O mundo gasta US$ 1,7 trilhão com forças armadas. Por que esse dinheiro não tem outro destino

Especialistas em defesa e relações internacionais falam sobre o que move os países a preferirem gastar com armas em vez de comida, saúde e educação

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O gasto militar mundial em 2015 foi de US$ 1,7 trilhão. O valor é muito próximo da soma de tudo o que um país do porte do Brasil - a sexta economia mundial - produziu no mesmo ano (US$ 1,6 trilhão de PIB).

Para chegar a essa cifra, o Instituto de Pesquisa sobre a Paz Internacional de Estocolmo, na Suécia (Sipri, na sila em inglês) soma anualmente tudo o que os países gastaram não apenas com guerra e aquisição de material bélico, mas também na manutenção de pessoal - incluindo pensões, que ocupam uma grande parte dos orçamentos militares.

Razões da oscilação dos gastos militares em 2015

Quanto cresceu

Apenas 1% em comparação com 2014.

Onde cresceu

Na Ásia, Oceania, Oriente Médio e Europa Central e do Leste. Não cresceu na África, América Latina e Caribe.

Quando cresceu. Quando caiu

Por 13 anos (1998-2011) o gasto militar mundial caiu. Em 2011, voltou a crescer.

Quais os destaques

A China gastou 7,4% a mais (total de US$ 215 bilhões em 2015) e os EUA gastaram 2,4% a menos (US$ 596 bilhões) do que gastaram em 2014.

Por que cresceu

Porque os efeitos da crise econômica, cujo ápice se deu 2009, arrefeceram. Entretanto, o crescimento vem sendo baixo, dada a queda no preço do petróleo no mundo.

Crise afeta gastos no Brasil

 

Em 2015, o Brasil gastou, de acordo com o Sipri, mais de US$ 24 bilhões, o que equivale a 1,4% do seu próprio PIB. A cifra coincide com a informada pelo Ministério da Defesa ao Nexo. Esse percentual está abaixo da média mundial. Na soma de todos os países, os gastos militares correspondem a 2,3% do PIB global somado.

Entre os países membros dos Brics, a Rússia tem gasto militar equivalente a 5,4% do próprio PIB. A África do Sul a 1,1%, a Índia a 2,3% e a China a 1,9%. Entre os países vizinhos, a Argentina gasta 1,2% do próprio PIB com assuntos militares e o Chile, 1,9%.

O Sipri diz que, de maneira mais ampla, “os gastos militares na América Latina e no Caribe tiveram queda de 2,9% e podem ser explicados na maior parte pela queda nos gastos da Venezuela (64% menos, dada a crise econômica interna e o preço do petróleo)”.

Por que o mundo gasta tanto dinheiro na área militar

 

A capacidade de mobilização militar de um país depende em grande medida da capacidade instalada previamente. Mesmo quando não confrontado por uma ameaça real iminente, os Estados destinam parte de seus recursos para o recrutamento e remuneração de pessoal militar e civil envolvido nas áreas de defesa em tempos de paz. O mesmo acontece com material bélico, que necessita de aquisição, manutenção e uso regular em treinamento.

Além da preparação prévia para um eventual conflito, os Estados também demonstram poder internacionalmente ao manter forças treinadas e equipadas. Eles fazem isso com a intenção de dissuadir possíveis inimigos da ideia de resolver um contencioso por meio do uso da força.

Internamente, o aumento de gastos bélicos também pode ser uma forma de agradar setores militares. Isso é comum em países nos quais generais têm preponderância na política interna, como no Egito.

Por fim, a indústria bélica também pressiona os governos oferecendo soluções cada vez mais caras e mais sofisticadas, seja para ameaças reais ou para ameaças percebidas.

O gráfico abaixo mostra os gastos nos 15 países de maior orçamento militar no mundo:

Investimento bélico

Por que não gastar em saúde, comida e educação em vez de armas

Diante de números como esses, é comum que muitos se perguntem “por que esses países não pegam esse dinheiro todo e resolvem os problemas de comida, saúde e educação no mundo?”. O Nexo enviou essa pergunta a quatro especialistas em Defesa e Relações Internacionais. As respostas foram as seguintes:

Aliados se aproveitam dos EUA

Eugene Gholz

Ex-conselheiro sênior no Pentágono, professor na Escola de Administração Pública Lyndon B. Johnson e especialista em segurança interna e internacional 

