Por que você está cansado de usar o Tinder

Aziz Ansari pesquisa os fatores que levam as pessoas a desistirem de aplicativos de relacionamento. Ansiedade, superficialidade e excesso de oferta estão entre eles

A narrativa é comum entre jovens adultos solteiros: no início, os aplicativos de relacionamento, como Tinder e Happn, geram empolgação com a oferta aparentemente infinita de possibilidades.

No entanto, depois de alguns matches, mensagens e mais um tempo conhecendo gente, os usuários frequentes descrevem um cansaço relacionado a conhecer possíveis novos parceiros, trocar mensagens e marcar encontros. Na maioria dos casos, é preciso dar uma pausa e voltar depois de alguns meses; alguns desistem de vez dos aplicativos.

O surgimento do Tinder, em 2013, mudou os parâmetros de online dating. O termo ‘dating’, em inglês, é um substantivo que se refere ao ato de conhecer gente nova, sair e se envolver romanticamente, sem necessariamente estar em um relacionamento estável e exclusivo com uma dessas pessoas.

 

Outros aplicativos já existiam antes dele, mas nenhum era socialmente aceito - usá-los era tido como algo desesperado. O Tinder, cuja plataforma só funciona em smartphones, é simples o suficiente para garantir uma experiência lúdica e leve durante o processo: você vê perfis com foto e uma descrição de gente que estiver por perto, e joga a foto para a direita se gostar da pessoa. Se duas pessoas jogarem para a direita o perfil um do outro, da-se o matche. A partir daí pode-se trocar mensagens.

As descrições habituais entre os usuários falam da energia que é preciso investir em parceiros que, no fim, não dão em nada, do excesso de matches que ‘não têm nada a ver’, de quão repetitivos são os primeiros encontros e da falta de paciência para, quando uma aposta dá errado, ter que começar tudo outra vez, do início.

Os elementos que trazem fadiga são os mesmos que transformam apps de online dating em algo tão revolucionário: o excesso de oferta, a rapidez na comunicação e os perfis cheios de características muito específicas.

Em março de 2016, o comediante Azis Ansari transformou em livro uma extensa pesquisa sobre o universo dos relacionamentos modernos. Em “Romance Moderno” (lançado no Brasil pela editora Paralela), Ansari dedica um trecho inteiro para a sensação de cansaço provocada pelo online dating.

Ansari observou que tal cansaço não parece atingir indivíduos que conhecem gente do jeito antigo e não recorrem a plataformas virtuais, como aqueles que conhecem gente através de amigos em comum, por exemplo. Além dele, psicólogos e cientistas sociais têm investigado como e por que essa fadiga acontece em apps de relacionamento.

Os resultados indicam que os elementos que levam a essa sensação são os mesmos que transformam apps de online dating em algo tão revolucionário: o excesso de oferta, a rapidez na comunicação e os perfis cheios de características muito específicas.

Por que ‘online dating’ causa fadiga

Excesso de oferta

Em 1932, um terço dos casais nos Estados Unidos morava a até cinco quarteirões do outro antes de se casar. Por isso, as possibilidades de encontros eram restritas. Hoje, os aplicativos de relacionamento colocam ao alcance uma longa lista de pretendentes que estão geograficamente próximos, mas quem define o raio máximo de proximidade é o usuário. É preciso lidar com um catálogo que coloca centenas de pessoas à distância de um gesto de dedo. Isso coloca muita gente à disposição, o que pode gerar uma categoria da síndrome chamada de Fear Of Missing Out (FOMO), ansiedade causada pela sensação comum na era digital de que tem outra coisa melhor (um evento, uma festa) acontecendo do que aquilo que você está fazendo.

Ver tanta gente disponível pode fazer com que você se relacione superficialmente e fique sempre pensando que outra pessoa melhor, mais bonita ou mais compatível com você esteja mais adiante na lista de possíveis matches.

O pesquisador em psicologia social Eli Finkel chama o fenômeno de ‘comoditização de pretendentes’, isso é, a transformação de pessoas em produtos.

Ansiedade das mensagens

Em “Romance Moderno”, Ansari descreve experiências pessoais de ansiedade geradas pela espera na resposta de uma mensagem e dedica um capítulo inteiro ao tema. A troca de mensagens condiciona a mente de um jeito diferente - esperamos uma resposta rápida, sob pena de ficarmos obcecados com a ausência de resposta. De acordo com uma entrevista da antropóloga Natasha Schüll, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), ao autor, nas mensagens de texto o cérebro tende a se comportar como o de um viciado em caça-níqueis, que busca gratificação instantânea e fica inquieto se não a obtém.

A demora para receber uma resposta importante pode acabar com a atenção e a produtividade de alguém e gerar estresse. Mas o problema é que a ausência de mensagens gera escassez, o que pode aumentar o interesse. Mensagens com frequência menor criam uma espécie de escassez, o que tornam a pessoa inconscientemente mais interessante. Ou seja: em alguns aspectos, os ‘joguinhos’ amorosos da era digital não são tão ineficientes assim.

E o próprio aumento do interesse por alguém que parece desinteressado - porque manda poucas mensagens e demora para responder - também pode fazer o usuário entrar em parafuso.

Superficialidade dos perfis

Nos apps de relacionamento, escolhemos pretendentes com base na aparência física ou em características como gosto musical e cultural e orientação política. Mas nenhuma destas características é o que nos faz apaixonar por alguém.

É claro que é preciso incluir algum filtro na busca online por um amor, e interesses em comum podem, pelo menos, garantir que o assunto demore mais para acabar em um primeiro encontro. Mas isso é tudo. Acabamos supervalorizando essas características e, de acordo com o livro, reduzindo pessoas tridimensionais a amostras de informação bidimensionais.

Por basearmos nossas escolhas em informações que, na realidade, são muito menos importantes para um relacionamento do que gostamos de imaginar, acabamos fazendo escolhas ruins reiteradamente - o que também pode gerar uma frustração e desilusão com o online dating.

O que queremos é diferente do que dizemos que queremos

É difícil assumir, mas as pessoas querem parceiros diferentes do que aqueles que elas descrevem. A descoberta é antiga, da época de serviços de namoro que baseavam as combinações de solteiros nas descrições do que a pessoa queria. Depois, com os aplicativos e sites de relacionamento, foi possível observar como usuários buscavam mais e pareciam se interessar mais por perfis bastante diferentes daquilo que descreviam como ‘o parceiro ideal’.

O resultado prático disso é ter uma lista de encontros e tentativas frustradas com pretendentes que, até onde você sabe, eram tudo o que você procurava. Se não dá certo com quem parecia perfeito, com quem vai funcionar, então? Isso também gera estresse e frustração.

 

 

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