O cérebro sob efeito de LSD: imagens abrem novas perspectivas para a pesquisa

Cientistas utilizam técnicas de mapeamento cerebral para estudar o efeito da diletamida do ácido lisérgico. Os resultados podem fazer com que a droga seja usada para tratar transtornos psíquicos

Pela primeira vez na história cientistas mapearam o cérebro humano sob efeito da diletamida do ácido lisérgico, o LSD. Eles observaram em detalhes o que ocorre no órgão de pessoas sob o efeito de uma das drogas mais poderosas já criadas. As sensações do uso incluem um sentimento de comunhão com o universo, a percepção visual de sons e uma mudança nos níveis de criatividade que ficam comparáveis aos de crianças.

Publicada na conceituada revista científica americana Pnas (“Proceedings of the National Academy os Sciences”), o trabalho foi coordenado por Robin L. Carhart Harris e contou com nomes do primeiro time da ciência mundial. Entre eles está o psiquiatra David Nutt, que foi conselheiro do governo britânico sobre drogas. O estudo contribui para colocar o LSD em evidência no mundo científico.

 

Para realizar o mapeamento, pesquisadores convocaram 20 pacientes saudáveis. Em um dia, eles receberam uma dose de 75 microgramas de LSD. No outro, uma dose de placebo.

Foram usadas três técnicas de mapeamento cerebral, chamadas de rotulagem de spin arterial, ressonância magnética em estado de descanso, e magnetoencefalografia. Elas foram aplicadas com os pacientes sob efeito da droga, do placebo e também sóbrios para medir fluxo sanguíneo, conexões entre as redes cerebrais e ondas cerebrais.

O que a droga causa ao cérebro

Ver com olhos fechados

Sob o efeito do LSD, os participantes da pesquisa afirmaram estar vendo com os olhos fechados. O estudo apontou aumento do fluxo sanguíneo no córtex visual, que concentra funções ligadas à visão.

Outras áreas do cérebro também estavam ativadas conforme pacientes relatavam suas alucinações. Isso indica que as pessoas “literalmente enxergam” a partir de sua imaginação, disse ao Nexo Eduardo Schenberg, neurocientista e diretor do instituto Plantando Consciência, que estuda o efeito de substâncias psicodélicas.

De acordo com Schenberg, o cérebro adulto é solidificado em redes neurais que funcionam de forma relativamente independente uma das outras. Mas, com o efeito do LSD, passa a funcionar temporariamente de forma interligada, similar à mente de uma criança. Além de alucinações, isso também pode temporariamente ativar a criatividade.

Dissolução do ego

Durante o processo de amadurecimento, as pessoas tendem a criar ideias sobre si mesmas. Um motorista, por exemplo, se identifica com seu nome, sua profissão, seu país e seu papel como filho. Mas, sob o efeito do LSD, é comum que os usuários modifiquem temporariamente sua relação psicológica com o próprio passado e com a sua identidade. No caso do motorista, o peso de sua profissão como algo que o identifica poderia ser relativizado. Algo que tem sido chamado por cientistas de efeito da “dissolução do ego”.

“As redes de memória que você tem sobre si próprio são temporariamente modificadas, como se tivesse uma orquestra e o maestro saísse. Você perde a coerência, mas abre espaço para a criatividade, instrumentos que não soavam juntos passam a soar em consonância.”

Eduardo Schenberg

Neurocientista

Conexão com a natureza

Também é comum que usuários relatem, no lugar dessa sensação de identidade, uma conexão com a natureza, com os outros e com uma força maior. Quem é religioso tende a identificar uma comunicação com Deus.

A pesquisa verificou que o LSD diminui a ligação entre uma área do cérebro chamada de para-hipocampal, ligada à memória, e o córtex retroesplenial, ligado à identidade, o que pode ajudar a explicar o fenômeno.

