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Quais são os resultados de políticas de redução de danos para usuários de crack

Por que programas como o De Braços Abertos conseguem diminuir o uso da droga entre populações vulneráveis

 

A prefeitura de São Paulo divulgou os resultados mais recentes do programa social De Braços Abertos, que tem como objetivo dar moradia em hotéis, ofertas de emprego, alimentação e capacitação profissional para usuários de crack que se reuniam no centro de São Paulo para usar a droga.

Segundo os dados oficiais, 88% dos participantes do programa afirmaram ter reduzido o consumo de crack em média em 60% - de 42 pedras por semana para 17. A pesquisa foi feita com 400 pessoas.

Para especialistas em políticas de redução de danos, o resultado é positivo porque leva em conta que o uso nocivo da droga para aqueles usuários é resultado de vulnerabilidades sociais.

“No caso do usuário de crack em situação de rua, não estamos só falando de pessoas que estão assoladas pelo flagelo de uma droga. Tem a questão da vulnerabilidade social. Se você oferece uma política pública de inclusão social, percebe uma redução na quantidade de uso e até no número de usuários”, diz o médico psiquiatra Luís Fernando Tófoli, professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

A área no centro de São Paulo onde usuários de crack se reúnem para comprar e usar a droga ficou conhecida como Cracolândia. Para Tófoli, o contexto específico do local só poderia ser quebrado com políticas públicas integradas.

“Trata-se de um grupo de pessoas majoritariamente egresso do sistema prisional ou socioeducativo. Ele [o usuário] é muito vulnerável socialmente, usa a droga, é preso como traficante, sai, usa de novo e entra em um ciclo vicioso que precisa ser quebrado.”

A redução de danos leva em conta que a gravidade do uso da droga não deve ser avaliada somente pela quantidade. Também são analisadas suas metas sociais e profissionais, seus objetivos de vida e o impacto do uso na saúde mental, por exemplo. “Colocar todo usuário no mesmo balaio é aumentar o estigma”, explica.

Redução de danos troca abstinência pelo uso equilibrado

A redução de danos aplicada ao uso de drogas é representada por uma série de medidas pragmáticas que têm por objetivo cuidar da saúde de pessoas que não conseguem ou não desejam abstinência como solução para resolver um problema com drogas.

Nesse caso, a redução de danos considera que existe um meio termo possível entre ser usuário de drogas com problemas sociais e psicológicos em decorrência do uso e não usar droga nenhuma: o uso equilibrado através de práticas responsáveis do consumo.

Trata-se de uma estratégia controversa para combater os problemas sociais causados pelo uso de drogas e que costuma gerar debate na sociedade. No entanto, costuma ser defendida por especialistas nas áreas de políticas públicas de saúde e organizações sociais especializadas no tema.

Como as políticas públicas de combate ao uso de drogas costumam priorizar a abstinência, a ideia de que é possível buscar saúde mesmo sem interromper completamente o uso é um paradigma. “As pessoas nem sabem que existe uma alternativa [à abstinência para tratar problemas com drogas]”, explica Tófoli.

Programa da prefeitura sofre críticas

O programa De Braços Abertos tem mostrado alguns resultados positivos, mas também sofre críticas pela falta de transparência nos resultados, planejamento adequado e estrutura.

Em artigo no site do jornal “O Estado de S. Paulo”, o jornalista e cientista político Bruno Paes Manso afirma que o programa ainda tem uma equipe reduzida e treinamento insuficiente dos profissionais para lidar com os usuários de drogas da maneira planejada originalmente.

Segundo Manso, também falta transparência e avaliações mais detalhadas dos resultados do programa. Outra reportagem, esta da revista “Veja São Paulo”, relata condições insalubres de alguns dos hotéis fornecidos pela prefeitura.

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