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O que acontece quando você só vê opiniões parecidas com as suas

Comportamento nas redes sociais exacerba a polarização. E isso é perigoso para o debate democrático

    Chamaram de ‘filtro bolha’ (‘filter bubble’) o isolamento espacial de informação dentro do qual todos estamos quando usamos redes sociais como Facebook e Twitter. Essas ferramentas funcionam com o auxílio de algoritmos, fórmulas matemáticas que usam uma série de variáveis para determinar o conteúdo que exibem para você.

    “Acabamos vendo o mundo pela lente das redes sociais. E amizades no Facebook são diferentes de amizades na vida real.”

    Christian Sandvig

    Professor de Comunicação na Universidade de Michigan, em entrevista ao Nexo

    A ideia, em si, não é de todo mal: a rede social quer exibir ao usuário apenas o que ele quer ver. Mas fomenta a polarização do debate político e tem outras consequências para a criatividade e o pensamento crítico, de acordo com cientistas.

    Usuário se conecta com o que tende a concordar

    O filtro bolha e esse isolamento de grupos que pensam diferente são consequências de um fenômeno chamado viés de confirmação, um viés cognitivo cujo efeito é chamar nossa atenção e aprovação para notícias e opiniões que reforcem nossas crenças pré-existentes.

    Isso se reflete no comportamento de usuários nas redes sociais. O viés de confirmação faz com que o usuário se conecte apenas com quem concorde com o que ele diz e curta posts na mesma linha. E a rede social transforma essas ações em fórmulas para exibir mais conteúdo parecido com aquele.

    “O filtro bolha tende a amplificar dramaticamente o viés de confirmação. De certa forma, ele é feito para isso. Consumir informações que corroborem com suas ideias de mundo é fácil e prazeroso; consumir informações que nos desafiem a pensar de novas formas ou questionar nossas presunções é frustrante e difícil.”

    Eli Pariser

    Autor do livro The Filter Bubble

    Resultado: se você for como os 60% das pessoas que se informam usando as redes sociais, as informações que chegam ao seu feed de notícias só estão lá porque têm boas chances de que você concorde com elas.

    Polarização e extremismo são a consequência

     

    O professor Cass Sustein, jurista de Harvard, conduziu uma pesquisa em que separou dois grupos com orientações políticas opostas e pediu que cada grupo debatesse entre si seus posicionamentos em relação a políticas públicas específicas, como casamento gay e ações afirmativas.

    Ele observou que, antes do debate, os conservadores e os liberais tinham visões mais plurais. Depois de discutir apenas com aqueles que pensavam parecido, a diversidade de visões caiu. Dos dois lados, os sujeitos entrevistados deram opiniões mais extremistas e polarizadas depois de debater com seus iguais.

    O pesquisador Eli Pariser, autor do livro “The Fitler Bubble: What the Internet Is Hiding From You”, defende que o sistema democrático sai prejudicado, a longo prazo, quando esse tipo de fenômeno acontece.

    “A democracia demanda que as pessoas sejam capazes de se colocar no lugar do outro, mas em vez disso nós estamos mais fechados dentro de nossas bolhas. Democracia demanda que dependamos daquilo que compartilhamos com os outros; em vez disso, estão nos oferecendo universos paralelos, separados”, argumenta Pariser em seu livro.

    Há também pesquisas que falam da diversidade de gênero, raça, idade, etnia e orientação sexual como fatores correlatos com grupos mais criativos, inovadores, tolerantes e com pensamento crítico mais apurado.

     

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