Pesquisa abre perspectiva para tratamentos

Além de entender melhor como o cérebro funciona, a pesquisa com psicodélicos abre  perspectivas para o tratamento de pessoas que sofrem de problemas como transtorno obsessivo-compulsivo ou depressão. Os pesquisadores argumentam que o LSD permite que pacientes vivam estados de consciência diferentes daqueles que alimentam esse tipo de distúrbio.

“As pessoas entram em um modelo de pensamento depressivo e não conseguem se libertar. Psicodélicos desmontam essas estruturas de pensamento e permitem às pessoas pensar de forma diferente”

David Nutt

Psiquiatra e um dos autores do estudo “Correlações neurais da experiência do LSD reveladas por neuroimagiologia multimodal”

Clandestinidade tirou LSD do mundo científico

A tecnologia para realizar o tipo de visualização realizado pelo estudo existe desde a década de 1980. Mas, como a droga passou a ser colocada na ilegalidade desde meados dos anos 1960, pesquisá-la tem um custo político e financeiro alto, o que contribuiu para que nenhum trabalho como esse tivesse sido feito até o momento.

O LSD é uma das drogas mais conhecidas e potentes já criadas. Ele foi sintetizado em 1938 pelo químico suíço Albert Hofmann, que deu à droga o nome de Lysergsäurediethylamid, mas suas propriedades psicodélicas foram descobertas apenas em 1943, quando Hofmann teve alucinações ao manusear a substância.

A droga teve forte impacto na psicologia e na psiquiatria nas décadas de 1950 e 1960. Um dos cientistas mais identificados com o LSD é o psicólogo e filósofo Timothy Leary, que realizou experimentos pela universidade de Harvard e se tornou defensor da substância, além de figura importante no movimento da contracultura. Com o aumento do uso com fins recreativos, a droga foi proibida em 1966 no Estado americano da Califórnia. Dois anos depois, foi banida no resto dos Estados Unidos. Em 1971, o LSD foi categorizado pela ONU como droga que não deveria ser prescrita para uso médico.

Leary passou de pesquisador respeitado para “o homem mais perigoso da América”, segundo o classificou o presidente Richard Nixon, e foi preso diversas vezes. A ilegalidade não impediu que a droga continuasse a influenciar manifestações artísticas - mas fez com que a pesquisa com a substância diminuísse drasticamente, um hiato que perdura por mais de cinquenta anos.

Recentemente, o interesse voltou à tona, na esteira de experimentos com outras drogas alucinógenas, como a ayahuasca e a psilocibina, encontrada nos fungos conhecidos como cogumelos mágicos. Mas o fato de que é ilegal gera custos extras para os pesquisadores.

Pesquisa recorreu a financiamento coletivo

O tabu ao seu redor também traz dificuldades para obter financiamento. Instituições de pesquisa são reticentes em colocar dinheiro em pesquisas com LSD porque esse tipo de estudo tem grande potencial de gerar polêmicas. Por isso, os pesquisadores buscaram fontes alternativas para obter os recursos que financiaram o estudo.

Um dos financiadores da pesquisa foi a Beckley Foundation, dirigida por Amanda Feilding, condessa de Wemyss, no Reino Unido. Psicóloga, ela é uma das pioneiras de estudos com a droga ainda quando essa não era ilegal, e é defensora de pesquisas com o LSD desde que a droga passou para a clandestinidade. O resto da verba foi obtido a partir de uma campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) que recebeu contribuição de 1.628 pessoas de 70 países. Foram arrecadadas 53,39 mil libras (cerca de R$ 265,2 mil), mais do que o dobro das 25 mil libras pedidas inicialmente. Para Eduardo Schenberg, os resultados desse estudo podem facilitar o financiamento de novos projetos nessa área.

“A comunidade científica no geral ainda não está atenta a esse tipo de pesquisa. Mas esse grupo de pesquisadores tem pesos pesadíssimos e o artigo traz o estudo de psicodélicos ao topo da ciência mundial. Jovens que se interessavam pelo tema e não conseguiam professores que os orientassem têm agora uma chance maior.”

Eduardo Schenberg

Neurocientista

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