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A cara de ‘culpa’ dos cachorros não é exatamente o que parece

Cães, como seres sociáveis, aprendem a reagir para conviver em grupo. Isso não significa que ele se arrependeu

     

    Qualquer pessoa que convive com um cachorro já se deparou, em algum momento, com a expressão de cão culpado. Ela aparece, geralmente, depois que o cachorro faz algo errado - destrói objetos, faz bagunça ou algo proibido - e é pego em flagrante pelo dono. Na hora da bronca, vem a expressão de culpa:

     

    Ela é inconfundível. A expressão corporal encolhida, o focinho para baixo, os olhos que evitam contato visual. Há incontáveis vídeos no YouTube mostrando cães arrependidos. O mais famoso, conhecido como Denver Guilty Dog, acumula mais de 46 milhões de visualizações. Esse tipo de expressão canina se tornou uma categoria específica de vídeos de animais, um sucesso na internet.

    Cães arrependidos não têm consciência sobre o mau comportamento

    Quando um dono chega em casa, vê um cenário de destruição e um cão arrependido, ele pode achar que a expressão do animal é uma consequência do mau comportamento e uma maneira de pedir desculpas.

    Mas essa é uma visão humana sobre esse tipo de comportamento - na verdade, as pesquisas sugerem que os cães não agem assim porque sabem que agiram da forma errada. Mas, sim, porque desta forma terão reações mais positivas do círculo social em que estão.

    A expressão de culpa, tão conhecida, é uma forma de submissão e está relacionada ao círculo social do animal. Em macacos, cães ou até mesmo em lobos, a expressão de arrependimento serve para diminuir os efeitos de uma transgressão e fortalecer os laços sociais.

    “Como espécies sociais que buscam manter um relacionamento, os cães podem mostrar expressões submissas antes da bronca do dono, sem que o comportamento indique um pedido de desculpas ou admissão de culpa, como acontece com seres humanos”, escreveu Julie Hecht, pesquisadora comportamental de cães e doutoranda na City University of New York, nos EUA, na Scientific American.

    E a estratégia funciona: em um questionário aplicado por ela, 60% dos donos afirmaram que dão broncas mais leves depois de olharem a cara de arrependidos de seus cães.

    Cães reagem ao ambiente, e não aos próprios atos

    Em um estudo publicado em 2015, pesquisadores britânicos e croatas perceberam que a expressão de culpa dos cães não vem necessariamente acompanhada da consciência do animal sobre o ato.

    Para chegar a essa conclusão, eles mostraram comida e deram uma ordem expressa para o cão não comê-la. Mesmo os cães que não desobedeceram a ordem mostraram sinais de culpa - a manifestação dependia da reação do humano.

    Assim, os cientistas perceberam que a expressão não estava relacionada ao ato de comer ou não - ou seja, de se comportar de forma errada ou certa.

    Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que os cães têm tendência a fazerem a expressão de culpa depois de levarem a bronca - mostrando que aquela cara, na verdade, estava mais ligada à reação do dono do que ao mau comportamento em si.

    Em 2012, outro experimento resolveu investigar o tema. Pesquisadores da Eotvos Lorand University, na Hungria, fizeram um teste para verificar se os cães estavam cientes da violação que fizeram. O objetivo era ver se eles sabiam que haviam cometido um ato proibido, que desagradaria ao dono, ou apenas faziam a expressão de culpa por associação depois de determinado ato - fazer suas necessidades no lugar errado, por exemplo.

    Para o experimento, os pesquisadores determinaram o padrão de cumprimento de 64 cães e seus donos. Depois, em um espaço, colocaram um alimento sobre uma mesa e deixaram claro que aquilo era para consumo humano e não dos animais. E deixaram os cães sozinhos com a comida.

     

    O resultado mostrou que a reação de arrependimento não está ligada diretamente ao mau comportamento. Cães podem agir como culpados em situações diferentes, reagindo ao ambiente e ao próprio dono. O seu próprio comportamento - o ato de ter cometido uma infração - não é determinante para que ele faça aquela cara de culpado.

    Para os pesquisadores, o experimento pode ser comprometido pelo fato de que, em um novo ambiente, os cães demorem mais para entender determinada proibição. Mas eles confirmam que agir como um cão arrependido é uma resposta comportamental ao ambiente - e não à consciência sobre um mau comportamento.

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