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O que pensam os que não se identificam nem com um lado nem com o outro da crise

Em meio à polarização cada vez mais radical, cresce o grupo de pessoas que, sem abrir mão de suas posições políticas, criticam propostas que circulam de ambos os lados

     

    No domingo (13), 500 mil pessoas, segundo o Datafolha, foram à avenida Paulista pedir o impeachment da presidente da República. Na sexta (18), 95 mil, segundo o mesmo instituto, estiveram na avenida em defesa do mandato de Dilma Rousseff.

    No resumo dos protestos, os extremos sobressaem e as nuances acabam aplainadas. Mas, nas ruas, as opiniões são mais plurais do que parecem. Além dos manifestantes que se alinham com um e outro lado, há muitos cidadãos que matizam seus pontos de vista, concordando e discordando, em partes, do que é defendido pelos dois extremos das marchas.

    Sem ficar em cima do muro e sem fugir do debate, eles criticam o que consideram excessos e apelam por uma convergência possível. O Nexo lista argumentos de três pessoas com esse perfil. Elas não representam nenhum grupo particular, mas suas posições são representativas desse setor que acaba não aparecendo com tanta frequência.

    ‘Não há polarização no fim, mas nos meios’

    Caio Tendolini é economista e ativista, filiado à Rede Sustentabilidade e eleitor de Marina Silva no primeiro turno das eleições presidenciais de 2014. No segundo, ele anulou. Tendolini esteve na manifestação do MPL (Movimento Passe Livre), em janeiro, protestando contra o aumento no preço das tarifas de transporte público em São Paulo, mas não foi às ruas pedir o impeachment ou defender o mandato de Dilma.

    Na terça-feira (22), Tendolini resumiu num post nas redes sociais seu sentimento sobre a onda de polarização:

    “Combater a corrupção e defender a democracia não são excludentes”, disse o economista. “O que está polarizado não são essas duas coisas, mas sim os grupos de poder, que, para se defender, atrelam o combate à corrupção ao impeachment e a defesa da democracia à continuidade desse governo. O que precisamos é encontrar uma narrativa que una as duas coisas, encontrar o caminho que permita que combatamos a corrupção enquanto se fortaleça a democracia”. Para ele, “não há uma polarização nos fins, mas sim nos meios. E precisamos de atores, nos mais diversos lugares, que estejam dispostos a assumir essa posição”.

    Tendolini diz que “no ‘combate à corrupção’, muita gente não cai no adendo ‘que é feita pelo PT’. Na ‘defesa da democracia’, muitos não engolem o ‘garantida só pelo PT’.”

    Gente que ‘não se satisfaz com o impeachment ou a prisão’

    O publicitário Mentor Neto votou em branco nas eleições presidenciais de 2014, pois “não acreditava em nenhum dos candidatos” e “refuta a ideia” de ser “obrigado a escolher o menos pior”.

    Hoje, ele defende o impeachment “desde que haja comprovação de crimes de responsabilidade”. O publicitário critica “gente que não se satisfaz com o impeachment ou prisão”, que “quer a morte, o fuzilamento, o sangue de Lula e Dilma”. Ao mesmo tempo, ele desaprova “o outro lado”, onde “o desprezo é absoluto por qualquer um que não apoie o PT”, onde “qualquer bem durável é coisa de coxinha”. Para Neto, “o espaço que separa esses dois extremos é o vácuo de ideias e de bom senso”.

    O publicitário reclama do reducionismo segundo o qual “as manifestações do PT são à custa de sanduíches de mortadela. As manifestações anti-PT são para tirar selfie.” Neto considera que “Lula está vivo e é perigoso e raivoso. Assim como é perigosa e raivosa sua oposição”.

    No protesto anti-impeachment, mas sem ‘cheque em branco’ ao PT

    O jornalista e fundador do Estúdio Fluxo, Bruno Torturra, votou, no primeiro turno das eleições presidenciais de 2014, na candidata Luciana Genro (PSOL) e, no segundo turno, em Dilma. “Não me arrependo, pois nunca foi um voto confiante, mas ela [Dilma] me decepcionou além das minhas baixas expectativas”, diz Torturra.

    Ele esteve no protesto contra o impeachment no Rio de Janeiro, no dia 18 de março, mas se sentiu “muito desconfortável por ela ser uma marcha governista, de defesa de Dilma e Lula”. O jornalista diz, entretanto, que sentiu “lá no meio muita gente que não assina mais um cheque em branco para o PT, muita gente que não concorda com a ida de Lula para a Casa Civil, muita gente que reconhece que a Dilma é um bode expiatório para que, depois da queda dela, se pacifique a política brasileira”.

    Torturra diz que “o campo mais difícil de ser mapeado é o dos ‘desidentificados’, que reúne pessoas que estão numa posição incômoda e desconfortável”, no qual ele se inclui.

    Ele se diz “claramente contra esse impeachment que está colocado”, mas não o chama de “golpe, pura e simplesmente”, pois acha que “existe um campo golpista, mas ele está dentro de um universo mais complexo, tentando tomar o poder usando os protestos de forma oportunista”. Para ele, “a saída da Dilma está baseada mais em raiva do que numa visão futura”.

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