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Como o garimpo está intoxicando índios na Amazônia

Relatório mostra que contaminação por mercúrio está presente em aldeias Yanomami em grande escala

     

    Um relatório da Fundação Oswaldo Cruz feito em parceria com o Instituto Socioambiental identificou a presença de contaminação por mercúrio em altos níveis nos índios Yanomami, que vivem no norte da Amazônia em territórios do Brasil e da Venezuela.

    Algumas aldeias chegam a apresentar índices de 92% de intoxicação entre os indígenas que foram examinados. A intoxicação tem origem no garimpo ilegal nas terras Yanomami, cuja população no Brasil é de cerca de 22 mil pessoas. As comunidades que vivem mais próximas ao garimpo têm os níveis mais altos de contaminação.

    O mercúrio é usado no garimpo para ajudar a identificar o ouro entre o material peneirado nos leitos dos rios. Em contato com o ouro, o mercúrio forma uma amálgama. Depois, é só aquecer a mistura: o mercúrio evapora e o ouro fica.

    O problema é que o mercúrio acaba na natureza. Se acumula no leito dos rios, intoxica os peixes e os animais que os comem - assim, acaba no organismo dos indígenas, que têm no peixe uma de suas principais fontes de alimento.

    Em 1993, 16 índios Yanomami foram brutalmente assassinados por garimpeiros.

    Os sintomas de intoxicação por mercúrio são graves: incluem bronquite, edema pulmonar, perda de memória, lesões no sistema nervoso, convulsões e até morte. O mercúrio também é perigoso para gestantes, já que pode atravessar a placenta e deformar o feto.

    E estes não são os únicos problemas causados pelo garimpo ilegal em terras indígenas.

    A atividade garimpeira tem por características as estruturas completamente insalubres de trabalho e as condições precárias das instalações, que também acabam se tornando um problema de saúde para os próprios trabalhadores.

    Os bancos de areia e poços de água parada que são resultado da extração do ouro podem servir de criadouro de mosquitos de malária e outras doenças. Os próprios garimpeiros podem ser vetores de doenças para os Yanomami, já que os povos indígenas não têm a imunidade completamente adaptada para lidar com doenças consideradas simples para o homem branco.

    O garimpo também gera atividade econômica improvisada na região, o que traz mercearias, bares e prostíbulos para a região onde ele acontece. Isso pode gerar um desequilíbrio social na comunidade indígena. As consequências entre os nativos e os garimpeiros são problemas como prostituição, alcoolismo, vício em jogos de azar e doenças sexualmente transmissíveis.

    Garimpos são um problema histórico para os índios da região

    O garimpo é um problema nas terras Yanomami há 40 anos, mas é a primeira vez que um estudo do tipo é feito com este povo. O auge do número de garimpeiros na região aconteceu nos fim dos anos 1980, quando cerca de 20% da população Yanomami morreu em decorrência de doenças e violências causadas pela chegada de 45 mil garimpeiros em suas terras.

    Em 1993, a tensão entre os garimpeiros e os Yanomami culminou em um dos maiores genocídios indígenas da história contemporânea brasileira. No episódio, que ficou conhecido como Massacre de Haximu, garimpeiros invadiram uma aldeia e mataram a tiros e golpes de facão 16 índios Yanomami, incluindo mulheres, crianças e idosos. Os réus foram condenados por genocídio pela Justiça Brasileira.

    Assista ao Yanomami Davi Kopenawa falando sobre o episódio:

     

    Depois do Massacre da Haximu, a pressão internacional fez com que o governo brasileiro expulsasse grande parte dos garimpeiros da região. No entanto, grupos pontuais continuam exercendo a atividade nos rios do norte da Amazônia em territórios indígenas, uma prática que é considerada criminosa.

    Na última terça (19), uma operação do Ibama e da Funai em conjunto com a Polícia Federal destruiu mais de 20 balsas de garimpo ilegal na terra Yanomami em Roraima. Foram eliminados também acampamentos de garimpeiros, barcos e motores de geração de energia.

    Para Marcos Wesley, coordenador adjunto do Instituto Socioambiental, mais fiscalização e repressão ao garimpo na área são desejáveis, mas não resolvem o problema. “Temos insistido em um combate mais eficiente e duradouro, e para isso é preciso descobrir e punir quem compra este ouro”, disse ele ao Nexo.

    Duas operações da Polícia Federal, em 2012 e 2015, investigaram a cadeia econômica por trás da exploração ilegal de ouro na Amazônia. Em 2015, a operação Warari Koxi descobriu que uma Distribuidora de Títulos e Valores Imobiliários na avenida Paulista, em São Paulo, é responsável pela compra de parte do ouro explorado na região.

    Segundo a Polícia Federal, o esquema envolvia 600 garimpeiros, 30 empresas de outros estados que fraudavam permissão de garimpo em outras regiões e ‘esquentavam’ o ouro extraído ilegalmente, além de cinco servidores públicos da Funai e possivelmente indígenas. De 2014 a 2015, a atividade movimentou um bilhão de reais para a  organização criminosa.

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