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Primeiro governo civil em 54 anos assume Mianmar. Quais os desafios

Depois de meio século de ditadura, ativista que recebeu o Nobel da Paz chega ao poder num dos países mais pobres da Ásia

     

    Mianmar deu posse na quarta-feira (30) ao primeiro presidente civil da história do país em 54 anos. Juntamente com o novo presidente, Htin Kyaw, chega ao poder também a líder histórica da oposição Aung San Suu Kyi, que havia sido eleita para o cargo em 1990, mas foi posta em prisão domiciliar por 20 anos. Suu Kyi será chefe da Presidência, numa arranjo que, na prática, manterá a líder carismática acima do novo presidente.

    A eleição de 1990, vencida por Suu Kyi foi anulada pelo regime que governava o país à época. Em 2007, o país foi varrido por uma onda de manifestações populares, dando início a uma abertura gradual e recalcitrante.

    Em 2008, o regime promoveu uma ampla reforma constitucional. Em tese, era um passo rumo à flexibilização, mas a lei eleitoral ganhou um dispositivo que parecia feito sob medida para impedir que Suu Kyi chegasse alguma vez a assumir o governo.

    A lei proibia que mães de filhos estrangeiros, ou de dupla nacionalidade, disputassem a Presidência. Essa era precisamente a situação de Suu Kyi. Ela é mãe de dois meninos que nasceram em Londres, fruto do casamento com um acadêmico britânico morto em 1999.

    Em 2015, houve novas eleições o candidato Htin Kyaw, do mesmo partido de Suu Kyi, o NDL (Liga Nacional pela Democracia, da sigla em inglês) venceu. Htin Kyaw assumiu em 30 de março de 2016 e, no dia 1 de abril, deu posse a Suu Kyi como chefe de seu governo.

    Décadas de guerra civil

    O país está em guerra civil desde que se tornou independente, em 1948. A maioria birmanesa enfrenta dezenas de outros grupos menores que habitam as zonas montanhosas fora do centro do território nacional. Há mais de 135 grupos étnicos. Na raiz dos conflitos atuais está a disputa por controle sobre recursos naturais.

    O conflito municiou de argumentos a ditadura durante todos esses anos. O governo é controlado pela maioria birmanesa e budista (68%), que nega direitos e controla à força regiões de minoria muçulmana, entre outras.

    O especialista em sul da Ásia do centro de estudos americano Brookings Institute, Lex Rieffel, listou cinco desafios do novo governo de Suu Kyi:

    Agenda complicada:

    Dependência dos militares

    O novo governo é de oposição aos militares, mas dependerá deles para manter a estabilidade interna, dado o contexto de enfrentamento ainda existente em muitas áreas do país.

    Divisão no Parlamento

    Câmara e Senado seguirão tendo forte presença de parlamentares ligados aos militares, o que pode dificultar ou impedir reformas propostas por Suu Kyi.

    Burocracia

    Meio século de governos militares criaram uma casta de burocratas pouco afeitos à meritocracia, o que deve emperrar a máquina estatal, agora liderada por personalidades que fazem da mudança uma bandeira.

    Recursos naturais

    Mianmar tem grandes reservas de água (hidroelétricas), gás e minerais, mas priorizou um modelo exportador, dependente do consumo chinês, mais do que um modelo que satisfaça as necessidades internas. Mudar essa matriz terá consequências econômicas.

    Agricultura

    Mais de 70% das famílias dependem a agricultura. Apesar disso, o setor foi negligenciado pelos militares. O partido de Suu Kyi prometeu aumentar a renda dessas famílias, mas os resultados podem demorar a aparecer. O mandato, de cinco anos, corre o risco de não ser suficiente e a decepção pode frustrar planos futuros de Suu Kyi.

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