais comportadas e não ensinam a diferença entre certo e errado. Não estão relacionadas à obediência no momento em que as crianças apanham, e não fazem com que se comportem melhor

    Entre as crianças, palmadas estão associadas a:

    • Abuso físico. “Quanto mais as crianças recebem palmadas, maior o risco de que sejam fisicamente abusadas por seus pais.”
    • Relações piores com os pais
    • Aumento da agressividade
    • Comportamento antissocial
    • Autoestima baixa
    • Dificuldade de externalizar problemas e maior internalização de problemas
    • Mais problemas de saúde mental
    • Assimilação menor de princípios e regras sociais
    • Menos habilidades cognitivas

    Efeito das Palmadas sobre adultos

    “Adultos com comportamento antissocial ou problemas de saúde mental podem focar em memórias ruins da sua infância e reportar ter levado mais palmadas do que efetivamente receberam”, diz o artigo científico. Como os relatos de entrevistados que apresentam problemas podem ser enviesados, as conclusões obtidas sobre os efeitos das palmadas a longo prazo são “apenas sugestivas”. De qualquer forma, possíveis associações entre palmadas na infância e problemas na vida adulta são listadas. Elas são:

    • Comportamento antissocial
    • Problemas de saúde mental
    • Tendência a apoiar a prática de agredir crianças

    Palmadas são prática recorrente no mundo

    Um levantamento do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) aponta que 6 de cada 10 crianças com idades entre 2 e 14 anos são punidas com palmadas por seus responsáveis, se considerados  como referência os países com dados disponíveis - o Brasil fica de fora dessa lista. A entidade tem uma leitura parecida com aquela do estudo de Elizabeth Gershoff e Andrew Taylor:

    “Com frequência, crianças são educadas usando métodos baseados na força física ou intimidação verbal para punir comportamentos indesejados e chegar a comportamentos desejados. Em muitos casos, ao invés de ser uma escolha disciplinar deliberada, esses métodos violentos são usados como resultado da frustração e da raiva dos pais e da falta de conhecimento sobre respostas não violentas (...). As consequências da disciplina violenta vão de efeitos imediatos a danos de longo prazo que as crianças carregam até a vida adulta”

    O que diz a legislação brasileira sobre o tema

    No Brasil, desde 2014,  é proibido bater nos filhos como forma de educá-los. Sancionada pela presidente Dilma Rousseff, a “Lei da Palmada”, ou “Lei Menino Bernardo” determina que:

    “A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los”

    Os casos de suspeita ou confirmação de castigo físico contra criança ou adolescente devem ser comunicados ao conselho tutelar local, prevê a lei. 

    Agressores podem ser advertidos, encaminhados a programas de proteção à família, a tratamento psicológico ou psiquiátrico e a cursos ou programas de orientação. Também podem ser obrigados a obter tratamento especializado à criança - a lei não especifica qual seria esse tratamento. Pais que infringem a lei também podem perder a guarda da criança com a aplicação do artigo 129 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

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