Como discutir política no almoço deste domingo e continuar na família

O ambiente familiar é, por essência, antidemocrático, diz psicanalista. É por isso que esses eventos se tornam palcos de conflitos

     

    Pais chamam filhos de petralhas, sobrinhos chamam tios de coxinhas enquanto avós encaram desoladas a macarronada esfriando na mesa. A escalada da distensão política tem gerado cenas de violência nas ruas e promete indigestão no almoço deste domingo.

    No centro da pauta de discussão dos últimos dias está a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro, apontada por alguns grupos como uma estratégia para garantir foro privilegiado. A posterior suspensão da nomeação pelo Supremo Tribunal Federal, e também o vazamento de um grampo sobre uma conversa entre Lula e a presidente Dilma Rousseff, acenderam o debate sobre a legalidade das investigações.

    Para Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, o clima de expectativa sobre se o governo atual continuará ou não no comando e o debate sobre se a Justiça e o Congresso estão recorrendo a um vale-tudo têm feito com que as pessoas encarem quem discorda como um obstáculo à concretização daquilo que acreditam ser o melhor cenário - nesse caso, a permanência ou queda do governo.

    Em geral, as pessoas enxergam pensamentos diferentes como enriquecedores. “Mas nesses momentos de distensão vemos os outros não como um sujeito, mas como obstáculo na frente do melhor para aqueles que amamos”, diz Dunker, em entrevista ao Nexo.

    A fotógrafa Manoela Lemos, 31, rompeu por Whatsapp com uma parte da família nas últimas eleições para presidente. Em meio a uma sucessão de memes e links antigoverno, questionou um de seus primos sobre um programa de bolsas para universitários do qual ele era beneficiário.

    Como resposta, seu tio afirmou que ela era “uma babaca de esquerda que tinha passado em uma universidade federal e hoje em dia não era ninguém”. Manoela abandonou o curso de direito para se dedicar à fotografia.

    Desde então, saiu do grupo do Whatsapp da família e deixou de frequentar as festas de final de ano.

    Segundo Dunker, esse tipo de polarização é comum porque, enquanto o espaço político é tido como democrático, o espaço familiar é, por essência, antidemocrático.

    “Na família existe essa hierarquia não flutuante, que entra em crise quando as pessoas começam a testar seus lugares. Um tio se enxerga como autoridade, porque é mais velho. E em um momento como o atual, sente que faz parte de um grupo gigante. A aparição de um sobrinho que diz ‘não penso assim’ questiona essa hierarquia e gera conflitos”

    Christian Dunker

    Psicanalista, professor do Instituto de Psicologia da USP

    Como desarmar o clima de tensão

    Para Dunker, a conversa do almoço de domingo é improdutiva porque geralmente começa com um ataque, respondido por outro. A escalada de agressividade faz com que todo argumento seja encarado com descrédito completo, uma atitude no estilo “eu já sei exatamente o que ele vai falar e não preciso ouvir nada”.

    Como antídoto, o professor recomenda o uso moderado de humor, e uma atitude na linha “tem muita coisa que eu não concordo com você, mas você está certo nesse ponto fundamental”. Isso significa não só se abrir de fato para os argumentos do interlocutor, mas também desarmá-lo para os seus.

    Para manter os relacionamentos, ele ainda sugere desassociar as pessoas das suas ideias. “É preciso poder dizer amo essa pessoa, odeio essas ideias, e não reduzi-las ao que elas pensam de diferente de você.”

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