Ir direto ao conteúdo

Professores não têm formação adequada no Brasil. Mas esse não é o único problema

Cerca de 40% dos professores da rede pública não são formados na área da disciplina que lecionam. Salários baixos, falta de valorização profissional e más condições de trabalho também fazem parte dessa realidade

     

    Quatro em cada dez professores que dão aulas em escolas públicas do país não têm formação adequada para a disciplina que lecionam. O dado foi divulgado pelo Ministério da Educação na segunda-feira (28), junto com o anúncio de um novo plano de formação para professores, que visa corrigir a distorção e adequar os números às metas de educação do Brasil.

    Os dados, do Censo de Educação de 2015, mostram que de mais de 518 mil professores, 200 mil dão aulas em uma área diferente da que se formaram. Na disciplina de física, por exemplo, mais de 68% dos professores são formados em outras áreas. Geografia, história e ciências também têm uma alta porcentagem de formação inadequada. Além disso, 12% dos professores sequer completaram o ensino superior.

    Para o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, isso acontece por causa dos baixos salários e da falta de atratividade da profissão - e se reflete na falta de interesse dos alunos.

    “Precisamos de 19 mil professores de física, mas só formamos 1.826 físicos por ano. É impossível que um professor consiga encantar os alunos ministrando uma disciplina que ele mesmo não fez,”

    Aloizio Mercadante

    Ministro da Educação

    Para quem acompanha indicadores na área, os números apresentados pelo ministério não são exatamente novidade. O Observatório do Plano Nacional de Educação, que monitora os índices, já mostrava que o país estava longe de cumprir a meta de formação de professores.

    Na Educação Básica, por exemplo, 74% dos professores têm ensino superior - a meta para 2015, não cumprida, era que 100% dos docentes tivessem essa formação. No Ensino Fundamental, apenas 32% dos professores têm licenciatura na disciplina em que lecionam. No Ensino Médio, o número sobe para 48% - mas ainda está longe da meta de 100% prevista para 2014.

    O programa que o governo lançou na segunda-feira prevê a criação de 105 mil vagas para formação de professores da rede pública. Os cursos serão oferecidos tanto presencialmente em universidades e institutos federais quanto à distância, na Universidade Aberta do Brasil.

    Para o ministro, investir na formação é “o ponto mais estratégico para melhorar a qualidade da educação” no país. Ele garante que não faltará vagas para professores se formarem.

    Salário, boas condições e valorização são fundamentais

    A formação superior para professores está prevista na Lei de Diretrizes e Bases, que estabelece princípios para educação no país, em vigor desde 1996. Ela determina que todos os professores devem ter ensino superior, inclusive os da educação básica.

    Mas a questão é mais complexa do que a simples formação do professor. Qual é o currículo para o exercício do magistério? De que maneira a formação do professor se relaciona com o projeto pedagógico da escola em que ele leciona? Essas são questões levantadas ao Nexo por Alejandra Meraz Velasco, superintendente do Movimento Todos pela Educação.

    Além disso, é preciso melhorar a atratividade da carreira. No Brasil, o piso salarial para professores é de R$ 2.135,64  - mas vários Estados pagam menos do que isso. De maneira geral, professores ganham menos do que outras categorias profissionais com formação semelhante. “Não é apenas um bom salário, mas também boas condições de trabalho, uma carreira atraente e estimulante”, exemplifica Alejandra.

    O Brasil é um dos países que têm o menor índice de valorização da carreira de professor e está no topo do ranking mundial de violência contra professores. Cerca de 12,5% dos professores ouvidos em uma enquete da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) disseram ter sofrido algum tipo de violência.

    Os brasileiros concordam que a educação é importante e acham que a profissão de professor deveria ser valorizada, segundo pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).  Mas só 15% dos entrevistados gostariam de se tornar professores.

    “Os pais, os alunos do Ensino Médio, não desejam se tornar professores. Se criou um imaginário que o magistério não é uma profissão fácil”, diz Alejandra. Para ela, não basta investir em programas de formação para os professores. É preciso atuar na valorização da carreira. “Um bom professor tem um impacto muito grande na formação dos alunos”, diz.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!