Estresse, tabu e hierarquia: por que os policiais se matam

Pesquisadores analisam os motivos que fazem a Polícia Militar do Rio de Janeiro ter um índice de suicídios maior do que a população do Estado

     

    Além do risco de morrer em combate, policiais também têm uma chance maior de se suicidar. Longas jornadas de trabalho, afastamento da família, desvalorização profissional e falta de acompanhamento psicológico contribuem para que isso ocorra.

    Lançado no final de março, o livro “Por que Policiais se Matam?”, do Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (Gepesp) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro em parceria com a PM fluminense, aponta que policiais militares do Rio de Janeiro tiveram em 2009 uma chance 6,6 vezes maior de cometer suicídio do que a média da população do Estado. O problema se repete em outras polícias do país, mas é um tabu. E a falta de notificação dos casos sugere que é ainda mais grave, aponta o trabalho.

    “Viver sob o signo da violência, acreditar nela como modo de resolver conflitos, altera nossa relação com a morte e por via de consequência subtrai densidade de sentido à vida.”

    Ibis Silva Pereira

    Coronel reservista da Polícia Militar, ex-chefe de gabinete do Comando Geral da PM fluminense e mestre em filosofia

    Realizado a partir de parceria entre cinco psicólogas da Polícia Militar e pesquisadores da Uerj de diferentes áreas, o trabalho afirma que 10% dos 224 policiais militares entrevistados pelo estudo tentaram suicídio, e 22% pensaram em fazê-lo. “Apesar da gravidade do problema, o suicídio entre policiais não tem recebido a devida atenção do poder público nem das organizações policiais internacionais e nacionais”, diz o livro.

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    Policiais militares se suicidaram no Estado do Rio de Janeiro entre 1995 e 2009, segundo dados da Polícia Militar

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    Desses suicídios ocorreram nos dias de folga. Segundo o estudo do Gepesp com a Polícia Militar, é provável que haja subnotificação de casos

    A partir da investigação de 26 casos de suicídio, a pesquisa traçou o perfil das vítimas. Eles são no geral praças (sargentos, cabos e soldados), casados, têm entre 31 e 40 anos e trabalham em unidades operacionais. Veja abaixo algumas das conclusões sobre por que o suicídio é um problema tão comum entre os policiais e o que pode ser feito sobre a questão.

    Por que policiais se matam

    Tabu ao redor do suicídio

    Uma das principais dificuldades para lidar com o problema do suicídio policial é o tabu ao redor da questão. Policiais militares com problemas emocionais ou psiquiátricos sofrem preconceito, e o suicídio é tratado como uma vergonha dentro e fora das polícias. “A própria família tem vergonha, independente de ser policial ou não”, disse ao Nexo Dayse Miranda, organizadora do livro “Por que Policiais se Matam?”.

    Admitir o suicídio também envolve uma questão econômica. Quando um policial morre em combate, sua família recebe uma pensão equivalente à aposentadoria completa. Já famílias de policiais suicidas recebem a pensão relativa ao tempo durante qual  o policial trabalhou. Elas também não ganham seguro de vida. A pesquisa obteve relatos de colegas que alteraram as cenas em que policiais suicidas foram encontrados mortos como forma de maquiar o que ocorreu. Outros se expõem excessivamente em combate, uma forma de morrer maquiando os próprios suicídios.

    “Quatro policiais contaram que entraram sem colete [à prova de balas] em confrontos na favela da Maré em dias em que estavam ‘a fim de morrer’. Eles sabem que se não morrerem assim a família perde benefícios.”

    Dayse Miranda

    Organizadora do livro “Por que Policiais se Matam?”, do Gepesp

    Escalas de trabalho e trabalho extra

    As escalas de trabalho dos policiais prejudicam seu descanso, afetam sua saúde psicológica e os afastam das próprias famílias e outras redes de apoio que poderiam auxiliá-los em momentos de crise. Há vários modelos de escalas. Uma das mais detestadas é a que prevê trabalho por 12 horas com descanso por 24 horas, seguida por mais 12 horas trabalho e descanso por 48 horas.

    O problema, segundo Dayse Miranda, é que policiais da PM do Rio de Janeiro têm sido levados a trabalhar nessa segunda folga através do chamado Regime Adicional de Serviço (RAS). Trata-se de uma espécie de hora extra opcional que, por causa da falta de efetivo, está se tornando, na prática, obrigatória, afirma.

    Isso é agravado pelo fato de que muitos policiais moram longe da área em que atuam. “Tem policiais que demoram três horas para chegar na UPP em que vão passar a noite inteira acordados com uma arma”, diz.

    A pressão sobre o efetivo policial piora durante grandes eventos ou acontecimentos políticos, o que aumenta o tempo trabalhado. “Na época das manifestações [de junho de 2013], as escalas eram de 24 horas e os policiais saíam no dia seguinte”, conta Dayse. Mesmo aqueles da área administrativa - com frequência levados a ocupar seus postos porque têm problemas de saúde -, passam por isso. “Se o policial tiver que trabalhar três dias direto, ele vai”, diz. Ela também destaca que esse esforço não é reconhecido pela sociedade.

