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A aposta de estatísticos e professores para a votação do impeachment

Disputa é apertada e deputados indecisos determinarão resultado na Câmara; duas projeções preveem derrota de Dilma, mas abstenção de 10% poderia dar vitória ao governo

    Falta pouco para a votação do impeachment na Câmara, prevista para ocorrer no domingo (17). Tal como em decisão de Copa do Mundo, multiplicam-se previsões e cálculos sobre quem sairá vencedor: o governo da presidente Dilma Rousseff ou a oposição respaldada pelo vice-presidente Michel Temer.

    Ao todo, são 513 deputados. São necessários 342 votos para que a Câmara aprove a admissibilidade do processo, encaminhando o caso ao Senado. Se os senadores, por maioria simples (41 de 81 votos), derem andamento ao impeachment, Dilma será afastada por até 180 dias até seu julgamento, pelo próprio Senado.

    Por outro lado, o governo tem a meta garantir que, no mínimo, 172 deputados votem contra o impeachment, se abstenham ou faltem no dia da votação.

    Há ao menos quatro levantamentos sendo atualizados constantemente para identificar quais deputados já decidiram sobre o impeachment e quais ainda estão indecisos. Um feito pelo jornal "O Estado de S. Paulo", outro pelo Datafolha, um da consultoria Bites e outro do movimento Vem pra Rua. Eles apontam que há de 90 a 120 deputados que ainda não fecharam posição sobre o tema ou não declararam voto.

    Deputados indecisos serão o fiel da balança

    Em regra, nas disputas apertadas quem decide são os indecisos. Isso ocorreu na eleição presidencial de 2014, quando Dilma e o candidato do PSDB, Aécio Neves, afinaram seus discursos no segundo turno para disputar a preferência de quem ainda não sabia em quem votar.

    Nos Estados Unidos, a ciência política chama o universo dos indecisos de “swing voters” (eleitor oscilante). Em alguns casos, esse grupo acaba tendo um poder de barganha maior do que aqueles que já decidiram o voto no início da disputa.

    A fatia de 90 a 120 deputados indecisos sobre o impeachment determinará se a Câmara admitirá ou não o impedimento de Dilma, encaminhando o processo ao Senado. Alguns estatísticos e cientistas políticos estão tentando projetar como esse universo se comportará no domingo (17):

    Regis Ely

    Professor de economia da Universidade Federal de Pelotas, Ely utilizou os dados do Datafolha para identificar como os deputados se posicionam. A partir desse extrato, calculou a probabilidade de voto considerando o partido e o Estado e espelhou a mesma lógica ao grupo dos indecisos, que não manifestaram opinião ou não foram encontrados.

    “Esse modelo capta as divisões das legendas e dentro dos Estados. O PMDB, por exemplo, é mais pró-governo no Nordeste”, diz Ely.

    O cálculo também considera possíveis índices de ausências no plenário da Câmara no dia da votação. Quanto mais deputados faltosos, mais difícil a oposição conseguir os 342 votos e maior a chance de o governo vencer:

    Pró-impeachment de acordo com número de ausentes da votação

    • 0% de ausentes: 369 votos

    • 2,5% de ausentes:  353 votos

    • 5% de ausentes: 352 votos

    • 10% de ausentes: 329 votos (neste cenário, Dilma derrotaria a oposição)

    Eduardo Zylberstajn e Guilherme Stein

    São pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, respectivamente. Também estão calculando projeções sobre como os deputados indecisos votarão, para o jornal “O Estado de S. Paulo”.

    Eles usam como referência os dados apurados pelo jornal sobre a posição dos parlamentares em relação ao impeachment. A partir daí, projetam o comportamento dos indecisos. Além do partido e do Estado, consideram se o deputado é suplente ou titular e qual seu índice de apoio ao governo em votações anteriores medido pela ferramenta “Basômetro”.

    Com essas quatro variáveis, calculam a probabilidade de um parlamentar indeciso votar a favor do impeachment. "Se a chance de um determinado deputado decidir nesse sentido é de 80%, o cálculo considera que há 0,8 voto a favor do impeachment [entre os indecisos]", diz Stein. A mesma fórmula é aplicada a todos os indecisos. Neste caso, não é considerado o percentual de deputados ausentes no domingo:

    Pró-impeachment

    • 356 votos

    Rogério Arantes

    Professor de ciência política da USP, fez uma projeção a partir de como os 65 deputados da comissão especial do impeachment votaram nesta segunda-feira (11).

    Arantes aplicou a mesma proporção de votos de cada legenda registrada na comissão ao universo dos 513 deputados do plenário da Câmara. É uma metodologia diversa das duas citadas acima, que não considera as pesquisas de campo sobre declaração de voto dos parlamentares. O resultado:

    Pró-impeachment

    • 294 votos

    O imponderável: efeito manada e articulação

    A matemática ajuda a prever tendências na disputa política do impeachment, mas é insuficiente para considerar dois movimentos que podem interferir na votação de maneira determinante: a capacidade de articulação política do governo e da oposição ao longo desta semana e o efeito manada que deve ocorrer às vésperas da votação, atraindo deputados indecisos para o lado que tem mais chances de vencer.

    “A gente não consegue calcular o efeito da barganha política, que pode influenciar os votos dos deputados”, diz Ely. Essa negociação envolve a cessão de espaços no atual governo ou na futura gestão, a depender do desfecho do impeachment.

    Além disso, o efeito manada fará fluir votos hoje indecisos para o lado que tiver mais chance de vitória. “Os indecisos não têm uma preferência específica pelo impeachment. Talvez esses deputados só estejam interessados em ganhar, seja para derrubar ou aprovar [o impedimento]”, afirma Stein. Para ele, se houver um clima favorável ao impeachment o resultado da votação anti-Dilma pode ser muito maior que o previsto. E, se estiver desfavorável, “pode ser muito menor do que nossa previsão”, diz.

    A migração dos deputados rumo ao lado vencedor também é citada por Ely, que lembra que a ordem de chamada dos deputados poderá influenciar no resultado. Mas, para ele, o efeito não será determinante para alcançar a linha de corte do impeachment, e sim para inflar o lado que já tiver saído vencedor. “Acho que isso influenciará depois que a decisão estiver tomada, no percentual final”, diz.

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