Ultranacionalista vence 1º turno na Áustria e fala em dissolver o Parlamento

Com discurso nacionalista e anti-imigrantes, Hofer triunfa no 1º turno com mais de 14 pontos de vantagem sobre o segundo colocado e promete convocar novas eleições parlamentares em caso de vitória final

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O ultranacionalista de direita Norbert Hofer venceu no domingo (24) o primeiro turno das eleições presidenciais austríacas, com 36% dos votos, e caminha para uma vitória definitiva no segundo turno, no dia 22 de maio, de acordo com pesquisas de opinião e análises de cientistas políticos locais.

Essa é a primeira vez desde o fim da Segunda Guerra, em 1945, que a decisão não se dá entre representantes dos dois partidos majoritários - o Social-Democrata, de centro-esquerda, e o Partido do Povo, de centro-direita, que vinham governando o país por mais de 70 anos, com base numa coalizão que sempre respondeu por aproximadamente 80% dos votos.

O adversário de Hofer no segundo turno será o candidato do Partido Verde, Van der Bellen, de 72 anos, que terminou o primeiro turno 14 pontos atrás do candidato ultranacionalista.

Primeiro turno

 

A vitória de Hofer chamou a atenção por dois fatores principais.

Impacto da vitória de Hofer

  • Ele pode, se vencer também no segundo turno, dissolver o Parlamento e antecipar as eleições legislativas que estavam programadas para de 2018. Essa promessa foi antecipada por Hofer num dos debates de campanha: “vocês se surpreenderiam pelo que pode ser feito [por um presidente]”, anunciou.
  • Além de liderar a disputa pela Presidência, o partido de Hofer já aparece com 30% das intenções de voto para as eleições parlamentares de 2018. No regime parlamentarista, a coalizão que obtiver a maioria no Parlamento, indica o primeiro-ministro

Quem é Hofer

A crise dos refugiados embalou o discurso de Hofer. O candidato, classificado como “populista de direita” pelo cientista político polonês Johannes Pollak, no jornal britânico “The Guardian”, chegou a dizer que anda armado com uma pistola automática, para se proteger “dos tempos incertos” provocados pelo afluxo de refugiados na Europa.

A Áustria foi o segundo país europeu que mais recebeu solicitações de refúgio, per capita, em 2015, atrás apenas da Alemanha.

90 mil

É o número de pedidos de refúgio recebidos pela Áustria em 2015

O engenheiro de 45 anos caminha com ajuda de uma muleta, pois foi vítima de um acidente com parapente. Ao mesmo tempo, pratica um tipo de luta esportiva e clandestina de espada, na qual os participantes não usam proteção no rosto. Essa combinação entre arrojo e fragilidade é vista como um elemento novo num cenário ocupado por políticos tradicionais e desgastados.

“Posso dizer a todos os políticos na Europa que ninguém deve ter medo de mim. Eu sou um muito amável, construtivo, e expresso claramente meu ponto de vista. Eu cuido dos interesses da Áustria, e isso é bom também para a Europa”

Norbert Hofer

Candidato de direita, vencedor do primeiro turno das eleições presidenciais na Áustria, em entrevista ao jornal italiano "La Stampa"

Ao contrário da maioria de seus correligionários, Hofer se expressa com suavidade e foge de posturas caricatas como as que caracterizam muitos dos políticos de extrema-direita na Europa. Esse cuidado com a forma, entretanto, não faz com que grupos de direitos humanos e líderes religiosos baixem a guarda para propostas que são vistas como retrocessos.

“Que um país no coração da Europa mostre esse nível de apoio a alguém de extrema direita 70 anos depois do Holocausto, mostra que nossa memória coletiva está falhando”

Moshe Kantor

Presidente do Congresso Judeu Europeu, ONG judaica responsável por congregar organizações locais semelhantes na Europa

Hofer, entre o simbólico e o prático

Por que o cargo não é importante

Quem governa a Áustria é o primeiro-ministro. Caberá a Hofer, se eleito presidente, o papel protocolar, mais ligado à indicação de cargos no exterior.

Por que o cargo é importante

O presidente tem, entretanto, poder para dissolver o Parlamento e convocar novas eleições. Hofer deu sinais de que pretende exercer esse direito caso vença.

A vitória parcial de Hofer foi saudada especialmente pelos setores nacionalistas de direita na França e na Itália. Alguns jornais europeus classificaram a vitória do candidato austríaco como “tsunami político”.

Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional francesa, qualificou o resultado de “magnífico” e saudou o povo austríaco pela decisão de domingo (24).

 

O partido direitista italiano Lega Nord destacou fala de Hofer ao jornal italiano “La Stampa” na qual o político austríaco rechaça as políticas de assistência social da Europa.

 

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