“Políticas voltadas para a solução de problemas de alimentação, saúde, educação e outras necessidades sociais frequentemente fracassam. Isso acontece porque, em muitos países, as pessoas que demandam essas soluções têm de enfrentar políticos que são controlados por elites mais interessadas em prestígio do que em ajudar as pessoas. Ironicamente, alguns dos países com o maior orçamento militar do mundo gastam menos do que deveriam gastar. Os aliados dos EUA na Europa e na Ásia poderiam gastar mais que o 1% de seus PIBs, como fazem hoje, mas eles não sentem que precisam, pois confiam nos EUA para garantir suas defesas. Isso faz com que os americanos acabem gastando seu orçamento total com assuntos militares, limitando os investimentos internos que poderiam ser feitos em escolas ou mesmo no desenvolvimento internacional. Alguns eleitores americanos estão agora pressionando para mudar essa balança.”

Soberania contra ameaças

Camel Farah

Coronel da reserva do Exército Brasileiro e consultor de inteligência, segurança e defesa

“Os gastos militares geralmente são justificados pelas autoridades de diversos Estados como necessários para manter a soberania dos países, defender seus territórios de inimigos externos, proteger a sociedade em situações de ameaças de toda ordem, enfim, são utilizados para proteção do Estado e da sociedade. Resumindo, servem para proteger o homem do homem. Isso não deixa de ser realidade, pois a ganância, sede de poder, egoísmo, orgulho, discriminação, indiferença e outras falências da alma humana alimentam essa necessidade. Convivemos num mundo com pessoas nas mais variadas condições de evolução, seja intelectual, moral ou espiritual. Assim, nem sempre o ideal fraterno orienta os governos e as sociedades, fazendo com que os gastos militares sejam justificados pelos agressores e pelos defensores.”

Gastos altos com pensionistas

Daniel Mack

Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Georgetown e consultor independente para temas de redução da violência armada e segurança internacional

“Gastos militares refletem fielmente as prioridades de cada país. Para cada US$ 100 a investir, o governo precisa decidir quantos vão para equipamentos militares, pessoal (salários, aposentadorias e pensões) e custos operacionais e de manutenção das Forças Armadas – ou para áreas como Saúde e Educação. Esse “ou” é essencial: para cada decisão orçamentária – como dividir os US$ 100 entre dezenas de áreas essenciais – há setores que ganham e outros que deixam de ganhar. No caso do Brasil – com um orçamento militar estimado em mais de US$ 24 bilhões e 1,4% do PIB em 2015 – seria justo, especialmente durante crise econômica, que parte destes gastos fosse realocada para investimentos sociais. Com quase metade do gasto militar brasileiro indo para “previdência de inativos e pensionistas da União”, benefícios como pensões vitalícias para filhas de militares (quase 28% do total de pensionistas) não se justificam. Num plano maior, se 13% dos gastos militares mundiais fossem realocados para o combate à fome e à pobreza extrema, essas chagas seriam varridas do globo. O que poderíamos fazer no Brasil somente com cortes para as mais de 185 mil beneficiárias da ‘Bolsa-Papai-Militar’?”

Lobby de oligopólios

Reginaldo Nasser

Mestre em Ciência Política pela Unicamp e doutor em Ciências Sociais pela PUC, onde é professor de Relações Internacionais

“Justifica-se a produção de armas para dar segurança e proteção. Mas proteger quem? Do quê? Nos últimos anos foram gastos trilhões para combater o terrorismo. Apesar disso, o número de vítimas aumentou 20 vezes. Gastam-se trilhões com a produção de armas nucleares, mas sabemos, desde Hiroshima e Nagasaki que, se essas armas forem usadas, milhões de pessoas podem ser mortas. Por outro lado, sabemos que 1 em cada 8 habitantes no mundo passa fome, ou seja, 800 milhões de pessoas estão sob ameaça crônica. Uma em cada três mulheres foi — ou será — vítima de violência durante o seu tempo de vida. Todo ano morrem milhares de pessoas por algum tipo de epidemia. Se esses dados são de fácil acesso, por que não nos indignamos com isso? Grande parte de nossa percepção do mundo é construída pela mídia, sendo que 90% das notícias do mundo são controladas por 15 grandes corporações. Creio ter respondido a pergunta, ou você vai se certificar do que a grande mídia diz sobre isso?”

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