Foto: Panther Media

Metodolgia de Jacobs de contagem por quadrantes
 

A estimativa do número de pessoas que comparecem a manifestações de rua é uma informação importante e útil, mas sua determinação é difícil e muitas vezes controversa. Num momento em que inúmeros protestos ocorrem por mês no país e que o saldo das manifestações é disputado entre os diferentes grupos,  é oportuno examinar como essas estimativas são feitas e quanta imprecisão pode haver.

O que interessa a todos é simples: quantas pessoas estiveram num dado protesto em um dado local e data? Mas responder a essa pergunta não é tão simples. Informações divulgadas no Brasil por organizadores, polícia militar e institutos de pesquisa (notoriamente o Datafolha, que tradicionalmente faz as contagens) são muitas vezes extremamente discrepantes.

Um exemplo: segundo a Polícia Militar de São Paulo, no último domingo (13), "aproximadamente, 1 milhão e 400 mil pessoas estiveram presentes no horário de pico (16h15), durante a manifestação ocorrida na Região da avenida Paulista"; já segundo o Datafolha, ao medir o mesmo evento, "em contagem final, cerca de 500 mil pessoas estavam presentes na região da Av. Paulista". Há uma enorme diferença entre 1 milhão e 400 mil pessoas e 500 mil pessoas. É como comparar o Maracanã lotado com o Brinco de Ouro, em Campinas, quase cheio.

A relação entre os números da Polícia Militar e do Datafolha no caso da manifestação do último domingo (13) se inverte na contagem do protesto da última sexta-feira (18). Neste caso, o Datafolha estimou um volume maior de pessoas: 95 mil manifestantes ao todo, contra 80 mil segundo a PF.

O Nexo apresenta a seguir as metodologias utilizadas pelo Datafolha e pela Polícia Militar de São Paulo, além de algumas  técnicas empregadas ao redor do mundo para contagem de multidões.

Como o Datafolha conta multidões

A metodologia do instituto de pesquisa é bastante intuitiva e largamente utilizada ao redor do mundo. Foi criada pelo professor de jornalismo Herbert Jacobs em 1967. O Datafolha divide a área da manifestação em pequenos setores separados em lotes de 1 metro quadrado e distribui profissionais para caminharem ao longo do espaço fazendo a contagem de pessoas por lote ao longo do tempo. A avenida Paulista, por exemplo, segundo o instituto, tem uma área de 136 mil metros quadrados, incluindo o canteiro central, calçadas, o vão livre do MASP e os túneis da Praça do Ciclista. Os profissionais do Datafolha espalham-se ao longo de sua extensão e anotam o número de pessoas que estimam estarem ocupando cada pequeno quadrado. Esta técnica leva em conta um dado fixo, que é a área total do espaço da manifestação, e a parte de estimação se refere à densidade em cada lote da avenida.

Em matéria explicativa sobre o método utilizado pelo Datafolha na Folha de São Paulo, há um vídeo que menciona que na manifestação do dia 15 de março de 2015, 30 profissionais do instituto caminharam pela Paulista observando, a cada hora, a média de pessoas em cada metro quadrado. Considerando que a avenida tem uma extensão de 2700 metros, cada profissional cobriu 90 metros de extensão. 

O Datafolha também entrevista manifestantes perguntando há quanto tempo estão no ato.

Como a Polícia Militar de São Paulo conta multidões

Segundo a polícia, a contagem é feita "pelo programa COPOM online, que realiza o georreferenciamento da área, definindo polígonos de concentração de pessoas por meios de inúmeras fotos aéreas e terrestres". Isto significa que as diversas fotos, terrestres ou feitas por helicópteros da PM, são processadas para que sejam conhecidas as coordenadas geográficas exatas de seus alvos, sendo a contagem feita a partir da adição de polígonos com densidades de pessoas estimadas a partir das fotos, sem que ocorra dupla contagem de áreas (justamente por conta do georreferenciamento, que define a localização exata de cada foto).

Ao divulgar o número de manifestantes no protesto de 13 de março de 2016, a PM esclarece que foram contabilizadas as quantidades de pessoas na "própria avenida Paulista, alameda Santos, rua São Carlos do Pinhal e todas as transversais". Este método, portanto, cobre uma área maior do que a avaliada pelo Datafolha.