    “No Rio de Janeiro o policial é visto como algoz. A sociedade brasileira não conhece o sofrimento do policial. Sabe do policial que mata, mas não do policial que se mata.”

    Dayse Miranda

    Organizadora do livro “Por que Policiais se Matam?”, do Gepesp

    Assim como a polícia carioca, a Polícia Militar de São Paulo também criou um dispositivo  por meio do qual policiais podem trabalhar além do tempo habitual. Elaborada em 2009 pela gestão de Gilberto Kassab (PSD), a Operação Delegada é um convênio entre a Prefeitura e a Polícia Militar através do qual policiais em horários de folga podem trabalhar para a administração municipal para obter renda extra, se desejarem.

    Hierarquia rígida

    De acordo com Dayse Miranda, os policiais militares não encaram a hierarquia como um problema, mas se ressentem do abuso de autoridade. Entre os relatos que colheu estava o de um policial que sofreu uma “bicuda” de seu superior. A pesquisadora relata, ainda, o caso de um policial que disse ao comandante que não estava bem, morava longe do trabalho e tinha problemas na família. “O chefe deu ordem de prisão. Ele foi ao banheiro e se matou na própria unidade”, diz.

    "O comando não entende que você tem que tratar bem um policial porque ele lida com pessoas difíceis, tensas e tem que lidar com um ambiente difícil. Não pode transformar a vida do policial militar em um inferno”, diz o coronel reformado José Vicente da Silva Filho. Ele cita como exemplo positivo o exército americano, que tem focado em dar um tratamento mais humano aos soldados.

    Dayse ressalta que abusos não são um problema exclusivo da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e sim algo generalizado entre as corporações.

    Falta de estrutura de apoio

    O policial militar Miguel usava medicamentos para transtornos de humor receitados por um amigo médico, mas não recebia nenhum tratamento psicológico ou psiquátrico. Ele brincava de roleta-russa em casa na frente da mulher e dos filhos e mencionou “ter vontade de dar um tiro na cabeça” no trabalho, mas não recebeu nenhum atendimento específico. Seu suicídio é um dos casos relatados no livro “Por que Policiais se Matam?” - o nome é fictício.

    Esse não é um episódio é isolado. Praticamente todas as polícias brasileiras sofrem com falta de atendimento psicológico, em particular o especializado em suicídio. A Polícia Militar do Rio de Janeiro é considerada bem servida em se tratando do número  de psicólogos, quando comparada com outras corporações do país, mas mesmo assim o efetivo é pequeno. São 95 psicólogos para atender 40 mil policiais militares na ativa e na reserva. E apenas dois psiquiatras, um voltado para os policiais e uma outra, especializada em crianças, para atender os filhos dos agentes.

    Acesso a armas de fogo

    Dados de 2000 do Sistema de Informação de Mortalidade apontam que 51,5% dos suicídios no Brasil foram por enforcamento. Armas de fogo ficam em segundo lugar, com 19,6% do total.

    Entre os policiais, no entanto, a proporção é diferente. Entre os 22 casos acompanhados pela pesquisa para o livro, 14 mortes foram causadas por armas de fogo.

    O que fazer para melhorar a situação dos policiais

    Desmistificação do suicídio e implementação de programas de apoio

    Dayse Miranda defende a criação de programas voltados exclusivamente para policiais que apresentam sinais de que pensam em se suicidar. Ela cita como exemplo positivo o da Polícia Militar de São Paulo, que criou o Programa de Prevenção de Manifestações Suicidas em 2004.

    Retirar a arma de policiais com problemas psicológicos

    O livro recomenda que policiais com risco de suicídio tenham  suas armas temporariamente apreendidas - inclusive com a alteração do regulamento interno da polícia militar.

    Um tratamento mais humano na hierarquia policial

    De acordo com Dayse Miranda, quem comanda a polícia precisa tratar seus subordinados de forma mais humana. “Temos uma história de um sargento que tentou seis vezes suicídio e foi afastado do cargo. No final de 2013 o seu comandante fez a diferença, deu a ele de volta o seu cargo de comando. Isso resgatou a sua autoestima e fez com que voltasse a ser respeitado por colegas”, conta Dayse Miranda.

    Diminuir o tempo de trabalho

    Segundo a pesquisadora, também é necessário garantir o aumento do efetivo policial para que escalas desumanas não sejam empregadas, principalmente em grandes eventos, como as Olimpíadas do Rio de Janeiro.

    Além de permitir descanso e ajudar a diminuir o estresse, oferecer jornadas mais curtas permite que os policiais tenham mais tempo para se aproximar da família e dos amigos, fortalecendo sua rede de apoio.

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