Como a etiqueta britânica lida com ofensas no parlamento

Mesmo quando o debate esquenta, com palavras duras e acusações, deputados do Reino Unido encontram formas polidas e bem humoradas de contornar impasses

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

 

Um episódio pitoresco ocorrido em abril de 2016 na Câmara dos Comuns - o equivalente britânico à Câmara dos Deputados - chamou a atenção pelo humor, certa organização, e até pela forma polida com com que os parlamentares contornaram uma ofensa.

Durante uma sessão, o deputado trabalhista Dennis Skinner apontou o dedo para o premiê David Cameron, chamado-o de “dodgy Dave” (algo como Davizinho suspeito, ou espertalhão). O parlamento se dividiu entre gargalhadas e murmúrios de reprovação e a sessão foi imediatamente interrompida.

Aos gritos de “ordem, ordem, ordem”, o presidente da Câmara, John Bercow, paralisou a sessão e, depois de pedir “ordem” 16 vezes, repreendeu Skinner, de forma bem humorada, exagerando na inflexão da voz e ostentando uma gravata florida, já considerada uma de suas marcas registradas (as gravatas nada discretas de Bercow rendem piadas de internet e foram parar até mesmo num site dedicado exclusivamente ao assunto).

 

Mesmo repreendido, Skinner não retirou a ofensa. Ele, na verdade, a repetiu, de forma ainda mais enfática, arrancando risos não apenas de seus colegas de parlamento, mas também do próprio David Cameron.

Convidado a deixar o recinto, Skinner murmurou para o presidente da Câmara: “faça como quiser”. E saiu andando. Os demais presentes, apesar de tudo isso, ainda se levantaram em sinal de respeito quando Skinner saiu.

“Eu não recebi uma resposta adequada (antes). Talvez o Davizinho suspeito me responda agora”

Dennis Skinner

Deputado trabalhista britânico, em sua primeira intervenção

“Este homem fez mais para dividir esta nação do que qualquer outra pessoa. Ele se preocupa apenas com o seu próprio bolso. Eu continuo me referindo a ele como Davizinho suspeito. Faça como quiser”

Dennis Skinner

Deputado trabalhista britânico, em sua segunda intervenção, após ter sido interpelado pelo presidente da Câmara

Qual era a polêmica tratada na sessão

 

O deputado Skinner se referia à revelação de que o pai do premiê David Cameron mantinha contas secretas em offshores no Panamá. As contas foram reveladas no episódio conhecido como “Panama Papers”, no qual 11,5 milhões de documentos da firma panamenha Mossack Fonseca vazaram para a imprensa, revelando quem são os donos de 214 mil offshores. Ao todo, 72 chefes ou ex-chefes de governo e de estado tiveram de se explicar sobre a existência destas firmas que, embora, em princípio, não sejam ilegais, são comumente usadas para evasão de divisas e sonegação fiscal.

Skinner é um deputado ligado a grupos socialistas e sindicais. Ele trabalhou na mineração antes de ingressar na política, assim como seu pai.

Essa foi a décima vez que Skinner foi suspenso de uma sessão no Parlamento por usar expressões consideradas ofensivas. Na primeira vez, em 1984, a vítima do deputado foi ninguém menos que a premiê Margaret Thatcher, conhecida como “a dama de ferro”. O deputado disse que ela subornava juízes.

Cameron também foi advertido por usar expressões ofensivas

 

Uma das ironias da situação é o fato de o próprio premiê britânico, David Cameron, também ter sido repreendido por usar linguagem ofensiva no parlamento, em 2012.

Na ocasião, ele se referia às medidas econômicas de seu governo. Enquanto falava, deputados murmuravam réplicas em voz baixo ao seu lado. Cameron se referiu a um deles (Ed Ballas) como “muttering idiot”  ou “o idiota murmurante” e, assim como aconteceu agora com Skinner, Cameron também foi repreendido pelo presidente da Casa, aos gritos de “ordem, ordem, ordem”.

A situação provocou gargalhadas em todos os presentes, num lance mais parecido com piadas numa sala de aula do que com o que se esperaria do parlamento britânico. Com bom humor, Cameron aceitou retirar a palavra - ao contrário de Skinner - e seguiu adiante em seu discurso.

Diante de situações como essas, o presidente da Câmara evoca o artigo 43 do regimento interno, que determina quais são as palavras proibidas. A lista não é fixa, ela muda para incorporar expressões tão específicas quanto fracóide, nojento, porco, traidor e sujo.

Piadas nas redes

Os gritos de “ordem, ordem” do presidente da sessão, John Bercow, ganharam as redes em forma de piada. Sob a hashtag #order, muitos britânicos expressaram opiniões contrárias e a favor da repreensão a Skinner.

Este usuário do Twitter apoiou a decisão de Bercow de expulsar Skinner da sessão:

Este outro disse que Bercow deveria cobrar com mais dureza respostas de Camerom para as contas no Panamá, em vez de repreender o deputado que o interpelou:

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.