O que o Papa Francisco diz sobre amor, divórcio, gays e aborto

Documento de mais de 200 páginas exprime visão do Vaticano sobre relações amorosas e até sobre o erotismo

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O Papa Francisco publicou na sexta-feira (8) um documento de mais de 200 páginas no qual exprime a visão do Vaticano sobre o amor - das relações gays ao namoro por mensagens de celular, passando pelo uso de métodos contraceptivos, pelo aborto e pelo divórcio.

A exortação apostólica “Amoris Laetitia” (“A Alegria do Amor”, em português) é resultado de dois anos de trabalho do papa com bispos da Igreja e, embora tenha sido considerado flexível em temas como a separação de casais, manteve uma visão da homossexualidade como um mal que aflige as famílias cristãs.

Dado o conservadorismo do Vaticano, mesmo a menor abertura é tida como uma grande mudança. Essa sensação é ainda mais forte por envolver um papa tido como progressista, especialmente quando comparado ao seu antecessor, o alemão Bento XVI, um doutrinário rígido e resistente a mudanças.

Facebook e erotismo

A visão desses religiosos - todos eles solteiros e celibatários - é formada a partir do contato com os fiéis e exprime conclusões advindas das vivências sociais, afetivas e eróticas de terceiros. Ainda assim, o documento chega a ser bem específico, como quando fala do papel das redes sociais nos namoros: os jovens “creem que o amor, como acontece nas redes sociais, se possa conectar ou desconectar ao gosto do consumidor e inclusive bloquear rapidamente.”

O documento também fala do erotismo. Francisco recupera falas do Para João Paulo II segundo as quais a sexualidade, em seu aspecto mais corpóreo, “é não só fonte de fecundidade e de procriação”, mas traz “a capacidade de exprimir o amor: exatamente aquele amor em que o homem-pessoa se torna dom”. Francisco diz ainda que “o erotismo mais saudável, embora esteja ligado a uma busca de prazer, supõe a admiração e, por isso, pode humanizar os impulsos”.

Para além desses aspectos, três grandes áreas mereceram atenção especial do Papa Francisco.

Divorciados

O texto afirma que “o divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios” e mantém a proibição da comunhão para essas pessoas. Adverte, porém, que elas “podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral”. A abertura, pequena, é tida como importante, pois mescla a doutrina rígida com o discernimento pastoral de cada religioso, em cada comunidade, reforçando os aspectos de acolhimento e de perdão em vez da rigidez do julgamento.

Gays

Francisco falou dos gays como pessoas “com tendência homossexual”, afirmando que “a experiência não é fácil nem para os pais nem para os filhos”. O papa também se referiu à “orientação” sexual dos gays, o que é rechaçado em muitas comunidades, por atribuir à homossexualidade um caráter menos endógeno e mais de “orientação” externa, alheia ao que o indivíduo simplesmente “é”. Apesar disso, Francisco afirmou que “cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito”, dispondo “dos auxílios necessários para compreender e realizar plenamente a vontade de Deus na sua vida”.

“As uniões de fato ou entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, não podem ser de maneira simplista equiparadas ao matrimônio”

Papa Francisco

Líder máximo da Igreja Católica Apostólica Romana

Aborto

Neste ponto não houve recuo ou novidade. Francisco reafirmou que “de modo nenhum se pode afirmar como um direito sobre o próprio corpo a possibilidade de tomar decisões sobre esta vida [de um embrião ou feto], que é fim em si mesma e nunca poderá ser objeto de domínio de outro ser humano”. Além do aborto, o Papa mencionou também, embora de maneira mais sutil, o uso de métodos contraceptivos, dizendo que as pessoas consideram o uso destes métodos “como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se”.

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