Ir direto ao conteúdo

Como estudantes universitários passaram a expor o preconceito de seus professores

Campanhas de alunos de arquitetura e medicina divulgam falas consideradas sexistas e atitudes abusivas

     

    “Seu trabalho está ruim, você poderia ter vindo com uma saia mais curta”. Essa e outras frases sexistas atribuídas a professores do curso de arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie foram usadas por alunas do coletivo feminista Zaha, que atua na instituição, para denunciar o machismo entre educadores do curso.

    Na terça-feira (26), o coletivo pendurou cartazes com outras 14 frases como essa nas paredes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. A ação, batizada de #EsseÉMeuProfessor, reuniu em pôsteres frases reais ditas por professores e que tenham sido confirmadas por pelo menos duas testemunhas.

    “O objetivo dos cartazes sempre foi chamar a atenção para situações que somos obrigadas a passar como mulheres dentro da faculdade, abrir espaço para essa discussão entre alunos, professores e funcionários e criar uma liberdade maior para que meninas possam conversar sobre situações que viveram.”

    Coletivo Zaha

    No Facebook

    A estudante Gabriela Estefan, do coletivo Zaha, contou ao Nexo que as reações dentro da faculdade foram majoritariamente positivas. “Muitas alunas e muitos colegas e professores homens nos procuraram para discutir e conversar sobre a campanha. Muitos não sabiam que esse tipo de abuso verbal acontecia. E até hoje as conversas continuam nos corredores, os professores comentam a ação nas aulas. Queríamos de fato suscitar um debate e acho que nós conseguimos”, disse.

    “São relatos de meninas que se sentiram impotentes e não souberam reagir a agressões verbais por estarem sozinhas”, diz o comunicado oficial da campanha.

    Ação começou após piada de professor

    A ação #EsseÉMeuProfessor foi inspirada por um episódio no início de abril de 2016. Na ocasião, o professor Paulo Giaquinto, do curso de arquitetura do Mackenzie, foi criticado pelos alunos em virtude de um comentário que debochava das vítimas do médico Roger Abdelmassih. Abdelmassih foi condenado, em 2010, a 278 anos  de prisão por estupro e atentado violento ao pudor contra 56 de suas pacientes.

    Giaquinto disse que o crime do médico não poderia ser classificado como estupro, “pois o contrato dizia ‘reprodução assistida’”. Confrontado por alunas no fim da aula, ele disse que o comentário não passava de uma piada e que “muitas mulheres [pacientes de Abdelmassih] se aproveitaram da situação com denúncias falsas”.

    Na ocasião, a direção do curso de arquitetura divulgou uma nota dizendo que repudiava qualquer manifestação de cunho racista, sexista ou preconceituoso. Giaquinto também publicou uma nota de desculpas e disse que as afirmações aconteceram “em um período de descontração em que estavam sendo feitas algumas ironias”, mas que foram “um grave erro”.

    Estudantes de medicina fazem denúncias via hashtags

    Uma semana antes, a Denem (Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina) havia lançado uma campanha parecida. #MeuProfDr é uma hashtag lançada para incentivar a denúncia de casos de violência, abuso de poder e autoritarismo de professores de medicina.

     

    A campanha teve milhares de participações, com adesões até mesmo de alunos de outros cursos, e gerou também reação negativa entre a classe médica. Uma página chamada ‘Valorização Médica’ publicou uma crítica ao Denem dizendo que a iniciativa “é um desserviço à comunidade médica, piorando ainda mais nossa imagem”.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!