Este coletivo quer acabar com o preconceito contra gays, negros e mulheres no futebol

Respeito Futebol Clube surge em um momento em que intolerância já não é mais aceitável - dentro e fora do campo

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    Um grupo de jornalistas quer acabar com racismo, homofobia e machismo no futebol. Para isso, criaram o Respeito Futebol Clube, que planeja agir diretamente sobre as torcidas organizadas.

    “A democracia no estádio não é para todos. Você pode jogar banana e chamar um jogador de macaco e nada acontece. Mas quando tem uma faixa aberta com um protesto político, é reprimido”, diz Ana Clara Ferrari, jornalista e integrante do grupo. Ela se refere aos recentes atos de protesto político da torcida do Corinthians, cujas faixas foram retiradas pela Polícia Militar.

    Em sua página do Facebook, o Respeito se define como “Movimento contra o preconceito no futebol, dentro e fora de campo, no gramado e nos bastidores, da arquibancada à sala de imprensa”.

    A primeira reunião aconteceu no final de março em São Paulo, e contou com cerca de 40 jornalistas, pesquisadores e membros de ONGs ligadas ao futebol, que debateram racismo e injúria racial. Ainda neste semestre, o grupo planeja realizar eventos similares em Belo Horizonte e Rio de Janeiro, sem data definida. O objetivo é dialogar com grupos de torcedores LGBT e feministas, como o Movimento Toda Poderosa Corinthiana e o Galo Queer para, a partir deles, chegar ao resto das torcidas organizadas.

     

    Segundo Ana, o Respeito F. C. não quer “calar as torcidas”, mas criar condições para que torcedores mulheres, LGBTs e negros se sintam confortáveis no meio futebolístico.

    Para Marcel Tonini, doutorando em história social pela USP e pesquisador de racismo no futebol, casos de preconceito são levantados e esvaziados pelo noticiário com muita frequência. Por isso, avalia que o Respeito Futebol Clube tem o mérito de criar um espaço constante de debate. Mas é pessimista quanto a seus efeitos: “as campanhas são quase inócuas e o preconceito continua”.

    Casos recentes de preconceito no futebol

    Desfile de mulheres do Atlético Mineiro

    Em fevereiro, o clube Atlético Mineiro causou indignação quando apresentou as novas camisetas do time. No desfile, modelos vestiam apenas com uma das peças: ou de camiseta e calcinha, ou de shorts e sutiã. Um dos fatores que inspiraram a criação do Respeito Futebol Clube foram os atos de hostilidade sofridos pelo jornalista Mário Marra, da ESPN, após criticar “a exploração da imagem feminina”.

    Nas redes sociais, muitos chegaram à mesma conclusão:

     

    Torcedores chamam goleiro de macaco

    Em um caso de repercussão nacional de agosto de 2014, a torcida do Grêmio chamou de ‘macaco’ o goleiro Aranha, do Santos, em partida da Copa do Brasil.

    Banana atirada em Daniel Alves

    Casos de preconceito não são exclusividade brasileira. Em abril de 2014, Daniel Alves se preparava para bater um escanteio pelo Barcelona em uma partida contra o Villarreal quando uma banana atirada pela torcida caiu ao seu lado. Alves comeu a fruta, chutou a bola e continuou o jogo. posteriormente, o Villarreal foi multado

    Com mudança de cultura, machismo, homofobia e racismo passaram a ser intoleráveis

    Para Tonini, apenas recentemente machismo, homofobia e racismo passaram a incomodar o suficiente para gerar polêmica e se tornarem tema para iniciativas como o Respeito.

    “Nos últimos 30 anos o Brasil viveu a redemocratização. As pessoas têm sido reeducadas para pensar nos direitos dos negros, das mulheres e de quem gosta do mesmo sexo e estão aceitando menos esse tipo de preconceito.”

    Marcelo Tonini

    doutorando em racismo no futebol pela USP

    Um dos desdobramentos disso é o fato de que preconceito se tornou tema para notícias. “Se acontece um caso no campo, o repórter espera o jogador sair e pergunta a respeito. Há 20 anos, um treinador xingar um jogador de macaco não era motivo para pauta.”

    Posturas de desafio como a de Daniel Alves ou Aranha também seriam impensáveis. “Se eu fosse parar o jogo cada vez que me chamassem de macaco ou crioulo, não tinha jogo”, declarou o ex-jogador Pelé em 2014 ao falar sobre os ataques racistas sofridos por Aranha.

    Estas são as medidas práticas contra preconceito

    Multas para xingamentos homofóbicos

    Posturas homofóbicas têm se tornado menos aceitáveis. Pelo menos em seis jogos a Fifa (Federação Internacional de Futebol) já puniu torcidas organizadas por xingarem jogadores de “putos” ao cobrarem o tiro de meta, uma tradição mexicana que tem se espalhado na última década pela América Latina. Ao contrário da postura adotada pela Fifa, o Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo não considerou o grito, entoado contra o goleiro Rogério Ceni, do São Paulo, homofóbico.

    Manifesto contra grito

    No Brasil, a moda pegou utilizando a palavra “bicha”, o equivalente ao xingamento espanhol. Em 2014, o Corinthians divulgou um manifesto pedindo que a torcida deixasse de entoar o grito quando o goleiro rival se prepara para cobrar o tiro de meta. “A homofobia, além de ir contra o princípio de igualdade que está no DNA corinthiano também pode prejudicar o Timão”, argumentou o time.

     

    Suspensão de torcedores

    Após os ataques de parte da torcida contra o goleiro Aranha em 2014, o Grêmio foi punido com a perda de pontos que o eliminaram da Copa do Brasil. Além disso, torcedores envolvidos nos xingamentos racistas foram suspensos de estádios de futebol. Um despacho de fevereiro de 2016 determinou que eles podem voltar a assistir a partidas, mas devem se apresentar de três em três meses à polícia.

     

     

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