Como o fenômeno Trump põe à prova os limites da democracia americana

Provável vitória do astro bilionário nas primárias republicanas faz caciques cogitarem virada de mesa antes do fim do jogo. Especialista fala do elemento anti-democrático envolvido no modelo de primárias

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O principal nome do Partido Republicano na disputa pela Casa Branca é hoje um pré-candidato que avança não com o apoio do próprio partido, mas apesar da resistência do próprio partido. A ascensão meteórica do bilionário Donald Trump é acompanhada, ao mesmo tempo, pela ovação das bases e pela apreensão da cúpula.

A situação é inusitada a tal ponto de os caciques do partido se referirem à possibilidade de vitória de Trump não como uma “chance”, mas como um “risco”. Seu avanço ameaça implodir parte dos valores que o sistema americano tenta preservar.

Excessos premiados com votos

 

Sexista, xenófobo e agressivo, Trump fez da própria fortuna o motor de sua campanha, assumiu a liderança isolada a despeito da reprovação de seus correligionários mais influentes e passou por cima de qualquer consideração a respeito da etiqueta da disputa leal. Ele não hesita em se referir a seus adversários com apelidos pejorativos (como Ted Trapaceiro, referindo-se a Ted Cruz, seu correligionário, e Hillary Mentirosa, para Hillary Clinton, que disputam as prévias pelo partido Democrata) ou em fazer piadas de mau gosto sobre jornalistas ou sobre cidadãos de todo um país, como quando chamou os mexicanos de estupradores e traficantes.

A lista de disparates é longa e fez o candidato, ao longo da campanha, passar de um fenômeno curioso, inusitado e até divertido ao grotesco, agressivo e até perigoso.

No limite da normas

 

Normalmente, a convenção republicana é a ocasião na qual o candidato é finalmente nomeado pelo partido ao final de todo o processo das primárias. Na prática, esse evento, realizado em julho, não passa da formalização de um resultado que se fez conhecido ao longo de toda a prévia na qual os delegados de cada um dos 50 Estados americanos foram às urnas apontar seu pré-candidato favorito.

Nessa convenção, é ungido, então, o pré-candidato que, ao longo do processo, tenha obtido pelo menos 1.237 votos.

Para tentar evitar que Trump chegue ao que os americanos chamam de “número mágico”, seus dois concorrentes diretos no partido, Ted Cruz e John Kasich, chegaram a fazer um acordo. A ideia era que Cruz recomendasse votos em Kasich nos Estados onde tem menor chance de vitória. Kasich, por sua vez, faria o mesmo onde Cruz se sai melhor. Assim, em vez de dividir votos em cada um desses Estados, eles potencializariam a chance de vitória de um candidato que não fosse Trump, evitando que o bilionário somasse os 1.237 votos necessários.

Essa estratégia tem sentido porque há Estados nos quais o candidato que obtém o maior número de votos dos delegados leva não apenas os votos recebidos em seu próprio nome, mas todos os votos do colégio eleitoral daquele Estado, incluindo os votos da minoria derrotada.

Fazer com que Trump não alcance o “número mágico” de 1.237 votos levaria o partido a uma convenção aberta. Esse nome é usado porque os delegados não iriam à convenção de julho apenas para confirmar o resultados das prévias e coroar o escolhido. Eles, ao contrário, ficariam liberados para mudar de voto em cima da hora, o que tornaria o resultado do processo incerto.

Trump já reagiu a essas manobras dizendo que o sistema é “viciado” e direcionado para impedir que ele vença. A última vez que os republicanos tiveram uma primária aberta foi há 40 anos.

Só depois desse processo de primárias internas é que o candidato republicano enfrenta o candidato democrata numa eleição aberta nacional, programada para ocorrer no dia 8 de novembro. A posse do vencedor é em janeiro.

Imperfeições do sistema

Mesmo que o improvável aconteça e que Trump não vença as primárias, o sistema americano já terá sido testado em seu limite. O Partido Republicano terá demonstrado até que ponto esteve disposto a chegar para conseguir um resultado mais sintonizado com o desejo de sua cúpula.

Para entender melhor o estresse que a candidatura Trump provoca no sistema eleitoral americano, o Nexo propôs três perguntas ao professor de Ciência Política da Universidade de Boston, nos EUA, Thomas Whalen.

Em que medida a possibilidade real de que Trump vença as primárias republicanas expõe problemas estruturais do sistema eleitoral dos EUA?

Thomas Whalen  A provável ascensão de Trump como o candidato à Casa Branca mostra que o sistema usado pelo Partido Republicano para escolher seu candidato à Presidência está morto. Trump é um candidato sem laços partidários formais, amparado por sua riqueza individual e por sua fama como estrela de reality show. Ele tem passado completamente por cima do “establishment” do Partido Republicano, sem sofrer consequência alguma. Os partidos estão começando a parecer dinossauros.

A democracia preconiza o respeito às decisões da maioria, mas como o sistema deve proceder se o escolhido pela maioria é alguém tão anti-sistêmico como Donald Trump?

Thomas Whalen Os partidos políticos nos EUA não têm tradicionalmente nada a ver com a democracia. No passado, a maioria dos candidatos de ambos os partidos eram escolhidos nos fundos das saletas esfumaçadas das convenções. Desde os tempos da fundação dos EUA, sempre houve uma profunda desconfiança das pessoas sobre esse sistema. ‘Melhor deixar os políticos profissionais decidirem como o país será governado do que as massas comuns’. Essa atitude condescendente pode ser vista na forma como os presidentes não são eleitos por maiorias populares, mas por um colégio eleitoral antidemocrático. Se os EUA fossem uma verdadeira democracia, [o candidato democrata] Al Gore teria sido presidente [na eleição de 2000], não [o candidato republicano] George W. Bush. [Na época, Al Gore teve 50,3% dos votos individuais. Bush teve 49,7%. Apesar disso, o candidato republicano ganhou a disputa no colégio eleitoral. O caso foi explicado em detalhe pelo Nexo numa matéria de janeiro chamada precisamente “O que é preciso saber para não boiar nas eleições americanas”]. A candidatura de Trump está servindo para derrotar os figurões do partido em seu próprio jogo. Sua marca perturbadora, entretanto, pode ser resumida como a de um político autoritário e reacionário.

Como continuar defendendo o valor absoluto da democracia quando a maioria é capaz de apoiar políticas xenófobas e sexistas como as defendidas abertamente por Trump?

Thomas Whalen Eu acho que é preciso ser cuidadoso aqui. O que pode ser dito é que a base política do Partido Republicano é essencialmente sexista e racista, não a maioria do país. As pesquisas de opinião pública confirmam isso. Trump tem um núcleo de apoiadores verdadeiros, homens brancos da classe trabalhadora, em sua maioria, descontentes. Mas eles não representam o eleitorado como um todo. É por isso que estou confiante de que ele será esmagado na eleição geral pela vencedora mais provável nas prévias democratas, Hillary Clinton. Ela é a anti-Trump nessa campanha.

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