Outros métodos utilizados ao redor do mundo

Balão com bateria de câmeras

Esta técnica envolve um balão do tamanho de uma mini-van com uma bateria de câmeras acopladas que sobrevoa o protesto e tira milhares de fotos de diferentes alturas (evitando a não contagem de pessoas embaixo de árvores ou coberturas). As fotos são processadas e a densidade de cada área é avaliada para que a contagem seja completada. Esta parte é semelhante ao método de Jacobs.

Utilização de sinal de celular ou uso de Twitter

Esta metodologia se resume a utilizar dados georreferenciados de uso de celulares e Twitter. A técnica tem a vantagem de ser extremamente rápida, não envolver julgamento humano e ter maior precisão. Por outro lado, funciona apenas nos casos em que a utilização de celulares do tipo smartphones e do aplicativo Twitter seja bastante disseminada e ainda homogênea entre públicos de diferentes protestos.

Contagem por estações estáticas em protestos móveis

Esta técnica serve para casos de protestos em que os manifestantes se locomovem ao longo de um trajeto conhecido. A contagem é feita em duas unidades de inspeção fixas, preferencialmente no início e no final do percurso.

Os desafios da contagem de pessoas em manifestações de rua

De volta à contagem das manifestações no Brasil, em locais como a avenida Paulista, a praia de Copacabana ou o Farol da Barra, as principais dificuldades para a estimação do número de pessoas, independentemente do método, são:

Rotatividade e número total de pessoas diferentes

As ruas não têm portões nem bilhetes de entrada. Pessoas entram e saem das manifestações ao longo do tempo, e a medida que interessa é a de quantas pessoas estiveram ali no total ao longo do dia.

A contagem da polícia, por georeferenciamento, fornece uma estimativa do número de manifestantes num dado momento, como uma fotografia. O Datafolha muitas vezes abre os números da quantidade de pessoas por hora no ato, e mostra também o número de "pessoas diferentes" que estiveram na manifestação.

A rotatividade de pessoas durante o período de duração do ato é um desafio para a estimação do total de pessoas que estiveram presentes. Digamos que haja na manifestação 100 mil pessoas às 16:00hs e 130 mil pessoas às 17:00hs. Como saber se 30 mil novas pessoas chegaram ou se 15 mil foram embora e 45 mil chegaram? (no primeiro caso, o total de pessoas diferentes presentes no ato seria de 130 mil, no segundo de 145 mil). No caso limite, se as 100 mil deixaram a manifestação e todas as 130 mil são pessoas novas, o total de pessoas diferentes presentes passaria para 230 mil. O Datafolha pergunta às pessoas há quanto tempo estão no ato justamente para estimar esta rotatividade, que pode ser muito relevante.

Delimitação da área

A definição da área em que o protesto ocorre para efeitos de contagem, apesar de necessária, nem sempre cobre toda a extensão em que há pessoas se manifestando.

Manifestações simultâneas

A ocorrência de manifestações simultâneas em vários pontos da cidade ou protestos móveis sem um trajeto único pré-definido (como no caso, por exemplo, do Movimento Passe Livre em 2013) tornam a contagem extremamente difícil e imprecisa.

Não é só no Brasil que há discrepâncias

Seguem aqui apenas alguns exemplos mencionados por Ray Watson e Paul Yip em paper sobre a contagem de massas. Há vários outros.

  • Em outubro de 1995, ocorreu em Washington, nos EUA, a "Marcha de Um Milhão de Homens", uma manifestação de ativistas sociais negros. Em função do nome dado ao evento, a contagem da quantidade de pessoas presentes neste caso era fundamental. Terminada a marcha, os organizadores estimaram o número de presentes entre 1,5 e 2 milhões de pessoas. A polícia em 400 mil e a Universidade de Boston em 870 mil (posteriormente). A partir deste episódio, a United States Park Police (através do National Park Service) deixou de divulgar estimativas da quantidade de pessoas em manifestações de rua.
  • Quando o príncipe William e Kate Middleton se casaram em 2011 em Londres, as estimativas ficaram entre 500 mil e 1 milhão de pessoas acompanhando o matrimônio nas ruas.
  • Na primeira cerimônia de posse de Barack Obama como presidente, em 2009, as estimativas da prefeitura de Washington foram de que 1,8 milhões de pessoas acompanharam o ato. O dado foi reavaliado por um professor da Universidade do Arizona em 1,1 milhão.

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.