Em oito pontos, o perfil dos moradores de rua de São Paulo

Pesquisa mais recente da prefeitura revela aumento menor no número dos que ‘não vivem em moradias convencionais’ e mostra quem são essas pessoas pelas quais passamos todos os dias

     

    A cada três anos a prefeitura de São Paulo faz o Censo da População em Situação de Rua. Em 20 de abril de 2016, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social divulgou os dados finais da pesquisa realizada em 2015.

    O censo foi realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) entre os dias 23 de fevereiro e 26 de março de 2015. Uma prévia havia sido antecipada em maio de 2015, mas detalhes como origem, escolaridade e acesso a serviços de saúde só foram apresentados agora.

    A secretaria afirma que esses dados vão orientar melhor as políticas públicas para essa população, que, apesar de invisível para muita gente, cresce até três vezes mais que a taxa de crescimento da população de São Paulo.

    “A definição da população em situação de rua  (...) refere-se às pessoas que utilizam alternativas de pernoite diferentes da moradia convencional como parques, centros de acolhida, praças e demais espaços públicos”

    Pesquisa Censitária da População de Rua de SP

    Relatório divulgado em 20 de abril de 2016

    Crescimento preocupante

     

    A capital paulista tem 15.905 pessoas vivendo em situação de rua. Esse universo representa 0,1% do total da população da capital paulista, atualmente de 11.581.798 pessoas, segundo a Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados).

    Nos últimos 15 anos, o número de moradores em situação de rua aumentou 82,6%. Entre 2011 e 2015, o aumento foi de 16,3%. No mesmo período, a população total cresceu 4,9%. A prefeitura, porém, pondera que a taxa de crescimento anual do total da população de rua caiu de 5,14% (no acompanhamento ano a ano de 2000 a 2009) para 2,56% (no ano a ano de 2009 a 2015).

    Maioria homens e adultos

     

    O perfil mudou pouco se comparado à pesquisa de 2000, usada como referência inicial pela secretaria. Entre as 15 mil pessoas que vivem nas ruas ou buscam abrigo, a maioria é homem e tem entre 31 e 49 anos. Há 505 crianças e adolescentes, 72 a mais do que em 2011.

    O relatório mostra que houve aumento entre os que se declaram não brancos (pretos, pardos, amarelos e indígenas) na região central da capital. Esse grupo passou de 64% em 2010 para 71,5% em 2015.

    Alfabetizados e escolarizados

     

    A maioria declara saber ler e escrever. A taxa de analfabetismo verificada em 2015 (10%) é inferior ao registro do Censo de 2010 (16%). Mas entre os idosos, 20% afirmam não saber ler ou escrever. Em 2015, foi maior também o percentual de quem declarou ter concluído o ensino médio, 15% contra 9% em 2010.

    Região central concentra moradores

     

    A região da Subprefeitura Sé é onde vive a maior parte da população de rua, realidade que se mantém nos últimos cinco anos. Nesta área estão os distritos de Bela Vista, Bom Retiro, Cambuci, Consolação, Liberdade, República, Santa Cecília e Sé. A preferência, segundo a prefeitura, se explica porque esses são considerados locais mais seguros pelos moradores.

    Calçadas, viadutos e albergues

     

    Desde 2009, o número de moradores que vivem exclusivamente nas ruas é inferior àqueles que procuram abrigos regularmente para passar a noite ou parte do dia. Estão em funcionamento na cidade 79 centros de acolhida. Muitos dos que não procuram esses lugares dizem preferir as ruas pela liberdade de horário e ausência de regras, além de registros de queixas de tratamento ruim e dificuldades de relacionamento com os demais frequentadores ou usuários.

    Maioria migrantes

    Em média 70% dos albergados e das pessoas que moram nas ruas são de outras cidades. A maior parte vem principalmente das regiões Sudeste e Nordeste.

    27%

    da população em situação de rua é paulistana

    Já os imigrantes são minoria: 1% entre os que vivem nas ruas e 7% entre os que procuram os centros de acolhimento. O relatório, no entanto, verifica uma tendência de crescimento desse grupo. Em 2015, aumentou o número de refugiados na capital paulista, que se explica também em razão de conflitos em países da África e na Síria.

    Atividades

     

    A maioria dos entrevistados que mora nas ruas (73,8%) declarou fazer "bicos" para conseguir a própria renda. Apenas 4,8% disseram estar empregados. Entre os 20,7% que não trabalham, a maioria contou que pede dinheiro para sobreviver.

    Já entre os que vivem em centros de acolhimento, é maior o grupo que declara ter emprego fixo, com ou sem registro formal (17,9%). "Esse conjunto de trabalhadores constitui um subgrupo da população de acolhidos, para os quais é possível pensar programas diferenciados, particularmente de provisão de serviços de habitação", diz o relatório.

    Problemas de saúde e uso de drogas

     

     

    O censo verificou que quase 80% dos moradores de rua ou daqueles acolhidos em albergue sofrem de uma ou mais doenças. As mais mencionadas foram depressão, ou "doenças dos nervos", como declarado. "Apesar da imprecisão da categoria depressão/’doença dos nervos’, esta pode ser uma indicação da necessidade de se conhecer melhor o quadro de saúde mental da população de rua", sugere o relatório elaborado pela Fipe.

    Segundo o relatório, o uso de drogas ilícitas e álcool é maior entre os que vivem exclusivamente nas ruas (84%) na comparação com os que recorrem a centros de acolhida (54%). O documento também destaca que cerca de 90% da população de rua procurou os serviços públicos de saúde, no último ano.

    Realidade no Brasil é pouco conhecida

    Não há dados ou estimativas oficiais recentes sobre a população de rua no Brasil. A última pesquisa é de 2008. O estudo foi feito pelo Ministério do Desenvolvimento Social, em 71 cidades do país com mais de 300 mil habitantes e todas as capitais, com exceção de Belo Horizonte, São Paulo, Recife e Porto Alegre, que já tinham levantamentos semelhantes.

    50 mil

    Era o número de adultos em situação de rua em todo o país, em 2008, segundo estimativas do governo federal

    Alguns dados se assemelham aos obtidos nas pesquisas feitas na capital paulista, como a maioria ser do gênero masculino (82%), ter entre 25 e 44 anos (43%) e se declarar pretos ou pardos (67%). Coincide também a escolaridade: a maioria diz ter o ensino fundamental incompleto (48,4%) e 15,1% nunca estudaram. Mas 74% disseram saber ler e escrever.

    Em 2010, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República fez um levantamento sobre crianças e adolescentes em 75 cidades (capitais e cidades com mais de 300 mil habitantes). Foram identificadas 23.973 crianças e adolescentes em situação de rua, 72% eram meninos.

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