O mea culpa de Obama por seu maior erro em 8 anos de Casa Branca

Em duas entrevistas recentes, presidente americano se referiu à guerra na Líbia, em 2011, como seu maior tropeço. Divergência com potências europeias teria levado a erro de avaliação

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A nove meses do fim de seu segundo e último mandato como presidente dos EUA, Barack Obama, revelou qual foi seu maior erro em oito anos de Casa Branca: a transição no pós-guerra na Líbia, em 2011.

A declaração foi dada em entrevista ao canal de TV americano Fox News, e levada ao ar neste domingo (10). Diante da pergunta sobre qual seu maior erro na Presidência, Obama respondeu de forma direta:

“Provavelmente falhar em planejar pelo dia seguinte, quando eu penso no que seria a coisa certa a fazer na Líbia”

Barack Obama

Presidente dos EUA, em entrevista à Fox News

Não é a primeira vez que Obama toca no assunto. Numa entrevista publicada na edição de abril da revista americana “The Atlantic”, o presidente americano avança um pouco mais na explicação sobre o que deu errado exatamente:

“Quando eu olho para trás e pergunto a mim mesmo o que deu errado, há espaço para críticas, pois eu tinha mais fé nos europeus, dada a proximidade com a Líbia”

Barack Obama

Presidente dos EUA, em entrevista à “The Atlantic”

As palavras de Obama e sua insistência no assunto em duas entrevista recentes revelam ressentimento com seus pares europeus - especialmente com o Reino Unido e a França, no trato com a Líbia, que passou a ser considerada uma séria ameaça à segurança internacional em 2011.

O que aconteceu na Líbia

 

Em fevereiro de 2011, milhares de líbios foram às ruas protestar contra o então presidente Muammar Gaddafi, que estava no poder de forma ditatorial há 42 anos.

À medida que a pressão sobre Gaddafi crescia, aumentava também a repressão do governo contra opositores. A dinâmica da violência levou o país a uma guerra civil. Em março, o líder líbio ameaçou avançar “sem perdão e sem compaixão” contra a população da cidade líbia de Bengazi, bastião opositor onde viviam 200 mil pessoas.

A ameaça fez com que a ONU aprovasse a Resolução 1973/2011, autoirizando o uso de “todos os meios necessários” para impedir o massacre. Uma coalizão sob liderança europeia foi lançada, com apoio dos EUA. Gaddafi acabou capturado, empalado e morto por uma turba de rebeldes.

Ao longo do conflito, 300 mil líbios fugiram do país, que mergulhou no caos e na desorganização. As diversas facções opositoras foram incapazes de formar um governo único, de coalizão, abrindo espaço para a ação de grupos terroristas como o Estado Islâmico.

Qual o erro, segundo Obama

O presidente americano não lamenta a intervenção em si, mas a falta de um plano para o “dia seguinte”. Na entrevista para a “The Atlantic” fica claro que ele esperava que isso partisse das potências europeias, que sempre mantiveram laços estreitos de negócios com Gaddafi e, portanto, mais proximidade com a realidade líbia e sua reconstrução posterior.

Antes de se referir à responsabilidade dos parceiros europeus, o presidente americano faz a seguinte introdução: “Nós executamos esse plano tão bem quanto possível: conseguimos um mandato da ONU, construímos uma coalizão, isso nos custou US$ 1 bilhão - o que, em questão de operações militares, é muito barato -, nós evitamos mortes de civis em larga escala, nós nos prevenimos tanto quanto possível de entrar numa longa e sangrenta guerra civil. Apesar de tudo isso, a Líbia foi uma confusão”. Em seguida, diz que “tinha mais fé” nos europeus.

A Líbia é hoje um país dividido, sob o controle de pelo menos dois grupos que se opõem - um deles baseado na cidade de Sirte e outro em Tobruk. A ONU indicou um negociador para tentar formar um governo de coalizão, o que parece mais improvável a cada dia.

A lição do caos líbios é um dos elementos que levaram os EUA a relutar em tomar as mesmas medidas na Síria, onde um conflito se arrasta há cinco anos. Sem que haja emergido um grupo coeso único, capaz de formar um novo governo de coalizão que substitua o atual presidente sírio, Bashar al-Assad, americanos e europeus optaram por armar e treinar grupos locais, sem entretanto se envolver diretamente na guerra, que não dá sinais de estar perto de um fim.

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