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Renan governista e Renan oposição: quatro situações para entender o presidente do Senado

Com discurso dúbio, o presidente do Senado mantém diálogo aberto com os dois lados da crise

     

    Poucos personagens da política nacional têm se mostrado tão imprevisíveis como o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Desde que Dilma Rousseff assumiu o segundo mandato, o peemedebista transita entre apoio e críticas ao governo.

    Em meio à crise política que coloca de um lado o governo e do outro o PMDB (além, é claro, de vários outros atores), Renan dá alguns sinais, mas evita se posicionar claramente.

    “Renan joga para si”

    Carlos Melo

    Cientista Político

    Na terça-feira (5), após o senador Romero Jucá (PMDB) falar em antecipar o mandato da presidente Dilma Rousseff, Renan mais uma vez contemporizou. O presidente do Senado disse ser favorável à antecipação de eleições e citou até uma mudança de sistema político no Brasil. Mas pontuou: se a petista tiver que sair antes, deputados e senadores também terão de fazer o mesmo.

    Na prática, Renan piscou para o PMDB e para o Palácio do Planalto - afinal, Dilma, nesse mesmo dia, havia ironizado a proposta de Jucá, dizendo que topa discutir o assunto se os parlamentares também toparem uma mudança geral em Brasília.

    “Eu, sinceramente, vejo com bons olhos essa coisa da eleição geral. Acho que se a política não arbitrar saídas para o Brasil, nós não podemos fechar nenhuma porta, deixar de discutir nenhuma alternativa, nem essa de eleição geral, nem a de fazer uma revisão no sistema de governo, e até identificarmos o que há de melhor no parlamentarismo e no presidencialismo”

    Renan Calheiros

    05/04/2016

    Por que Renan é importante

    Na configuração atual da crise, Renan tem poder sobre parte do PMDB, maior partido do Brasil, com força na Câmara e no Senado. No que se refere aos deputados, sua influência é limintada. São eles que vão lidar com a primeira parte do impechament.

    O pedido de afastamento da presidente está no início. Uma comissão especial da Câmara vai dar um parecer sobre o assunto. Depois, o caso vai para o plenário. Se o impeachment passar ali, Dilma não está automaticamente afastada do cargo. É preciso que o Senado referende a decisão. É aí que entra Renan. Ele mantém influência entre os senadores e pode ser determinante nesse momento mais crítico do Planalto: o momento do afastamento da petista.

    Renan é um hábil articulador. Foi de líder do governo de Fernando Collor a apoiador do impeachment do ex-presidente. Foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso e aliado de Luiz Inácio Lula da Silva.

    O alagoano está em sua terceira passagem pela presidência do Senado, sempre com o apoio do Planalto. Ao mesmo tempo em que promete apoio a Dilma, Renan trabalha com a oposição em projetos importantes, como o que muda o regime de exploração do pré-sal de autoria do tucano José Serra.

    No final de março seu partido anunciou o rompimento do governo petista, do qual faz parte desde 2004. Renan fez ressalvas à decisão. Mas nem por isso se transformou num defensor aberto do mandato da presidente. Abaixo, o Nexo selecionou alguns momentos que mostram a dubiedade do presidente do Senado.

    Saída do PMDB foi “pouco inteligente”

    Apenas dois dias depois da saída oficial do PMDB no governo, o presidente do Senado disse a jornalistas que a decisão havia sido “precipitada” e “pouco inteligente”. A fala foi o sinal mais claro de que nem todo o PMDB concordava com o movimento orquestrado pelo vice-presidente Michel Temer. As declarações foram bem recebidas pelo governo, que busca votos de dissidentes do PMDB contra o impeachment.

    “Essa reunião do PMDB sem dúvida foi uma reunião precipitada, porque havia um acordo na convenção partidária, que elegeu a chapa única, que as moções seriam apreciadas apenas pelo diretório e não naquela convenção. Aquela convenção, era o acordo, elegeria a chapa única que tinha como presidente do partido, o presidente Michel Temer, com a participação das demais correntes partidárias.”

    Renan Calheiros

    01/04/2016

    Parlamentarismo e menos poderes a Dilma

    Em parecer enviado ao Senado, Renan defendeu a adoção do parlamentarismo. Nesse modelo, a Presidência da República perderia as atribuições de chefia do governo, que ficaria a cargo de um primeiro-ministro escolhido pelo Congresso. Isso significa a possibilidade de esvaziar o poder de Dilma.

    O STF decide na quarta-feira (6) se a mudança no sistema político precisa ser aprovada por plebiscito ou pode acontecer apenas com a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição, que não necessita de sanção do Poder Executivo.

    “Não é que o parlamentarismo suprime a separação ou a independência entre os poderes. O que ocorre é que otimiza outro princípio igualmente importante é o da harmonia entre Legislativo, Executivo e Judiciário”

    Parecer enviado ao STF assinado por Renan Calheiros e advogados do Senado

    01/04/2016

    Impeachment longe do Senado

    Pelo rito definido no Supremo Tribunal Federal, se o pedido de impeachment for aprovado na Câmara, o julgamento acontecerá no Senado. Mas Renan “espera” que o processo não chegue lá. Para isso, o governo teria que derrotar o pedido na Câmara.

    A declaração foi interpretada como mais um passo governista e desagradou a oposição, que teme que a discussão se arraste no Senado. O presidente do PSDB, Aécio Neves, já havia acusado Renan  de demonstrar “solidariedade pessoal à presidente”.

    “Eu acho que, se esse processo chegar no Senado, e espero que não chegue, nós vamos juntamente com o Supremo Tribunal Federal decidir o calendário. A Constituição prevê que esse julgamento aconteça em até seis meses”

    Renan Calheiros

    29/03/2016

    Governo não tem iniciativa

    Ao contrário de Eduardo Cunha, Renan foi eleito presidente do Senado com o apoio do governo. Mas pouco mais de dois meses depois da vitória, já não poupava o Planalto em suas declarações. Na véspera do feriado de 1º de maio, quando, temendo panelaços, a presidente Dilma optou por não fazer pronunciamento em cadeia nacional, Renan fez duras críticas.

    “O governo não tem agenda, não tem iniciativa, há um vazio evidente que fragiliza o governo. [...] Essa coisa da presidente da República não poder falar no dia 1º porque não tem o que dizer é uma coisa ridícula”

    Renan Calheiros

    30/04/2015

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