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‘República de Curitiba’: a referência e os significados da expressão

Lula usou o termo de forma pejorativa, numa referência à ofensiva da Justiça contra Getúlio Vargas nos anos 50. Moradores da capital do Paraná e deputados favoráveis ao impeachment recorrem a ele com orgulho

    No início de março, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse à presidente Dilma Rousseff estar “assustado com a ‘República de Curitiba’”. O diálogo foi gravado num dos grampos autorizados pelo juiz federal Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato.

    “Eu, sinceramente, estou assustado com a República de Curitiba. Porque a partir de um juiz de primeira instância tudo pode acontecer”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    Ex-presidente da República (2003-2010) e ministro-chefe da Casa Civil do governo Dilma

    O diálogo entre Lula e Dilma ocorreu depois de o ex-presidente ter sido obrigado a depor à força-tarefa da Lava Jato a partir de uma condução coercitiva autorizada por Moro.

    O petista é investigado sob suspeita de receber dinheiro desviado de contratos da Petrobras. Esses repasses teriam sido feitos, segundo os investigadores, por meio de pagamentos por palestras e via reforma de dois imóveis ligados a Lula: um apartamento no Guarujá e um sítio em Atibaia. O ex-presidente nega ser dono dos imóveis e diz que não recebeu nada ilegalmente.

    O termo usado por Lula de forma pejorativa se popularizou entre seus opositores no Paraná, mas usada no sentido inverso, como algo a se orgulhar. Em Curitiba, a expressão está em protestos contra o governo e em manifestações a favor de Moro. Deputados defensores do impeachment dedicaram seus votos à “República de Curitiba”.

    “Senhor Presidente, como Delegado da Polícia Federal, meu voto vai pelo fim da facção criminosa lulopetista, fim da pelegagem da CUT, fim da CUT e seus marginais. Viva a Lava Jato, a República de Curitiba! E a minha bandeira nunca será vermelha”

    Fernando Francischini (SD-PR)

    Deputado Federal

    O termo “República de Curitiba” usado por Lula é uma referência ao que se chamou de “República do Galeão”. Trata-se de um episódio da história brasileira ocorrido na década de 1950, envolvendo investigações que levaram ao isolamento do então presidente Getúlio Vargas, em 1954.

    O inquérito no Galeão e o suicídio no Catete

    O nome “República do Galeão” foi dado pela imprensa ao inquérito policial militar instaurado para apurar o atentado sofrido pelo jornalista Carlos Lacerda, maior opositor de Getúlio durante seu último governo.

    No dia 5 de agosto de 1954, um homem disparou vários tiros na direção de Lacerda quando ele chegava em sua residência, na Rua Tonelero, no Rio de Janeiro, acompanhado do filho, Sérgio, então com 15 anos, e do guarda-costas Rubens Florentino Vaz, major da Força Aérea.

    O militar fazia parte de um grupo de jovens que, voluntariamente, se dedicavam à segurança do jornalista e candidato a deputado pela UDN (União Democrática Nacional), ameaçado de morte várias vezes. Vaz tentou desarmar o agressor, mas acabou atingido por um tiro no peito e morreu. Lacerda fugiu para o estacionamento do edifício com o filho.

    “Perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. Este homem chama-se Getúlio Vargas”, escreveu o sobrevivente Lacerda em seu jornal, a “Tribuna da Imprensa”.

    Como o incidente envolvia a morte de um militar, a oposição conseguiu tirar as investigações das mãos da polícia e o inquérito foi transferido para a Aeronáutica. A volta de Getúlio ao poder em 1950 não contava com a simpatia de parcelas significativas das Forças Armadas.

    Comandadas a partir da Base Aérea do Galeão, as investigações se aproximaram ainda mais do Palácio do Catete, então sede do governo federal. O inquérito apontava Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do então presidente, e Benjamin Vargas, irmão de Getúlio, como responsáveis pelo atentado.

    As pressões pela renúncia de Vargas aumentaram. Pistoleiros presos pelo atentado disseram que Fortunato era o mandante. A principal voz da oposição era a UDN, partido que fez história no Brasil com um discurso de moralidade e combate à corrupção. A ele se uniram as Forças Armadas, que passaram a exigir a renúncia de Getúlio. Em 24 de agosto, 19 dias depois do atentado e 12 dias depois da abertura do inquérito no Galeão, Getúlio se suicidou.

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