Cansado de debater política? Você não está sozinho

Com o cenário de instabilidade e polarização, brasileiros escolhem ficar de fora do debate. Para psicanalista, situação provoca ansiedade e angústia

    Acompanhar e debater política em um cenário acalorado como este em que o Brasil se encontra nos últimos meses tem sido exaustivo.

     

    O acirramento dos debates e da polarização e a superexposição ao noticiário e à discussão política não estão só afastando quem pensa diferente: estão gerando uma saturação, uma situação em que muita gente decide se afastar do debate político temporariamente para evitar sintomas como ansiedade e angústia.

    O psicanalista Christian Dunker, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), diz que a aproximação de uma decisão que pode mudar completamente um cenário causa sentimentos como vergonha e ansiedade.

    “Você defende uma tese quando está na oposição. E essa tese é outra se você vira situação. As pessoas parecem ter se dado conta disso. Quem esbravejou agora está vendo que algo pode se tornar realidade”, disse ele ao Nexo.

    Dunker acredita que a sensação que surgiu nas últimas semanas é a de dúvida sobre ‘quem vai pagar a conta’ do desenlace político, seja ele qual for. Há também a frustração que aparece quando o indivíduo se prepara para a perda, uma espécie de luto preliminar.

    Ele completa: “as pessoas também estão envergonhadas com seu comportamento durante esse período um pouco em função do efeito de grupo. Nos vemos em um cenário em que muita gente disse coisas que jamais diria por se sentir parte de um grupo. Um pouco desse recuo então é vergonha, de ter brigado com as pessoas de quem a gente gosta, falado demais.”

    Desligando a TV

    O ilustrador Rafael Nunes Cerveglieri, de 30 anos, decidiu se concentrar no trabalho e no videogame nas últimas semanas e deixar a política um pouco de lado. “Estava ficando irritado demais e me irritando mais ainda ao ver as pessoas ao redor se irritando. Cria um ciclo de animosidade que é melhor tentar evitar”, contou ao Nexo sobre a decisão.

    Desligar definitivamente a TV, esconder a timeline do Facebook e fugir ativamente de qualquer situação que possa resultar em discussões políticas estão entre as medidas tomadas por quem quer escapar do debate.

    Mas, para Dunker, o afastamento, ao contrário do que se espera, pode piorar a situação de ansiedade - isto porque este intervalo entre juízos e atos gera mais angústia, segundo ele. Mas acha importante dar um passo para trás para avaliar a situação.

    De acordo com o psicanalista, os gregos antigos tinham um exercício diante desses momentos críticos. Consistia em olhar para a situação imaginando o que terá sido isso tudo daqui a dez anos, depois cinquenta anos e finalmente cem ou quinhentos anos. Depois, segundo Dunker, é preciso inverter a perspectiva e olhar de perto, exageradamente de perto. No caso do Brasil atual, isso seria imaginar, por exemplo, como a filha de Dilma está vivendo esta história, ou como Temer estará tomando café da manhã.

    “Essa alternância de perspectivas, não apenas ilumina novos ângulos da situação, mas nos faz lembrar que por mais que estejamos convictos de nossa própria posição ela nunca deixa de ser apenas o que é: uma perspectiva”

    Christian Dunker

    Psicanalista

    Veja outros depoimentos de gente que é contra ou a favor do impeachment e que decidiu se afastar do noticiário e do debate político nas últimas semanas:

    “Acho que o excesso de informação e opiniões ultimamente mais atrapalha. Eu parei de seguir algumas pessoas, estou lendo menos jornais e tento deixar que isso me deprima menos.”

    Túlio Pires Bragança

    blogueiro

    “Estou fora do Brasil e gosto muito de acompanhar notícias sobre economia e política. Mas ultimamente tenho me afastado de redes sociais como o Twitter e Facebook. Cada dia são dez absurdos, não consigo seguir isso tudo sem me estressar.”

    Celso Celante

    estudante

    “Saí de todos os grupos do Whatsapp, só assisto Netflix, e no Facebook eu "pulo" esses assuntos. No trabalho, quando alguém comenta, tenho vontade de sair correndo. Mas aí não dá, então eu fico no que estou fazendo e procuro não prestar atenção na conversa.”

    Dalia Moraes

    auxiliar administrativa

    “Não leio notícias, não sigo, não deleto amigos, evito discutir minha visão política com qualquer um e ainda aconselho as pessoas a serem mais sensíveis e cuidadosas na hora de expor sua visão política, se possível nem falar.”

    Felipe Ferreira

    designer e marceneiro

    “Não vejo TV, leio pouco ou nada das opiniões no Facebook... Só estou estudando, trabalhando, comendo e dormindo. Estou ansiosa porque de qualquer jeito acho que o resultado será negativo [para o país].”

    Jade Zezzi

    médica

    “Pode apostar que tenho experimentado uma estafa física e mental por conta dos acontecimentos. Vejo pouca televisão ultimamente, mas para séries, filmes e esportes - mas daqui a pouco até a SporTV vai falar de impeachment.”

    Derlys Acosta

    advogado

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